O gringo quer Brasil, mas começa pelo Ibovespa. A vez das small caps ainda deve chegar, mas não para todas; veja 10 ações para comprar
Com fluxo estrangeiro concentrado no Ibovespa, as small caps também sobem no ano, mas ainda não brilham. Werner Roger, CIO da Trígono Investimentos, conta o que falta para isso

Como toda relação de irmãos, o menor tende a viver olhando para o maior, não só por admiração, mas pela expectativa de um dia crescer da mesma forma e ocupar o mesmo lugar de destaque. Essa dinâmica parece se aplicar também aos mercados neste início de 2026, com índice SMLL, que acompanha as small caps na B3, olhando para seu ‘irmão mais velho’, o Ibovespa.
Enquanto o último cresce a rodo com a atenção dos gringos, o ‘pequeno’ da dupla — ainda um tanto fora dos holofotes — fica de olho só esperando a sua vez de brilhar. Isso não significa que ele não esteja crescendo, muito pelo contrário, mas o ritmo é mais lento… pelo menos por ora.
Em 2026 o principal índice de ações da bolsa de valores avança mais de 15%, enquanto o das Small Caps salta quase 11%.
A diferença, ainda que não seja tão gritante, chama atenção. Em geral, empresas menores tendem a crescer em ritmo mais acelerado do que as grandes em cenários favoráveis, simplesmente por uma questão de escala: é muito mais fácil, por exemplo, dobrar de tamanho quando se parte de uma base menor do que quando já se opera em patamares elevados.
Em entrevista ao Seu Dinheiro, Werner Roger, CIO da Trígono Capital — gestora independente espacializada em acompanhar ativos de menor capitalização com R$ 2,1 bilhões sob gestão — reconhece que agora os olhos do mundo estão no Ibovespa, mas não necessariamente por um mérito do índice.
O gringo quer Brasil, Ibovespa é o “caminho rápido”
O Ibovespa, que surfa a bonança do dinheiro gringo, não é o queridinho por uma questão de brilhantismo, mas sim de comodidade — assim como acontece entre muitos irmãos da vida real.
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Segundo Werner, o principal índice de ações da B3 tem ganhado tração em um movimento de diversificação global dos investidores em direção aos emergentes, impulsionado pelo receio em torno das políticas de Donald Trump, pelas dúvidas sobre uma possível bolha de Inteligência Artificial (IA) e o início do ciclo de queda dos juros nos Estados Unidos.
“Gringos não compram ações específicas, compram a tese do país. Eles fazem isso por meio de índices, como o MSCI Brasil [que reúne nossas principais ações] ou até replicando o Ibovespa”, afirmou Roger.
Assim, essas empresas acabam se beneficiando por meio da gestão passiva. Isso explica, por exemplo, por que as ações da Vale (VALE3) se valorizam 20,9% no ano mesmo com uma queda de 5,6% do minério de ferro.
“O investidor estrangeiro tem um horizonte de longo prazo, de três a cinco anos, e entra no Brasil apostando na queda futura dos juros e no ganho cambial. Não importa se a matéria-prima está subindo ou caindo”, ressaltou o CIO.
A tese das Small Caps
Segundo Roger, as small caps também entram no radar, mas em proporção bem menor. Há menos ETFs que replicam esses papéis e o peso delas nos índices globais é reduzido.
“A cada US$ 100 milhões direcionados ao Brasil, cerca de US$ 95 milhões acabam nas grandes empresas, enquanto apenas US$ 5 milhões chegam às companhias do índice SMLL”, destaca o CIO.
Nesse sentido, existem alguns gatilhos que podem virar esse jogo em favor das small caps, segundo o CIO.
O que falta para as Small Caps brilharem aos olhos dos gringos?
Para Roger, a virada estrutural só virá quando o investidor estrangeiro ganhar confiança suficiente para migrar de uma gestão passiva para uma atuação ativa no Brasil, selecionando ações com base em fundamentos — e não apenas no peso que elas têm em índices como o Ibovespa.
O que falta é, principalmente, mais visibilidade e convicção sobre a trajetória de queda dos juros nos Estados Unidos, que tende a aumentar a liquidez global e incentivar a tomada de risco mundo a fora, favorecendo emergentes como o Brasil.
A indicação recente de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) adiciona ainda mais incertezas a esse cenário.
