Gradiente (IGBR3) chega a disparar 47%, mas os acionistas têm um dilema: fechar o capital ou crer na vitória contra a Apple?
O controlador da IGB/Gradiente (IGBR3) quer fazer uma OPA para fechar o capital da empresa. Entenda o que está em jogo na operação

Suponha que você seja acionista de uma empresa em recuperação judicial desde 2018 — e sem grandes perspectivas de melhora nas operações. Ao acordar, recebe a seguinte oferta: venda os seus papéis com um prêmio de 55% em relação ao preço de tela. Pois é exatamente essa a situação dos investidores da IGB, a antiga Gradiente (IGBR3).
Só que, o que pode parecer uma decisão óbvia à primeira vista, ganha contornos mais dramáticos. De um lado, a chance de realizar lucros relevantes com o eventual fechamento de capital da companhia; do outro, a possibilidade de um ganho ainda maior caso a Gradiente vença um processo contra a Apple que envolve o uso da marca iPhone.
Sim, é isso mesmo: a IGB/Gradiente está enfrentando a toda poderosa Apple na Justiça — o caso ainda vai ser analisado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), numa data a ser definida. E, se for declarada vencedora, pode conseguir numa tacada só os recursos necessários para quitar as dívidas com credores e voltar às operações.
Uma escolha delicada, dado que é impossível ter certeza dos rumos das discussões no STF. Mas, seja como for, o mercado reagiu bem: logo após a abertura, as ações IGBR3 chegaram a disparar 47%, indo a R$ 38,50; ao fim do pregão, eram negociadas a R$ 33,30, numa 'modesta' alta de 27,4%
O papel, no entanto, ainda está longe das máximas históricas: em fevereiro de 2021, chegou a ser negociado perto dos R$ 180 (sim, R$ 180). Mesmo com o salto de hoje, a IGB/Gradiente ainda não está sequer nos maiores patamares de 2022 — em janeiro e em março deste ano, as ações IGBR3 tocaram os R$ 49,00.
Veja abaixo como estavam as ações por volta de 12h:
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Gradiente (IGBR3): adeus à bolsa?
Em primeiro lugar, é importante esclarecer: quem está tão disposto a comprar as ações da IGB/Gradiente (IGBR3), de modo a oferecer esse prêmio tão atraente?
O potencial comprador é a HAG Participações, holding que detém 51% do capital da Gradiente e, basicamente, serve como veículo de investimento da família Staub, dona da empresa. A HAG, inclusive chegou a flertar com uma possível abertura de capital na bolsa em 2012, fazendo um pedido de registro junto à CVM, mas desistiu dos planos em 2014.
Pois, ao que parece, a HAG não quer mais ter envolvimento com o mercado de ações: a holding pretende fazer uma oferta pública de aquisição (OPA) de ações da Gradiente para o fechamento de capital da companhia, ao valor unitário de R$ 40,51 — na última sexta-feira (9), os papéis IGBR3 valiam R$ 26,13.
E como funciona esse processo? Num dia a ser determinado, ocorrerá um leilão na B3 em que os acionistas da IGB poderão vender suas ações à HAG pelo valor de R$ 40,51. Caso mais de 2/3 dos participantes cadastrados aceitem a proposta, o fechamento de capital será levado adiante.
Caso o quórum necessário não seja atingido, então a HAG aumentará sua fatia no capital social da Gradiente, enquanto o volume de papéis em livre circulação no mercado irá diminuir em relação ao nível visto hoje — que, diga-se, já não é muito expressivo.
Segundo dados presentes na última versão do formulário de referência da Gradiente, o capital social da empresa estava dividido da seguinte maneira:
- HAG Participações: 50,999%
- Hemi Consultoria e Assessoria: 0,001%;
- Moris Arditti: 0,012%;
- Ricardo Emile Staub: 0,01%;
- Outros: 48,987%.
A Hemi também é ligada aos Staub — Ricardo Emile, no caso, é o diretor-presidente da Gradiente, enquanto Moris Arditti é um outro membro da diretoria executiva. Não há ações em tesouraria — 48,987% do capital social da companhia está em circulação no mercado, sob a forma de pouco mais de 6 milhões de papéis IGBR3.
