Tudo para cima: Ibovespa fecha em alta com vacina de Oxford 70% eficaz, enquanto risco fiscal pressiona dólar e juros
Principal índice da B3 fecha no maior patamar desde 21 de fevereiro e acumula ganhos de 14% em novembro. Paralisia com reformas e crescente dívida pública instigam alta da moeda americana

Todo mundo para um lado, ninguém para o outro.
Esta foi, em resumo, a segunda-feira (23) dos mercados locais: na bolsa, a tomada de risco foi estimulada pela perspectiva de uma vacina contra o coronavírus cada vez mais próxima, permitindo ao Ibovespa manter os ganhos vigorosos em novembro — no mês, o índice registra alta de 14,29%.
No câmbio, a recuperação da economia americana e a cautela com o risco fiscal (sempre ele) prevaleceram, elevando o preço do dólar. A visão de que a agenda econômica não deverá ser pautada no Congresso Nacional no curto prazo continuou a afligir os investidores e motivou, também, a alta dos juros futuros, que refletem mais fielmente o agravamento da dívida pública.
Primeiro, vamos com o que houve de bom.
A farmacêutica AstraZeneca anunciou pela manhã que sua vacina experimental contra covid-19, desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, obteve eficácia média de 70% em testes realizados no Brasil e no Reino Unido.
A taxa pode chegar a 90% de eficácia, no máximo, e de 62%, no mínimo, a depender do regime de dosagem a ser testado. Você pode conferir este assunto em mais detalhes nesta matéria do Seu Dinheiro.
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AstraZeneca e Oxford pretendem submeter os primeiros resultados às diversas autoridades de saúde que têm programas de aprovação antecipada e vai pedir autorização emergencial para a Organização Mundial da Saúde (OMS), para distribuir a vacina em países de baixa renda.
Tal notícia, como tem sido frequente, anima os investidores a se aventurarem nos mares das rendas variáveis. Hoje não foi diferente. Os principais índices americanos fecharam em alta — o Dow Jones teve forte alta, de 1,2%; o S&P 500, de 0,6%; e o Nasdaq, de 0,3%.
Por aqui, o Ibovespa também fechou em forte alta, de 1,3%, cotados aos 107.380 pontos, no maior patamar de fechamento desde 21 de fevereiro, quando encerrou a sessão cotado aos 113.681 pontos.
As ações de empresas da chamada "velha economia", como as ligadas a commodities, tiveram forte alta hoje no principal índice acionário da B3, com a visão de um imunizante contra a covid-19 cada vez mais próximo da realidade e a possível volta à "vida ao normal" estimulando a entrada de investidores nesses papéis.
Destaques da bolsa
Bom exemplo desse ímpeto comprador foram as ações da Petrobras: seguindo a forte do petróleo de barril tipo Brent lá fora, os papéis suportaram o ganho do índice — as ações da gigante estatal avançaram no mínimo 3,9% hoje.
Ações PetroRio ON foram outras que subiram forte na esteira do petróleo, refletindo também crescente confiança do investidor com os planos de expansão da empresa.
Os papéis BRF ON, CSN ON e Usiminas PNA lideraram os ganhos do Ibovespa.
Maior exportadora de frangos do mundo, a BRF renovou a habilitação de duas de suas plantas para exportações de cortes de aves para a Coreia do Sul na sexta (20). A ação está muito descontada em 2020, acumulando queda de 40% no ano.
As siderúrgicas CSN e Usiminas também surfaram a onda do potencial de vacina, tirando vantagem da valorização dos preços de commodities.
À Broadcast, a CSN informou que vai aumentar em 10% o preço do aço plano (laminados e folhas metálicas) a partir de 1º de dezembro, enquanto o aço longo (vergalhões) será elevado em 12%.
Os papéis de companhias aéreas voltaram a reagir em alta com uma notícia positiva sobre o desenvolvimento da vacina e, neste momento, Azul PN e Gol PN sobem mais de 2%.
Empresa fortemente afetada pelas medidas de isolamento social e pelo desmantelamento da joint venture com a americana Boeing, papéis Embraer ON também ficaram entre os destaques de alta, marcando avanço de 4%.
As ações de bancos também contribuíram decisivamente com a alta do índice — Santander units, Itaú PN, Bradesco ON e Banco do Brasil ON subiram ao menos 0,8% e, no máximo, 2,6%.
