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AINDA É EXCEPCIONAL?

Por que o mercado erra ao apostar que Trump vai “amarelar”, segundo a Gavekal

Economista-chefe da consultoria avalia se o excepcionalismo norte-americano chegou ao fim e dá um conselho para os investidores neste momento

Silhueta de Donald Trump pegando fogo com bandeira dos EUA no fundo.
Imagem: iStock

Quando Donald Trump mirou nos parceiros comerciais dos EUA e disparou tarifas, também colocou um alvo no mercado e fez com que os investidores se perguntassem se esse seria o fim do excepcionalismo norte-americano — o capítulo mais recente aconteceu na semana passada, quando os tribunais mantiveram as tarifas temporárias do republicano. 

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A resposta para essa questão não é simples porque Trump inverteu a hierarquia usual de incertezas econômicas: a perspectiva para as próximas semanas ou meses, que geralmente é bastante clara, tornou-se imprevisível, já que depende da reação de Trump nas redes sociais. 

E mais: os investidores podem estar olhando para o lugar errado em busca de saber se o fim do excepcionalismo dos EUA chegou ao fim. Segundo Anatole Kaletsky, presidente e economista-chefe da consultoria Gavekal, a resposta pode não estar na política comercial de Trump. 

  • E MAIS: Alta nas projeções para o IPCA em 2025 abre oportunidades para o investidor buscar retornos reais de 8,36% ao ano; confira recomendações

“Ameaças muito maiores ao excepcionalismo norte-americano em longo prazo do que as políticas comerciais de Trump são a ambivalência em relação ao estado de direito e aos direitos de propriedade de investidores estrangeiros, por exemplo”, diz Kaletsky.

Mas, segundo ele, todos esses casos de autossabotagem dos EUA poderiam ser revertidos antes que seja tarde demais — seja pelo próprio Trump ou por um de seus sucessores.

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“Isso torna a perspectiva de longo prazo para o excepcionalismo norte-americano literalmente impossível de prever, dada a enorme vantagem que os EUA agora desfrutam em tantas dimensões econômicas, tecnológicas, financeiras e geopolíticas. A perspectiva no curto prazo imediato tornou-se altamente imprevisível”, afirma Kaletsky. 

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A resposta para os EUA virá em até um ano

Apesar das incertezas, duas afirmações sobre o excepcionalismo norte-americano podem ser feitas com confiança, de acordo com a Gavekal: 

  • Ninguém saberá com certeza se os EUA estão genuinamente perdendo a liderança global até algum momento na próxima década; 
  • O sentimento entre os investidores sobre a sustentabilidade do excepcionalismo norte-americano será fortemente influenciado por quão bem — ou mal — a economia dos EUA se sair nos próximos um ou dois anos. 

“Se a economia dos EUA experimentar recessão e/ou estagflação no próximo ano, como acredito ser provável, enquanto a Europa e a China sofrerem apenas desacelerações modestas como resultado das tarifas de Trump, o senso comum quase certamente declarará o fim do excepcionalismo como um fato estabelecido”, afirma Kaletsky. 

O economista-chefe, no entanto, diz que o comportamento dos investidores de longo prazo nos mercados financeiros dos EUA dependerá muito de como a economia norte-americana se sair nos próximos seis a 12 meses, tanto em termos absolutos quanto em relação ao resto do mundo. 

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“E uma consequência paradoxal do choque comercial de Trump foi tornar essa perspectiva cíclica de médio prazo mais previsível do que o normal”, acrescenta. 

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O resto do mundo além dos EUA

Por outro lado, as perspectivas para outras grandes economias parecem melhores agora do que há alguns meses e, segundo a consultoria, isso ocorre por duas razões:

  • O efeito direto na atividade econômica da guerra comercial de Trump será muito menor na Europa e na China do que nos EUA — segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o efeito negativo nos EUA será sete vezes maior do que o efeito na China.
  • Uma consequência não intencional do nacionalismo econômico extremo de Trump e do isolacionismo militar inesperado foi galvanizar tanto a Europa quanto a China a adotarem ações fiscais estimulantes em uma escala não vista na China desde a crise financeira de 2008 e na Europa desde a reunificação alemã em 1991.

Kaletsky espera uma reversão do clichê que descreveu com precisão todos os ciclos globais desde os anos 80: "Quando os EUA espirram, o resto do mundo pega pneumonia". 

“Desta vez, os EUA sofrerão um forte caso de gripe, se não pneumonia, enquanto o resto do mundo apenas assoará o nariz”, afirma o economista-chefe. 

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Segundo ele, a alta probabilidade de desempenho cíclico inferior dos EUA ainda não está remotamente precificada pelos mercados financeiros — embora o dólar tenha enfraquecido desde a eleição de Trump e as ações europeias e chinesas tenham superado Wall Street, poucos investidores conseguem imaginar um mundo em que os EUA sofram uma desaceleração mais profunda ou prolongada do que a Europa, a China ou os mercados emergentes.

Trump não vai "amarelar"

Kaletsky alega que as recentes oscilações do mercado são apenas ruído e que os investidores devem se concentrar na perspectiva de médio prazo, mas alerta:

“A leve moderação nas tarifas dos EUA sugerida — mas ainda não remotamente garantida — pelos acordos comerciais com a China e o Reino Unido ainda deixará os preços muito mais altos para os consumidores dos EUA e perturbará severamente os fluxos comerciais em comparação com o status quo ante que prevalecia antes de 2 de abril”, afirma. 

Nesse sentido, o chefe do JP Morgan, Jamie Dimon, advertiu no mês passado que mesmo as tarifas reduzidas são extremas e Wall Street está exibindo "um nível extraordinário de complacência" ao celebrar cada pequena concessão tarifária de Trump como se esses recuos marginais de uma guerra comercial totalmente catastrófica fossem capazes de remover todos os riscos econômicos.

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“Na minha opinião, as flutuações selvagens na confiança do mercado que seguiram as oscilações de Washington sobre as tarifas após 2 de abril são puro ruído de curto prazo sem relevância para o que está acontecendo na economia mundial. Esse ruído desconcertante, gerado pelos anúncios de Trump nas redes sociais e pelas negociações diárias que eles inspiram, está abafando todos os sinais econômicos genuínos”, diz. 

O conselho Kaletsky é, portanto, não pensar demais sobre questões estruturais profundas sobre o excepcionalismo norte-americano, mesmo que você seja um investidor de longo prazo. 

“E ignore o ruído de curto prazo gerado pelas reversões de política dos EUA, a menos que você seja um day trader. Pelo contrário, o novo e reconfortante clichê de negociação de curto prazo de que ‘Trump Always Chickens Out’ [Trump Sempre Cede ou Taco] deve ser desconsiderado, já que o comportamento de mercado otimista baseado nessa suposição ‘Taco’ tornará Trump menos propenso a reverter suas piores políticas”, acrescenta. 

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