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Acredito que o mercado vai agora acumular ao redor de US$ 2.000, antes de retomar a subida. Embora estejamos falando de ouro virtual, não é nenhum exagero dizer que estamos em nova corrida do ouro, com todas as suas alegrias e decepções
No momento em que começo a escrever este artigo (17 horas de terça-feira, 11 de agosto) a cotação da onça do ouro em Nova York está levando um tombaço. Cai 5,54% em relação à véspera, agora precificado a US$ 1.926,80.
Como sempre se sentem na obrigação de explicar os motivos dos movimentos do mercado, alguns analistas dizem que essa queda se deve ao anúncio, pelo governo russo, da descoberta de uma vacina contra a Covid-19.
Conversa fiada. Uma coisa nada tem a ver com a outra.
O que está havendo é uma bruta realização de lucros, ou correção, como queiram. Afinal de contas, de novembro do ano passado até semana passada, quando fez a máxima de todos os tempos, a US$ 2.070,05, o metal subiu 42%.
Nesses sete meses, o ganho máximo por contrato de cem onças na Comex foi de impressionantes US$ 61.370,00.
Acredito que o mercado vai agora acumular ao redor de US$ 2.000,00, antes de retomar a subida. Nesse processo, muitos contratos mudarão de mãos.
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Embora estejamos falando de ouro virtual, não é nenhum exagero dizer que estamos em nova corrida do ouro, com todas as suas alegrias e decepções.
Minha transição de trader do mercado nacional para o americano se deu justamente nesse ativo. Operava o metal na Bolsa de Mercadorias de São Paulo (Bolsinha) e passei a negociá-lo na Comex, em Nova York.
Durante praticamente um ano, eu era conhecido nos meios profissionais como operador exclusivo de ouro. Só depois desse tempo é que passei a “treidar” outros derivativos. Mas o fascínio dourado nunca deixou de existir. Isso vale para o ouro extraído da terra como para o virtual, esse das bolsas.
No primeiro livro que escrevi (segundo que publiquei), Os mercadores da noite, falo a respeito do assunto. Eis o início de um trecho, na página 291 da edição da Inversa:
“Quando, em janeiro de 1848, James W. Marshall descobriu ouro na Califórnia, aventureiros de todo o país correram para a região. Um ano depois, os garimpeiros podiam ser contados às dezenas de milhares, acomodados em cidades improvisadas.”
Em meu terceiro livro, Armadilha para Mkamba (editora Rocco, 1998), o ouro também desempenha papel importante.
Vejam algumas passagens do livro:
“Mas Amai não quis falar de guerra. Apresentou à imprensa o geólogo canadense Henry Link, diretor-superintendente da Mkamba Mining. Que anunciou a descoberta de uma grande jazida de ouro em Tanière du Chien, nas cercanias de Okala.
Mkamba, como que por maravilhoso encanto, tornara-se um país rico.” (pg. 112).
“Num final de tarde, o presidente Luo Amai, com a voz entre emocionada e excitada, confidenciou-lhe ao telefone:
− A MM descobriu novas jazidas de ouro. Ficam na província de Honomu. São pelo menos duas vezes maiores que as de Tanière du Chien. Fui informado ontem pelo superintendente Henry Link.” (pg. 154).
“As notícias caíram como uma bomba no mercado internacional. Os preços do ouro reverteram em questão de minutos a tendência de alta.” (pg.163).
Saindo do plano de minha ficção, voltemos ao ouro de verdade e às febres que ocorriam sempre que surgiam notícias da descoberta de uma grande jazida.
Exatamente 50 anos após a corrida do ouro da Califórnia, mais precisamente no verão de 1898, mais de cem mil faiscadores e aventureiros americanos e canadenses se deslocaram para o Alaska, onde um veio foi encontrado.
A ele seguiu-se nova jazida, que levou dez anos para esgotar.
Passaram-se os tempos. No apagar das luzes da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente em julho de 1944, o ouro foi tabelado.
Sim, tabelado.
Num hotel da cidade americana de Bretton Woods, no estado de New Hampshire, 730 delegados, representando 44 nações que haviam se aliado na luta contra a Alemanha de Hitler, fixaram um valor para o ouro: 35 dólares por onça.
Como a moeda de cada um desses países também teve sua paridade com o dólar determinada, o metal parou de oscilar. Até que, em 1971, durante o governo Richard Nixon, ficou óbvio que a relação 1/35 era insustentável.
Desde então o ouro se valorizou 5.505%, contra uma inflação americana de 536% no período.
Só que, obviamente, não foi um crescimento linear. Na década de 1970, por exemplo, o preço da onça do ouro subiu de US$ 35,00 para US$ 627,32, num formidável bull market causado pelo primeiro choque do petróleo.
Nesse período, as taxas de juros praticadas pelo Federal Reserve Bank chegaram a dois dígitos anuais, o que não impediu que ficassem abaixo da inflação em diversas ocasiões.
Nada é tão bullish para o ouro quanto taxas de juros negativas.
Quando, durante o governo de Jimmy Carter, Paul Volcker assumiu a presidência do FED, e deu início a uma política monetária extremamente hawkish, a cotação da onça veio caindo consistentemente. Atingiu uma mínima de US$ 263,03, menos da metade do high histórico (nessas contas, não estou considerando a inflação dos Estados Unidos).
Dos 263 dólares até a máxima da semana passada (US$ 2.070,00), o ouro, apesar das oscilações inerentes a qualquer ativo negociado livremente, protagonizou outro tremendo bull market.
Apesar da fortíssima correção dos últimos dias, acredito que logo veremos novas máximas.
Várias são as razões para fundamentar esse meu raciocínio.
Entre elas:
Obviamente, o ativo ouro tem também aspectos negativos.
Esta última opção, a de compra a futuro, é a única que pode propiciar um lucro espetacular.
Só como exemplo, quem comprou 10 contratos de ouro na Comex (100 onças cada um), em Nova York, a US$ 1.500,00, cotação da virada do ano 2019/2020, e vendeu na semana passada a US$ 2.000,00, investiu no início 82 mil dólares em margens de garantia.
Essas margens logo foram sendo devolvidas por intermédio dos ajustes positivos diários, uma vez que o mercado quase não fez outra coisa a não ser subir.
Esse trade deu um lucro de meio milhão de dólares.
Fazendo a mesma operação, só que com apenas um minicontrato, o investimento em margem foi de US$ 4.350,00 (também logo recuperado). Lucro: US$ 25.000,00.
Passando agora ao contraditório, digamos que o bull market tenha terminado na semana passada.
Embora eu não acredite nessa hipótese, é importante considerar que meu raciocínio possa estar errado. Para isso, existem os stops.
Estou terminando este texto às 23:40 de terça-feira. Neste momento, o ouro está sendo negociado no Extremo Oriente a US$ 1.883,00. Já caiu US$ 187,00 (9 por cento) desde a máxima.
Não acredito que os fundamentos (recessão, taxas de juros próximas de zero, desvalorização do dólar frente às demais moedas fortes) tenham mudado.
Quem foi para a Califórnia em busca de fortuna em 1848, em busca de ouro, correu risco. O mesmo aconteceu com aqueles que se aventuraram no Alasca 50 anos mais tarde.
No momento, acho que o risco é menor do que o daqueles faiscadores. Do lado comprado, evidentemente. Os fundamentos bullish citados acima estão intactos. A febre cedeu um pouco mas vai voltar.

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