O “ano de Troia” dos mercados: por que 2026 pode redefinir investimentos no Brasil e nos EUA
De cortes de juros a risco fiscal, passando pela eleição brasileira: Kinea Investimentos revela os fatores que podem transformar o mercado no ano que vem

A Kinea Investimentos batizou 2026 de “ano de Troia”: decisões políticas, muitas vezes tomadas em mesas fechadas, desencadeiam forças muito maiores do que seus autores são capazes de controlar. Para a gestora, é isso que deve marcar o próximo ano tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.
Segundo a Kinea, este será um ano em que a disputa não acontecerá apenas entre economias desenvolvidas e emergentes, nem entre juros altos e ativos de risco, mas entre projetos de poder.
Eleições presidenciais no Brasil e de meio de mandato (midterms) nos EUA são os eventos centrais dessa narrativa. Elas devem mexer com juros, moedas, fluxo de capital e o apetite global por risco.
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Nesse campo de batalha, a gestora afirma que não vencerá quem tiver mais força bruta, mas quem souber proteger o próprio calcanhar de Aquiles — sejam governos, bancos centrais ou investidores.
O cerco prolongado: o que está em jogo para os mercados nos Estados Unidos
Os EUA entram em 2026 sob o que a Kinea chama de “cerco fiscal longo e desgastante”. Há anos, o país opera com déficits volumosos para financiar políticas industriais, programas sociais e, mais recentemente, uma corrida bilionária por infraestrutura energética e inteligência artificial (IA).
Esse impulso fiscal sustentou o consumo e a popularidade política, mas criou um problema crescente: a dívida pública atingiu níveis não vistos desde a Segunda Guerra, e o custo de rolagem da dívida subiu de forma expressiva.
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É nesse ambiente que as eleições de meio de mandato de 2026 surgem como um novo campo de disputa.
Manter o controle do Congresso é crucial para a continuidade da agenda econômica — e isso reabre a porta para cortes de impostos e até a ideia de devolver receitas de tarifas à população, o que poderia injetar o equivalente a 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nas mãos dos consumidores, segundo a Kinea.
Mas a gestora acende o alerta: repetir a fórmula da pandemia, em um cenário de inflação acima da meta e déficits persistentes, pode reacender a instabilidade justamente quando se tenta controlá-la.
A pressão cresce ainda mais devido à possibilidade de um Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) mais tolerante à inflação para viabilizar cortes de juros.
Essa dinâmica simultânea — estímulos fiscais ampliados e política monetária mais branda — pressiona o dólar e também a parte mais longa da curva de juros.
O debate deixa de ser apenas se o Fed vai cortar juros, e passa a ser a que custo — em inflação, dívida e credibilidade.
IA: de motor para infraestrutura a motor para receita
Há um outro elemento central no cenário norte-americano: o ciclo da inteligência artificial. Se 2025 foi o ano do investimento em data centers, chips, modelos e infraestrutura, 2026 será o ano da cobrança.
O mercado, segundo a Kinea, deixa de premiar quem investe e passa a exigir quem consegue transformar IA em receita recorrente e em aumento real de lucro.
É a “batalha da receita” que definirá quem realmente sai vencedor dessa corrida tecnológica.
Brasil: o duelo que definirá a narrativa dos mercados
Enquanto os EUA lidam com um cerco prolongado, o Brasil caminha para uma eleição que, na leitura da Kinea, se parece com o duelo entre Aquiles e Heitor.
A perspectiva da Kinea é de que a disputa fique entre Luiz Inácio Lula da Silva, o incumbente, e Tarcísio de Freitas, que emerge como o desafiante do atual presidente.
São dois projetos de país com visões opostas sobre responsabilidade fiscal, produtividade, política industrial e ambiente de negócios.
A vantagem do incumbente no Nordeste é robusta. Já o desafiante aparece como uma força emergente, com apoio relevante de parte do empresariado. Mas, segundo a Kinea, o verdadeiro campo de batalha estará no Sudeste, especialmente em São Paulo — onde o atual presidente lidera as intenções de voto, algo improvável até pouco tempo atrás.
Economia em marcha lenta, espaço para cortes de juros
O pano de fundo econômico não é trivial. O Brasil entra no segundo semestre de 2025 praticamente estagnado, com o mercado de trabalho perdendo fôlego e a inflação surpreendendo para baixo.
Para a Kinea, esse ambiente cria as condições para o Banco Central iniciar um ciclo de cortes de juros logo no primeiro trimestre de 2026 — possivelmente mais profundo do que o precificado hoje na curva.
A questão decisiva, porém, não é a monetária. É a fiscal.
Eleições no Brasil, desafio fiscal e a bolsa brasileira
A capacidade do governo de entregar um plano fiscal crível — ou de o desafiante de apresentar uma alternativa consistente sem recorrer a aumentos relevantes de impostos — é o que deve ditar o rumo dos ativos domésticos em 2026, segundo a Kinea.
Hoje, o prêmio de risco do mercado de ações brasileiro está próximo da média histórica, mas os juros reais longos permanecem em patamar inconsistente com um “bull market” sustentado, segundo a Kinea.
A avaliação é que um plano fiscal sólido teria poder para comprimir a parte longa da curva e destravar um movimento relevante de valorização da bolsa. A Kinea descreve esse potencial como “grande demais para ser ignorado”.
Isso justifica a preferência por comprar opcionalidades em bolsa e manter posições em real, visto como uma aposta assimétrica graças ao alto diferencial de carrego (carry) frente ao dólar.
O tabuleiro global das commodities em 2026
No cenário global de commodities, a Kinea vê três protagonistas:
- Ouro: mantém o posto de porto seguro em um mundo pressionado por déficits elevados, incerteza fiscal e compras constantes de bancos centrais;
- Petróleo: enfrenta excesso de oferta, mas com um piso funcional: abaixo de US$ 50, a produção marginal nos EUA começa a ceder; e
- Gás natural: batizado pela Kinea como o “fogo sagrado da era da IA”, o gás natural se torna o combustível estratégico do século, com data centers sendo instalados a um ritmo histórico.
No fim, o que define o “ano de Troia” não é a batalha em si, mas o preço da vitória.
Nos EUA, a insistência no estímulo fiscal pressiona o dólar e alonga a curva de juros. No Brasil, a eleição determina a credibilidade fiscal — e, com ela, o valor de todos os ativos domésticos.
Se a muralha fiscal for reforçada, a Kinea acredita que o país tem potencial para um dos “ciclos mais interessantes entre os emergentes”.
É por isso que, em 2026, a pergunta fundamental não será “quem vencerá a guerra?”, mas quem sobreviverá às próprias vulnerabilidades — ao seu calcanhar de Aquiles.
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