Ou seja: o que dita o rumo do SMLL é majoritariamente o cenário externo e o apetite a risco dos gringos.
Mas Roger acredita que esse segundo capítulo do fluxo gringo, com gestão ativa e mais favorável às pequenas empresas da bolsa, virá — considerando que o cenário se mantenha favorável aos emergentes.
E a Selic?
Além dos juros norte-americanos, de acordo com Werner, a taxa básica brasileira também entra no cenário para as menores companhias da bolsa, mas com certas ressalvas — e menos peso do que o fluxo gringo.
Muitas delas são precificadas com base em projeções futuras do fluxo de caixa trazidas à presente por meio de uma taxa de desconto baseada nos juros. Quanto maior a taxa básica, maior o desconto no valor da companhia.
O início do ciclo de cortes nos juros também tende a aumentar o apetite do investidor brasileiro, o que deve favorecer empresas com maior potencial de retorno, como as small caps.
No entanto, segundo Werner, esse não é o pulo do gato para qualquer companhia, com um alerta especial para as mais endividadas.
Primeiro porque, em um ambiente de economia aquecida, a queda dos juros poderia implicar justamente em dívidas mais alavancagem, não menos como costuma-se pensar. Segundo o CIO, uma demanda mais forte estimula investimentos de empresas, o que eleva o endividamento.
Por isso, o investidor não deve sair ‘atirando para todos os lados’ se quiser capturar um eventual ciclo de aceleração das small caps.
As ações de small caps que valem a pena hoje, segundo a Trígono
Assim, Roger abriu algumas posições da gestora entre as small caps. Começando pelo agronegócio, a Trígono mantém posições em três empresas: São Martinho (SMTO3), 3tentos (TTEN3) e Kepler Weber (KEPL3).
A tese combina um pano de fundo estrutural favorável — o Brasil é um dos líderes globais nas exportações agrícolas e peça-chave no abastecimento da China — com um cenário de curto prazo bastante complicado, marcado por clima adverso, juros elevados, queda no preço das commodities e alto endividamento dos produtores.
Por isso, a estratégia passa por uma seleção criteriosa de empresas capazes de atravessar o ciclo com mais resiliência. Nesse contexto, Roger destaca a São Martinho como umas das operações de açúcar e etanol mais eficientes do mundo.
A tese se apoia na elevada rentabilidade da companhia, sustentada pelo controle de grande parte dos próprios canaviais e pela operação da maior unidade processadora do mundo, em Quirinópolis (GO).
A companhia também é impulsionada pela diversificação para o etanol de milho, e gestão de risco mais conservadora com estratégias de hedge que travam parte dos preços do açúcar.
Já no caso das 3tentos, Roger enxerga um modelo pouco comum no agronegócio. Em vez de apenas comprar e vender grãos, a empresa atua como uma agroindústria.
Ela fornece ao produtor tudo o que é necessário para a safra — sementes, fertilizantes e defensivos — e recebe o pagamento em soja ou milho. Como essa troca é fechada no início do ciclo, a companhia consegue travar o preço da commodity e garantir sua margem desde o começo.
Além disso, a companhia processa os grãos que recebe, transformando-os em produtos de maior valor agregado, como farelo, óleo, biodiesel e etanol de milho. Esse modelo, aliado ao relacionamento próximo com os produtores, reduz o risco de inadimplência e protege a empresa mesmo quando os preços das commodities caem.
A Kepler Weber é especializada na fabricação de silos para armazenagem, atendendo desde fazendas e portos até grandes indústrias de proteína.
Na visão do CIO, o crescimento da companhia é impulsionado pelo déficit crônico de armazenagem no Brasil, que impede que o produtor consiga gerenciar sua produção.
A tese de investimento é fortalecida pela expansão dos biocombustíveis, como o biodiesel e o etanol de milho, que exigem que a matéria-prima seja armazenada durante todo o ano para suprir as usinas de forma contínua.
Além disso, a empresa possui um risco financeiro e de crédito limitado, pois suas vendas são geralmente financiadas por bancos.
Outras ações citadas pelo CIO da Trígono são: Lavvi (LAVV3), Moura Dubeux (MDNE3), Cyrela (CYRE3), Prio (PRIO3), Ser Educacional (SEER3), Copasa (CSMG3) e Aura Minerals (BDR: AURA33).
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