Queda de ministros e cautela internacional pressionam dólar, mas bolsa pega carona com commodities e sobe
Cautela no exterior e no cenário doméstico dificultaram as negociações. Embora a bolsa tenha finalizado o dia com um saldo positivo, o dólar e os juros foram pressionados

O departamento de Recursos Humanos do governo federal teve uma segunda-feira (29) pra lá de agitada. Depois de muita pressão de diversas camadas da sociedade e do Congresso, o dia começou com o pedido de demissão do polêmico ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Pouco depois, foi a vez do ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.
Há apenas alguns minutos, o advogado-geral da União, José Levi Mello do Amaral Júnior, também pediu para deixar o governo. Nas estatais, foi confirmada uma verdadeira debandada do conselho de administração do Banco do Brasil.
A saída de Ernesto Araújo do comando do Itamaraty foi bem recebida pelo mercado, já que a sua permanência seria sinônimo de uma nova guerra declarada entre Legislativo e Executivo, mas a movimentação atípica acabou fazendo com que a cautela persistisse - pelo menos nos mercados de câmbio e juros.
A bolsa brasileira teve um dia de grande instabilidade, custando a se firmar em algum sentido, ainda que o saldo final tenha sido positivo. O Ibovespa avançou 0,56%, aos 115.418 pontos, com uma ajuda das exportadoras - favorecidas pelo câmbio pressionado - e por uma leve recuperação das bolsas americanas.
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A crise política não foi a única a dar as caras logo no primeiro pregão da semana. O sentimento de aversão ao risco também teve origem no cenário fiscal, com o mercado financeiro doméstico ainda repercutindo o texto do Orçamento de 2021, que foi aprovado, mas causa desconforto. Lá fora, a pressão negativa do setor financeiro deteriorou ainda mais o cenário.
Assim, o dólar à vista, que quase zerou a alta após a saída de Araújo, acabou o dia com um avanço de 0,44%, a R$ 5,7663. No pior momento do dia, a divisa superou a marca dos R$ 5,80.
A preocupação com o cenário fiscal brasileiro e a instabilidade política também pesaram sobre o mercado de juros, que após operarem próximos do zero a zero, voltaram a acelerar. Confira as taxas de fechamento de hoje:
- Janeiro/2022: de 4,68% para 4,76%
- Janeiro/2023: de 6,51% para 6,56%
- Janeiro/2025: de 8,12% para 8,26%
- Janeiro/2027: de 8,71% para 8,83%
Quem vai apagar as luzes?
O dia já amanheceu tenso em Brasília, já que ao longo do fim de semana a crise envolvendo o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, só piorou, escancarando uma declaração de guerra entre Executivo e Congresso.
O ministro nunca foi unanimidade e colecionou polêmicas no tempo em que esteve à frente do Itamaraty. No começo da tarde, Araújo pediu demissão do cargo, após pressões de diversas camadas da sociedade.
A nova crise teve origem após o ministro acusar a senadora Kátia Abreu de fazer lobby para os chineses com relação ao leilão de 5G. Abreu disse que apenas defendeu que não exista uma discriminação contra a China e foi amplamente apoiada pelo Congresso. Não é de hoje que Ernesto Araújo tem um comportamento considerado inadequado com relação à China.
A postura do ministro foi razão até para o represamento de insumos para a produção de vacinas contra a covid-19 no início do ano e era vista como prejudicial nas negociações do Brasil com outros países para adquirir imunizantes e insumos. Por significar uma relação mais complicada entre governo federal e Congresso, a saída de Araújo foi comemorada pelo mercado.
Mas, ao longo da tarde, o que se viu foi uma verdadeira debandada do governo, o que aprofunda os receios de instabilidade política. Não é de hoje que a dança das cadeiras do governo Bolsonaro gera insatisfação. Segundo a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, “a velocidade e a situação na qual nos encontramos torna isso muito mais preocupante do ponto de vista do investidor. Quando o cenário político está ruim, é muito difícil a gente encontrar alguma solução fiscal”.
Pedaladas desagradáveis
E os problemas fiscais não param de surgir. A aprovação do Orçamento de 2021 renovou a leitura de que o teto de gastos está comprometido, já que o texto que foi aprovado no Congresso abre margem para o que o mercado chama de “pedaladas fiscais”. Além disso, a quantidade e valores destinados às emendas parlamentares têm deixado o mercado e os próprios políticos desconfortáveis.
Abdelmalack ressalta que esse cenário é muito negativo para a bolsa brasileira, mas o fato de termos uma nova alta do minério de ferro no exterior e um ambiente promissor para as empresas exportadoras acabou balanceando a equação, o que explica a alta anotada no dia de hoje.
Chacoalhando o sistema
Lá fora, o principal destaque negativo ficou com as instituições financeiras. A Archegos Capital Management vendeu US$ 30 bilhões em ativos, em um movimento que deixou o mercado desconfiado.
Tanto o Credit Suisse quanto o Nomura Holdings afirmaram que um cliente americano pode levar as instituições a terem um impacto significativo nos seus resultados do primeiro semestre depois que um hedge fund não honrou pagamentos de margem.
Além disso, ainda temos a crise no comércio global, ocasionada pelo navio que estava preso no Canal de Suez. O Ever Given foi liberado na manhã de hoje, mas após quase uma semana interrompendo um dos principais canais de abastecimento do planeta, devemos ter impactos negativos por mais algum tempo.
Nos Estados Unidos, o fantasma da pressão inflacionária também voltou a assombrar, o que levou os rendimentos dos títulos públicos americanos, os Treasuries, a mais um dia de alta.
As bolsas americanas operaram em queda desde o início do dia, mas acabaram conseguindo uma recuperação. Ainda assim, o Dow Jones foi o único índice a fechar no positivo, em alta de 0,30%. O S&P 500 recuou 0,09% e, pressionado pela nova alta dos juros futuros, o Nasdaq recuou 0,60%.
Na Europa, o setor financeiro também foi pressionado, mas o otimismo com a reabertura da economia do Reino Unido acabou levando a uma alta moderada dos principais índices.
Sobe e desce
A alta do minério de ferro puxou as empresas com exposição à commodity nesta segunda-feira. Além disso, tivemos também uma boa performance dos frigoríficos, que foram favorecidos pela alta do dólar e pela liberação do Canal de Suez. Já as ações da Taesa subiram com a notícia de que a Cemig quer se desfazer da sua fatia na companhia. Confira as maiores altas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR (R$) | VARIAÇÃO |
| PCAR3 | GPA ON | 33,64 | 7,10% |
| BEEF3 | Minerva ON | 10,47 | 6,51% |
| TAEE11 | Taesa units | 38,40 | 6,37% |
| BRAP4 | Bradespar PN | 68,28 | 4,45% |
| MRFG3 | Marfrig ON | 17,55 | 4,28% |
O Banco Santander recuou acompanhando o movimento herdado dos mercados internacionais e que pesou sobre os papéis do setor financeiro. Já as construtoras seguiram repercutindo o aumento dos juros e o cenário nada favorável ao consumo. Confira também as maiores quedas do dia:
| CÓDIGO | NOME | VALOR (R$) | VARIAÇÃO |
| EZTC3 | EZTEC ON | 30,25 | -3,04% |
| SANB11 | Santander Brasil units | 39,74 | -2,93% |
| SULA11 | SulAmérica units | 35,33 | -2,81% |
| CYRE3 | Cyrela ON | 23,07 | -2,58% |
| AZUL4 | Azul PN | 36,48 | -2,38% |
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