Dólar cai mais de 3% e tem o maior alívio diário desde 2018. O que está acontecendo?
O dólar à vista já aparece na faixa de R$ 5,21, chegando às mínimas desde 14 de abril. Entenda o que está acontecendo com o mercado de câmbio e o que está por trás desse alívio

O dólar à vista abriu a terça-feira (02) em baixa e foi descendo a ladeira: caiu, caiu e caiu — para ser mais preciso, operava em forte queda de 3,15%, a R$ 5,2186. Para se ter uma ideia, é o maior recuo intradiário desde junho de 2018, quando a divisa chegou a desvalorizar mais de 5%.
É um comportamento que chama a atenção, afinal, até parece que o Brasil não enfrenta simultaneamente crises políticas, econômicas e de saúde pública. E, além disso, há toda a tensão social nos EUA desde o assassinato de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco. Nesse cenário, o que é que o mercado está vendo de tão positivo?
E veja que esse tom otimista não se restringe ao câmbio: na bolsa, o Ibovespa avançava 2,06% no mesmo horário, aos 90.453,42 pontos — o índice não termina um pregão acima dos 90 mil pontos desde 10 de março.
- Eu gravei um vídeo para explicar um pouco da dinâmica dos mercados nesta terça-feira. Veja abaixo:
Eu entrei em contato com analistas, economistas e operadores para entender melhor o racional por trás dos mercados nesta terça-feira. É certo que o noticiário parece mais ameno, tanto no Brasil e no exterior, mas o alívio justifica uma queda de mais de 3% no dólar?
Em primeiro lugar, há um fator técnico: o Ibovespa 'ficou para trás' e não conseguiu acompanhar a recuperação vista nas bolsas americanas desde a crise dos mercados, em março; no câmbio, o real se desvalorizou numa intensidade maior que seus pares.
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Veja o comportamento do Ibovespa e do dólar no ano — as cotações de hoje, obviamente, ainda não são as de fechamento:

"Hoje, boa parte das moedas emergentes vai ganhando ante o dólar, mas o real tem um movimento de mais destaque", diz Flavio Serrano, economista-sênior do banco Haitong. "O real vinha sendo uma das piores moedas do ano e vai devolvendo uma parte do movimento".
E há todo um contexto que justifica essa animação dos investidores: no exterior, os investidores mostram-se cada vez mais esperançosos quanto a uma reabertura bem sucedida das economias da Europa e dos EUA — e os dados econômicos mais animadores divulgados nos últimos dias dão suporte a essa percepção.
No entanto, há também algumas notícias pontuais que colaboram para melhorar ainda mais o humor dos agentes financeiros globais, diminuindo a percepção de risco nesta terça-feira. Vamos analisar cada um deles mais a fundo.

Otimismo externo
Os investidores globais amanheceram com uma notícia promissora no front da potencial nova guerra comercial entre EUA e China: uma publicação do país asiático afirmou que o governo de Pequim continuará comprado soja dos EUA, amenizando as tensões entre os dois países.
Americanos e chineses vinham numa escalada de tensões ao longo das últimas semanas, trocando acusações quanto à responsabilidade pela pandemia de coronavírus — o que rapidamente ganhou dimensões comerciais e geopolíticas, envolvendo inclusive a soberania de Hong Kong.
A noticia relacionada à compra de soja, no entanto, tende a esfriar o ânimo entre os países, trazendo alento aos mercados — e abrindo ainda mais espaço para que os agentes financeiros possam reagir de maneira positiva aos sinais de recuperação da economia global.
"Há um desmonte de operações defensivas que tem como pano de fundo o bom humor dos mercados", diz Jefferson Luiz Rugik, diretor de câmbio da corretora Correparti, ao comentar sobre o forte alívio na cotação do dólar à vista.
[captacao]
Tensões diminuindo
No Brasil, o ministro do STF Celso de Mello decidiu ontem pelo arquivamento do pedido de apreensão do celular do presidente Jair Bolsonaro — uma medida que tende a diminuir as tensões entre o governo e o Supremo.
"Tem havido uma redução nas tensões políticas, tanto no doméstico quanto no internacional" - Flavio Serrano, economista-sênior do Haitong
Do ponto de vista econômico, a percepção de que o pior momento da pandemia pode ter ficado para trás na Europa e nos EUA também ajuda a dar confiança ao mercado — e, mesmo no Brasil, a perspectiva de reabertura econômica gradual em São Paulo ajuda a animar as operações na bolsa e no dólar.
Rugik, da Correparti, ainda destaca que a postura mais firme do Banco Central (BC) também ajuda a trazer alívio à moeda americana. Ele destaca que, ontem, o dólar à vista enfrentou uma súbita pressão durante a tarde — de fato, a moeda fechou em alta —, mas que a autoridade monetária não hesitou em mostrar suas armas.
Apenas ontem, o BC injetou US$ 500 milhões em recursos no sistema, via leilões no segmento à vista — um posicionamento que, segundo Rugik, ajudou a afugentar os especuladores do mercado de câmbio.
"Ele deixou um recado: estou atento e vou vender caso o especulador queria montar posições defensivas do nada", diz o diretor da Correparti. "Essa operação inibiu a procura por dólares e acelerou o desmonte de posições defensivas".
A união entre calmaria doméstica e otimismo externo também é sentida no mercado de juros futuros: os DIs operam em baixa, tanto na ponta curta quanto na longa, acompanhando o movimento do dólar à vista:
- Janeiro/2021: de 2,29% para 2,24%:
- Janeiro/2022: de 3,14% para 3,06%;
- Janeiro/2023: de 4,22% para 4,10%;
- Janeiro/2025: de 5,96% para 5,76%.
Repare que o DI para janeiro de 2021 — contrato que, em tese, reflete as apostas do mercado quanto à Selic ao fim do ano — agora oscila ao redor dos 2,25%, contratando mais um corte de 0,75 ponto na taxa básica de juros.
Serrano, do Haitong, pondera que os próximos dados de atividade no Brasil tendem a ser bastante fracos, o que pode aumentar a percepção de contração econômica — e, assim, pode até mesmo instigar o Copom a continuar baixando a Selic para além dos 2,25%.
Top 5
Veja abaixo as cinco ações de melhor desempenho do Ibovespa no momento:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| GOLL4 | Gol PN | 14,80 | +13,32% |
| YDUQ3 | Yduqs ON | 33,55 | +12,51% |
| COGN3 | Cogna ON | 6,33 | +12,43% |
| CVCB3 | CVC ON | 17,42 | +12,39% |
| EMBR3 | Embraer ON | 8,19 | +10,53% |
Confira também as maiores quedas do índice:
| CÓDIGO | NOME | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| MGLU3 | Magazine Luiza ON | 61,95 | -2,75% |
| BTOW3 | B2W ON | 89,33 | -2,26% |
| BRFS3 | BRF ON | 23,29 | -1,61% |
| MRFG3 | Marfrig ON | 12,94 | -1,60% |
| JBSS3 | JBS ON | 21,65 | -1,41% |
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