A disparada das ações nesta segunda-feira está diretamente relacionada aos termos da oferta da HAG: investidores interessados num lucro rápido compram os papéis da Gradiente, montando uma posição a ser vendida no leilão da OPA — desde que o preço de compra seja inferior aos R$ 40,51 propostos, o saldo positivo é garantido.
Mas... por que só agora a HAG/família Staub quer fechar o capital da Gradiente?
A incerteza do STF
Um primeiro ponto a ser levado em conta é a metodologia para definição dos R$ 40,51 da OPA: a HAG considerou a média ponderada das cotações das ações da Gradiente (IGBR3) durante um ano — mais precisamente, a janela entre 1º de setembro de 2021 e 31 de agosto de 2022.
Lembra-se de que a máxima histórica das ações IGBR3 ocorreu no começo de 2021, chegando a R$ 180? Pois bem: o momento escolhido pela HAG leva em conta esse evento: a holding aguardou para que a janela de cálculo de um ano para o preço da OPA desconsiderasse boa parte dessa distorção nos preços.

Em segundo lugar, há a natureza volátil dos papéis IGBR3 — convenhamos que não é exatamente normal uma ação de empresa em recuperação judicial chegar a R$ 180. O fechamento de capital é uma maneira de a administração evitar essas flutuações tão intensas e de caráter especulativo.
Dito isso, há a questão envolvendo a Apple — um caso peculiar e que se arrasta há anos na Justiça.
Em resumo: a Gradiente registrou o termo "iphone", com todas as letras em caixa baixa, no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) ainda no ano 2000, muito antes de a Apple lançar o seu "iPhone" no mundo. A argumentação, portanto, é a de que a empresa da maçã deveria pagar pelo uso da marca.
Casos semelhantes já foram vistos no passado: a Apple precisou fazer um acordo com a Cisco para usar comercialmente o termo iPhone nos EUA; no México, uma empresa com uma alegação semelhante à da Gradiente foi declarada vencedora pelos tribunais locais.
A Gradiente já perdeu várias disputas em instâncias inferiores da Justiça brasileira. Em março, no entanto, o STF declarou que iria analisar o tema, recolocando a disputa no radar dos investidores. Em julho, a Procuradoria-Geral da República (PGR) deu ganho à Apple, mas a decisão final cabe ao Supremo.
Não há data marcada para que o STF paute a disputa entre Gradiente e Apple — e é difícil imaginar que, em meio às eleições presidenciais, o tema seja pautado ainda neste ano. Mas a expectativa persiste, e ela parece ser a direcionadora dos movimentos da HAG Participações.
Caso a OPA seja bem sucedida e o capital da IGB/Gradiente seja fechado, a HAG/família Staub será a única dona da empresa; e, se o STF der ganho de causa aos brasileiros, os eventuais ganhos e acordos a serem firmados com a Apple ficarão com esse grupo restrito de sócios.
A mesma lógica vale para os acionistas: quem aceita a OPA não troca o certo pelo duvidoso e embolsa os lucros da proposta da HAG; quem recusa, aposta na eventual vitória da Gradiente na Justiça e os possíveis ganhos ainda maiores que esse desfecho poderá trazer — a própria indenização ou acordo a ser firmado não tem uma cifra prevista.
IGB/Gradiente (IGBR3): o que resta?
Segundo o balanço consolidado da IGB/Gradiente (IGBR3) em 2021, a empresa teve receita líquida de R$ 5,5 milhões no ano, uma ligeira alta de 4,9% em comparação com o resultado de 2020. Vale ressaltar, no entanto, que boa parte dessa cifra se deve à locação e administração de imóveis em seu parque industrial, na Zona Franca de Manaus.
Ou seja: falamos de uma empresa cujas operações estão quase paralisadas, com vendas muito próximas a zero no ano — e que depende da venda de ativos ou de eventos extraordinários, como a vitória jurídica contra a Apple, para quitar seus compromissos com os credores.
A Gradiente teve prejuízo líquido de R$ 54,2 milhões em 2021; no ano anterior, as perdas foram de R$ 84,8 milhões.
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