Por que a China e o Japão estão se desfazendo – em grande escala – de títulos do Tesouro do Estados Unidos
Volume de Treasuries em poder da China e do Japão estão nos níveis mais baixos em anos com alta da inflação e aumento dos juros nos EUA

A China e o Japão estão vendendo em larga escala seus monumentais estoques de Treasuries, como são conhecidos os títulos da dívida dos Estados Unidos.
Dados divulgados esta semana pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos revelam que o Japão detinha US$ 1,212 trilhão em Treasuries no fim de maio.
Trata-se do nível mais baixo desde janeiro de 2020. Ainda assim, o governo japonês se mantém como maior credor externo dos EUA.
O caso da China salta ainda mais aos olhos. Segundo o mesmo relatório, o volume de Treasuries nas mãos de Pequim estava em US$ 980,8 bilhões.
Este é o sexto mês seguido de queda nos estoques chineses de Treasuries, muito abaixo do recorde de US$ 1,317 trilhão registrado em novembro de 2013.
Estoque de Treasuries da China cai a menos de US$ 1 trilhão pela primeira vez desde 2010
Também é a primeira em 12 anos que a China detém menos de US$ 1 trilhão em Treasuries. Mais precisamente, isso não acontecia desde maio de 2010.
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"Japão e China estão vendendo em continuidade às tendências recentes", disse Gennady Goldberg, estrategista sênior de taxas da TD Securities em Nova York.
“Mas se você olhar o ritmo, certamente houve uma desaceleração. Nada como o observado em março”, prosseguiu ele.
Por que os maiores credores dos EUA estão vendendo Treasuries?
Especialistas consideram que as vendas de Treasuries por seus maiores credores visa a reduzir as perdas, uma vez que, diante da alta das taxas, os preços dos títulos caíram.
No caso específico da China, a intenção do governo vai também na direção de diversificar suas posições de longo prazo em moeda estrangeira.
O movimento ocorre em um momento no qual a inflação nos Estados Unidos encontra-se nos maiores níveis em mais de 40 anos.
Numa tentativa tardia de debelar o incêndio provocado pelo dragão da inflação, o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) promove um agressivo aperto monetário.
Zhou Maohua, analista macroeconômico do Everbright Bank, considera que "a queda dos preços das Treasuries, a crescente pressão inflacionária nos Estados Unidos e os consequentes aumentos agressivos das taxas de juros são as principais causas" da venda dos títulos.
Para a China, Estados Unidos atravessam crise de confiança
A situação demonstra também a falta de confiança de Pequim na pujança econômica norte-americana.
“Reduzir a participação na dívida dos Estados Unidos tem sido uma exigência da opinião pública chinesa”, escreveu Hu Xijin, comentarista do jornal chinês Global Times, do qual os artigos de opinião costumam estar alinhados com a visão do governo.
“O povo chinês está perdendo a confiança na economia norte-americana e em sua credibilidade. Portanto, é melhor deixar que aliados dos Estados Unidos detenham mais dívida norte-americana”, prosseguiu.
Por que a China empresta tanto dinheiro para os Estados Unidos
O Japão é um dos maiores aliados externos dos Estados Unidos. Já a China é hoje o principal rival geopolítico dos norte-americanos.
Por que então os chineses emprestam tanto dinheiro para os Estados Unidos?
Porque os títulos da dívida norte-americana funcionam como uma espécie de porto seguro para as reservas cambiais chinesas.
À primeira vista, essa interdependência constitui uma situação de ganha-ganha.
Enquanto a China garante mercado para seus produtos, os EUA se beneficiam dos preços mais baixos das importações.
Em resumo, Pequim empresta dinheiro a Washington na expectativa de que os Estados Unidos possam continuar comprando os bens que a China produz.
Na prática, enquanto a China mantiver sua economia orientada à exportação, mantendo um superávit comercial relevante com os EUA, ela provavelmente continuará acumulando dólares e Treasuries.
Quais os riscos dessa interdependência?
Apesar de ser considerada uma relação ganha-ganha, essa interdependência também tem seus pontos fracos.
Não faz muito tempo que o ex-presidente norte-americano Donald Trump deflagrou uma guerra comercial contra a China com o discurso de recuperar empregos nos Estados Unidos.
A tensão arrefeceu um pouco sob Joe Biden, mas o momento é de desconfiança mútua.
Afinal, a ascensão geopolítica chinesa é vista como um problema por Washington.
Nos corredores diplomáticos comenta-se que toda vez que os norte-americanos reclamam do câmbio defasado aos chineses, a resposta vem acompanhada de insinuações de que Pequim poderia simplesmente se desfazer de uma hora para outra de todas as suas Treasuries.
Pode parecer tudo muito etéreo, mas o cumprimento dessa ameaça representaria destruição econômica mútua. E ninguém em sã consciência desejaria isso.
Em um ritmo mais lento, como vem acontecendo, os riscos se diluem. Especialmente pelo fato de os Estados Unidos serem, na prática, o único país apto na atualidade a imprimir dinheiro infinitamente sem que isso resulte em um surto inflacionário.
*Com informações da Reuters, da CNBC e do Global Times.
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