O estouro da bolsa brasileira: gestor rebate tese de bolha na IA e vê tecnologia abrindo janela de oportunidade para o Brasil
Em entrevista exclusiva ao Seu Dinheiro, Daniel Popovich, gestor da Franklin Templeton, rebate os temores de bolha nas empresas de inteligência artificial e defende que a nova tecnologia se traduzirá em crescimento de resultados para as empresas e produtividade para as economias

“A bolha estourou”. Foi com essa manchete que a imprensa ao redor do mundo noticiava, em abril de 2000, a fuga dos investidores de ações de alta tecnologia, que provocou um efeito dominó na Ásia, na Europa e nas Américas, e levou o Nasdaq a uma desvalorização de 34% àquela altura.
Mais de 25 anos depois, o mercado lida com o medo de uma bolha de negócios ligados à inteligência artificial (IA) estourar. Para Daniel Popovich, gestor da Franklin Templeton, essa possibilidade é remota. E mais: o cenário atual é bastante positivo para a bolsa brasileira, diz o gestor da casa com mais de US$ 1,5 trilhão em ativos sob gestão no mundo, R$ 43 bilhões apenas no Brasil.
Em entrevista exclusiva para o Seu Dinheiro, Popovich rebate os temores recentes de que a inteligência artificial esteja com os dias contados e defende a tese de que a IA não só se traduzirá em crescimento no resultado das empresas como em produtividade para as economias como um todo.
O gestor é categórico: "A resposta para se hoje estamos em uma bolha de inteligência artificial é não, e o motivo é simples: as empresas estão se financiando com recursos próprios, gerados de negócios que existem".
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Ele argumenta que o investimento em capital fixo em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) é menor do que em crises passadas, e lembra que as companhias ligadas à IA possuem negócios sólidos e lucrativos.
Em outras palavras, são gigantes de tecnologia com operações consolidadas, cenário muito diferente daquele do início dos anos 2000.
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Naquela época, embora a Dell fosse a líder mundial de computadores pessoais, o Yahoo! fosse o site de buscas mais usado e a Microsoft se preparasse para lançar o Windows 2000, a onda pontocom que acabou gerando uma bolha foi basicamente formada por startups que captavam rios de dinheiro para montar negócios na internet.
“As empresas de internet dos anos 2000 faziam IPO [oferta inicial de ações] e captavam dinheiro com a promessa de um retorno futuro. As companhias ligadas à IA já estão na bolsa e não precisam aumentar capital; elas geram o capital para investir. Esse é um claro diferenciador de um cenário de bolha quando comparamos com os anos 2000”, diz Popovich.
E os múltiplos reforçam a tese. Segundo o gestor, o preço sobre lucro futuro — P/L, métrica usada para avaliar se uma ação está sobre ou subvalorizada — das empresas de IA está em cerca de 26,8 vezes, bem abaixo das 52 vezes vistas na bolha da internet dos anos 2000.
Atenção, investidor: o otimismo cauteloso de gestoras e fundos com a IA
Apesar da visão positiva do gestor da Franklin Templeton, vale lembrar que o cenário não é linear: o mercado enfrenta volatilidade nas expectativas, intercalando euforia com momentos de dúvida sobre a viabilidade dos investimentos bilionários e a concorrência internacional, como a entrada de modelos chineses na IA.
- Vale lembrar que, em janeiro deste ano, a DeepSeek derrubou as ações das gigantes de tecnologia norte-americana. Na ocasião, a chinesa surgiu como uma alternativa viável e mais barata de IA, levantando questões sobre a sustentabilidade do nível de gastos e investimentos no setor por empresas ocidentais como Nvidia, Apple, Oracle ou mesmo à OpenAI, dona do popular ChatGPT.
Popovich chama atenção para o fato de que, enquanto o investidor pessoa física segue confiante na bolsa, aumentando posição, do lado das gestoras e fundos de hedge, o posicionamento é um pouco mais cauteloso.
“Essa cautela não é sem razão: se amanhã tiver uma queda muito brusca do mercado norte-americano, pode ocorrer um impacto patrimonial considerável para o investidor pessoa física, gerando uma cascata de consequências que tende a bater no consumo”, diz.
“Dois terços do PIB dos EUA é consumo interno, então, essa exposição ao mercado acionário e ao setor de IA, especificamente, deve ser avaliada com cuidado, já que qualquer impacto pode ser bastante relevante para a economia”, acrescenta.
O estouro... da bolsa brasileira (no melhor sentido)
O mercado norte-americano vive um momento de otimismo impulsionado pelo avanço da IA, com as grandes empresas de tecnologia liderando os índices em Nova York — um movimento que, somado à desvalorização do dólar e à busca global por alternativas de investimento, esbarra no Brasil.
O Ibovespa encerrou novembro com ganho de 6,37%, o melhor desempenho mensal desde agosto de 2024. No ano, o principal índice da bolsa brasileira acumula valorização superior a 30%.
No entanto, o desempenho dos ativos brasileiros deve ser lido com cautela: ele é fruto de uma maré global favorável aos emergentes e não necessariamente de melhorias internas.
“Muito do movimento da bolsa que a gente viu até aqui está sendo impulsionado por tendências globais mais do que por algo idiossincrático da economia brasileira”, afirma.
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Essa rotação de capital, segundo o gestor, ganhou força com a mudança de percepção sobre os EUA, motivada por uma postura mais hostil em acordos comerciais e de segurança por parte do governo norte-americano — o que fez o estrangeiro buscar outras regiões para investir.
“Para o investidor global, que tem o portfólio em dólar, o Brasil se tornou muito atrativo. Basta pensar que o fluxo de caixa que ele vai ganhar em reais será ajustado para dólar, e que a moeda brasileira tem se valorizado bastante”, diz.
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Segundo o gestor, no Brasil, as oportunidades se estendem além da bolsa. Se a volatilidade cambial permanecer controlada, os juros locais também oferecem retornos expressivos para o capital estrangeiro.
“Se a expectativa do mercado continuar sendo de estabilidade no dólar, principalmente na comparação com o real, os ativos brasileiros ainda têm bastante espaço para avançar”, diz Popovich, acrescentando que isso torna a renda fixa local bastante atrativa.
Em 2025 até aqui, o dólar à vista acumula desvalorização de cerca de 15% com relação ao real.
No entanto, há um alerta sobre o cenário doméstico: a continuidade desse fluxo positivo depende da cooperação do ambiente político local às vésperas de um ano eleitoral.
“Se o lado político voltar a pesar muito sobre o preço dos ativos, isso será embutido em um prêmio de risco que os ativos de renda fixa terão que entregar, e se houver uma piora com relação ao câmbio, provavelmente vamos ver os ativos de risco aqui no Brasil recuando — e aí, nem a IA poderá ajudar”, acrescenta.
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