Veja as maiores altas do Ibovespa:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| PRIO3 | PetroRio ON | 46,51 | 7,64% |
| CSNA3 | CSN ON | 21,35 | 6,80% |
| PETR4 | Petrobras PN | 25,10 | 6,13% |
| BRFS3 | BRF ON | 22,03 | 5,91% |
| PETR3 | Petrobras ON | 25,48 | 4,86% |
Na ponta negativa, as ações Carrefour ON lideraram as quedas do índice, em um movimento que reflete a repercussão negativa à morte do cliente negro, Beto Freitas, por dois seguranças do supermercado da marca em Porto Alegre.
Os papéis GPA ON e Magazine Luiza ON também recuaram forte e ficaram entre as maiores quedas percentuais do Ibovespa, em uma sessão de baixa para os papéis do setor do varejo como um todo.
"Investidores aproveitaram para ir com commodities e se desfizeram um pouco do setor de varejo", diz Ari Santos, operador de renda variável da Commcor. "Siderurgia, por exemplo, é um setor que se sustenta com exportações e a retomada da economia."
Veja as maiores quedas:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| CRFB3 | Carrefour Brasil ON | 19,30 | -5,35% |
| PCAR3 | GPA ON | 70,10 | -3,97% |
| CIEL3 | Cielo ON | 3,77 | -3,33% |
| MGLU3 | Magazine Luiza ON | 23,42 | -3,22% |
| HYPE3 | Hypera ON | 30,40 | -2,81% |
Cautela fiscal e PMI pressionam dólar e juros
No câmbio, o dólar a princípio deu sinais de fraqueza que vem tendo recentemente, reforçados pela vitória do democrata Joe Biden na eleição americana, em meio a um ambiente de tomada de risco e alta das bolsas nos Estados Unidos.
A partir das 11h40, no entanto, a moeda voltou a ser aquela que tem sido nos últimos anos: forte em relação às demais. O dólar virou refletindo a persistência dos problemas fiscais do Brasil e intensificou a alta com um sinal da retomada da economia americana.
O Dollar Index (DXY), que compara o dólar a uma cesta de moedas fortes como euro, libra e iene, também avançou, mostrando a força global do dólar.
A divulgação do índice de gerente de compras (PMI, da sigla inglesa) para serviços e indústria mostrou avanço de 56,3 em outubro para 57,9, segundo a leitura preliminar de novembro. Foi o maior nível do PMI em 68 meses, de acordo com a IHS Markit, o que aponta uma recuperação da maior economia do mundo. Um resultado acima de 50 indica expansão da atividade.
Além disso, persistem as avaliações pessimistas do mercado sobre a morosidade da pauta econômica no Congresso.
"O que pesa mais e explica esse desempenho tanto de dólar como de juros é essa lentidão da pauta econômica no Congresso, o que estressa os juros longos", diz Daniel Xavier, economista-sênior do Banco ABC Brasil.
Xavier ressalta que o prêmio de risco implicado na ponta longa da curva reflete a incerteza com o andamento da questão fiscal.
As taxas de longo prazo, diz ele, passaram a se deslocar para cima com as discussões iniciais acerca do Renda Cidadã, a partir de agosto.
Depois que se aventou a possibilidade de usar o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) e os precatórios para financiar o programa, esses juros longos se deslocaram ainda mais. "A expectativa nossa agora é de que algo mais concreto ocorra apenas no 1º trimestre do ano que vem."
Em live nesta segunda promovida pela Empiricus e pela Vitreo, o ministro da Economia Paulo Guedes admitiu atraso nos planos do governo, por exemplo, no processo da venda de estatais. "Eu acho que já estamos atrasados", disse ele. "Mas dependemos de um eixo político".
O ministro admitiu hesitação de alguns ministérios a respeito da necessidade de se privatizar algumas empresas e disse que a culpa é do próprio governo na demora do processo. "Não conseguimos nos entender para acelerar a pauta".
"Privatizações eram importantes para derrubar a relação dívida/PIB. Mas ainda estamos carregando ativos disfuncionais", afirmou o ministro.
Além disso, a pesquisa Focus do Banco Central mostrou que os economistas preveem uma inflação maior para 2020 e 2021, de acordo com a mediana das estimativas.
No fim do dia, as altas mais intensas dos juros foram nos vencimentos mais longos, continuando a precificar um risco fiscal crescente, embora a os juros para janeiro/2022 também tenha subido razoavelmente.
Veja as taxas dos principais vencimentos:
- Janeiro/2021: de 1,929% para 1,934%
- Janeiro/2022: de 3,36% para 3,42%
- Janeiro/2023: de 5,11% para 5,24%
- Janeiro/2025: de 6,96% para 7,06%
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