Nem Armínio Fraga resiste: Gávea fecha fundos multimercados e ex-BC entrega gestão para a Bradesco Asset
Gestora fundada pelo ex-presidente do Banco Central encerra ciclo histórico após admitir que o mercado mudou e que os resultados recentes ficaram aquém do esperado

Nem Armínio Fraga quis continuar remando contra a maré dos fundos multimercados. Em uma indústria que perdeu centenas de bilhões de reais para a renda fixa nos últimos anos e vê cada vez menos espaço para entregar retornos acima do CDI, a Gávea Investimentos decidiu encerrar sua atuação na gestão de recursos desse segmento e escolheu a Bradesco Asset para assumir os fundos Gávea Macro.
Se a operação for aprovada pelos cotistas, a gestora comandada por Bruno Funchal passará a administrar cerca de R$ 2 bilhões em recursos de terceiros atualmente sob responsabilidade da Gávea.
O movimento encerra um ciclo para uma das casas mais tradicionais do mercado brasileiro, que ajudou a construir a própria indústria brasileira de multimercados.
Fundada em 2003 por Armínio Fraga — hoje integrante da força-tarefa de Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) — e Luiz Fraga, a Gávea se tornou uma referência em estratégias macroeconômicas e atravessou diferentes ciclos dos mercados.
Mas o cenário mudou. Com juros reais elevados, produtos de renda fixa competitivos e uma indústria que vem sofrendo resgates bilionários, os multimercados perderam espaço entre os investidores.
O próprio desempenho recente dos fundos ilustra esse ambiente. O Gávea Macro Master FIM, principal multimercado da casa, rendeu em julho o equivalente a apenas 64,1% do CDI.
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No acumulado de 12 meses, entregou menos de 58% do benchmark e, desde sua criação, em 2008, acumula retorno de 102,82% do CDI — pouco acima da referência no longo prazo.
Em entrevista ao Pipeline, do Valor Econômico, Armínio Fraga afirmou que a decisão faz parte de um reposicionamento iniciado anos atrás. Há cerca de três anos e meio, a gestora optou por não levantar um sexto fundo de private equity. Agora, chegou a vez dos multimercados.
A Gávea passará a administrar apenas o portfólio legado de private equity — cerca de R$ 1 bilhão — e o patrimônio próprio dos sócios, segundo o site.
Ao Pipeline, Fraga reconheceu que a estratégia enfrentou dificuldades nos últimos anos. Embora rejeite a ideia de que a decisão represente uma perda de confiança no Brasil, o ex-BC admite que o ambiente ficou mais hostil para a indústria de multimercados.
Procurada, a Gávea não retornou o contato do Seu Dinheiro até a publicação desta reportagem. A Bradesco Asset também foi procurada, mas ainda não se manifestou. O espaço segue aberto.
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Armínio Fraga passa bastão dos multimercados para a Bradesco Asset
Segundo comunicado divulgado pelas gestoras, a transferência tem como objetivo "assegurar a continuidade dos investimentos e a preservação das estratégias dos fundos, por meio de uma transição estruturada".
A ideia é preservar a filosofia de investimento construída pela Gávea, combinando com a estrutura de análise macroeconômica e gestão de risco da Bradesco Asset.
Segundo a gestora ligada ao Bradesco, ela liderou a categoria de multimercados no ranking da FGV de "Melhor Banco para Investir" em 2024, 2025 e 2026.
"A Bradesco Asset se sente honrada pela confiança depositada pela Gávea ao nos indicar como sucessora na gestão desses recursos. Essa escolha reforça a solidez da nossa gestora, a credibilidade construída ao longo da nossa trajetória e o compromisso permanente com a excelência na gestão de recursos", afirmou Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset, em nota.
Mudança pode incluir parte da equipe da Gávea
Funchal também destacou o legado da gestora fundada por Armínio Fraga.
"Gostaria também de registrar nosso reconhecimento à relevante contribuição da Gávea para o desenvolvimento da indústria brasileira de fundos ao longo das últimas décadas."
Assim, a sucessão não deve envolver apenas os recursos administrados.
A Bradesco Asset informou que mantém conversas com profissionais da Gávea para avaliar a incorporação de parte da equipe responsável pelos fundos Gávea Macro.
O objetivo é preservar o conhecimento acumulado ao longo dos anos e reduzir eventuais rupturas na estratégia dos fundos durante a transição.
Reforço para uma gestora de R$ 1 trilhão
Se a transferência for aprovada pelos cotistas, a Bradesco Asset ampliará ainda mais sua presença entre as maiores gestoras do país.
Hoje, a gestora ligada ao Bradesco administra mais de R$ 1 trilhão em ativos e vem expandindo sua atuação em diferentes segmentos da indústria de fundos.
Além da escala, a Bradesco Asset afirma que sua estrutura de pesquisa, governança, gestão de riscos e tecnologia pesou na escolha feita pela Gávea.
A proposta, segundo a gestora, é manter a estratégia dos fundos e oferecer aos cotistas uma transição organizada após a saída da Gávea da gestão de multimercados.
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