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O IPCA-15 de outubro no Brasil e o CPI de setembro nos EUA deram confiança aos investidores de que a taxa de juros deve cair — mais rápido lá fora do que aqui

Se a inflação costuma ser a vilã dos mercados, nesta sexta-feira (24) não foi. Os esfriamentos de preços nos EUA em setembro e por aqui em outubro patrocinaram recordes nas bolsas de Nova York, levando o Ibovespa de volta ao patamar do final de setembro — 147 mil pontos — e ainda fez o dólar perder força.
O índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) de setembro — que foi adiado devido à paralisação do governo norte-americano — subiu 0,3% no mês, elevando a taxa de inflação anual para 3%, de acordo com o Bureau of Labor Statistics. As previsões eram de alta de 0,4% e 3,1%, respectivamente.
Excluindo alimentos e energia, o núcleo do CPI teve alta de 0,2% em setembro e de 3% em 12 meses, também abaixo das projeções de 0,3% e 3,1%, respectivamente.
Com os dados na mão, os investidores correram para ajustar as apostas na queda dos juros nos EUA. De acordo com a ferramenta FedWatch do CME Group, a probabilidade de que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) corte a taxa em dezembro saltou de 91% antes dos dados para 98,5%. A chance de um corte na próxima semana permaneceu em torno de 98%-99%.
Em Wall Street, a reação ao CPI também foi imediata: o Dow Jones deu uma arrancada de 400 pontos para um novo recorde. O Dow subiu 1,01%, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq tiveram alta de 0,79% e 1,15%, respectivamente. Na renda fixa, o yield (rendimento) dos títulos do Tesouro norte-americano de 10 anos chegaram a cair abaixo de 4%.
Por aqui, o CPI e o índice nacional de preços ao consumidor amplo 15 (IPCA-15) também ajudaram o Ibovespa a renovar recordes. O principal índice da bolsa brasileira chegou aos 147.239,79 pontos no pico da sessão. No fechamento, o Ibovespa subiu 0,31%, aos 146.172,21 pontos.
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No mercado de câmbio, o dólar à vista perdeu força ao longo da sessão, acompanhando o comportamento da moeda norte-americana no exterior após os dados de inflação, mas acabou terminando com ganhos de 0,12%, a R$ 5,3926.
A alta de 0,18% do IPCA-15 é a mais branda para outubro desde 2022, quando subiu 0,16%. Em outubro de 2024, o índice avançou 0,54%. Em setembro de 2025, apresentou elevação de 0,48%.
O resultado de outubro de 2025 fez a taxa acumulada em 12 meses arrefecer, segundo os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na manhã de hoje. O IPCA-15 acumulado em 12 meses passou de 5,32% em setembro para 4,94% em outubro — a mais baixa desde janeiro deste ano, quando estava em 4,50%. No acumulado de 2025 até outubro, o IPCA-15 tem alta de 3,94%.
O resultado do IPCA-15 de outubro reafirmou a tendência recente de desinflação da economia brasileira, com uma leitura quantitativa e qualitativa positiva, segundo o economista sênior do Inter, André Valério.
Para os últimos meses do ano, ele espera manutenção dessa tendência de desinflação, com menores pressões nos combustíveis e energia, enquanto a política monetária restritiva deve contribuir para manter a inflação de serviços e núcleos em queda.
O Inter projeta alta de 4,7% para o IPCA de 2025 e início do processo de flexibilização monetária em janeiro. Atualmente, a Selic está em 15% ao ano.
Para a economista Luciana Rabelo, do Itaú BBA, o IPCA-15 veio com um aspecto qualitativo melhor do que o previsto. Segundo ela, houve surpresa de baixa tanto em serviços subjacentes — seguro e conserto de automóveis — como em industriais subjacentes — higiene pessoal e aparelho telefônico.
Para 2025, o BBA espera que o IPCA feche em 4,6%, de 4,7% anteriormente.
Na avaliação do Bradesco BBI, a desaceleração do IPCA-15 em outubro para 0,18% ocorreu de maneira ampla e generalizada, "indicando que não é apenas o câmbio que está contribuindo para a redução da inflação".
"Esperamos que esse movimento prossiga e o IPCA termine o ano em 4,5%", diz o time do BBI em relatório.
O banco apontou que os preços dos alimentos consumidos no domicílio continuaram a cair, embora em um ritmo mais lento do que nos meses anteriores. Em um ano, essa categoria acumulou alta de 5,5%, uma redução de 1,1 ponto porcentual em relação ao mês anterior.
Segundo o BBI, a apreciação cambial recente foi um dos fatores que ajudou na queda dos preços dos bens industriais, que tiveram uma leve redução de 0,02% em outubro e acumularam alta de 3,4% nos últimos 12 meses.
As bolsas subiram e os investidores correram para aumentar a aposta na queda de juros nos EUA após o CPI de setembro. O Fed tem reunião marcada para a próxima quarta-feira (29) e o afrouxamento neste encontro é dado como certo. Atualmente a taxa por lá está na faixa entre 4,00 e 4,25% ao ano.
Para o CIBC, os dados de setembro do CPI vieram abaixo do esperado, mas números mais altos provavelmente não fariam diferença para a trajetória de queda dos juros básicos norte-americanos.
"A exigência para convencer o Fed a não cortar juros em outubro era muito alta, e os dados de hoje certamente não atendem a esse padrão, tornando o corte das taxas da próxima semana praticamente certo", diz o CIBC, em nota a clientes.
O CIBC pondera ainda que dois cortes de juros adicionais até o fim do ano, totalizando 50 pontos-base, tornaram-se a dosagem preferida dos dirigentes do Fed para garantir alívio à economia, "em grande parte porque a sensibilidade da economia a cortes de juros diminuiu ao longo do tempo."
Thomas Feltmate, diretor e economista sênior da TD Economics, avalia que o relatório de inflação de setembro veio um pouco mais fraco do que o esperado, graças a uma forte queda nos custos primários de moradia.
Em outros setores, segundo ele, há muitos sinais sugerindo que as pressões inflacionárias elevadas provavelmente persistirão nos próximos meses — o repasse tarifário continuou a aumentar, com 75% das categorias de bens apresentando ganhos de preços no mês passado (acima dos 67% em agosto).
“Com a desaceleração do mercado de trabalho norte-americano se tornando uma preocupação mais urgente para as autoridades, não acreditamos que as elevadas pressões inflacionárias atuais impeçam o Fed de realizar outro corte de juros de 0,25 ponto percentual na próxima semana”, diz Feltmate.
Ele, no entanto, chama atenção para o fato de que leituras mais elevadas em relatórios de inflação subsequentes podem ter implicações para decisões futuras.
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