Ibovespa volta a subir, mas disputa por vacinação, realização e cautela fiscal limitam alta
Pesos-pesados como Petrobras, Bradesco e Vale trazem pressão baixista para o índice em meio à incerteza sobre vacina no Brasil; juros fecham em queda, deixando dólar e IPCA de lado

O Ibovespa conseguiu manter o seu viés de alta como foi no mês de novembro e na primeira semana deste mês, terminando a sessão desta terça-feira (8) em uma nota levemente positiva, indicada pela pequena variação para cima.
Mas quem olha só para o resultado final do dia se engana se pensa que ele foi pouco movimentado ou, mesmo, um puro marasmo.
Na verdade, ele foi, sim, definido pela volatilidade, com ímpetos de alta e de realização de lucros ao longo do percurso, o que fez o principal índice acionário da B3, depois de desencontros durante o dia, terminar seguindo as bolsas americanas.
O fluxo de vendas em papéis como Petrobras, Bradesco e Vale limitou o avanço do índice, que fechou em alta de 0,2%, cotado aos 113.790 pontos, reduzindo as perdas do Ibovespa no ano para 1,6%. São ações da chamada "velha economia", que cederam após registrar ganhos recentemente.
Os grandes destaques de alta, por sua vez, ficaram para ações da "nova economia", que vinham perdendo fôlego recentemente com o rali da vacina. Essas ações, lembremos, se beneficiaram das medidas de isolamento social forçadas pela pandemia de covid-19 e voltadas à diminuição da circulação do vírus.
Mais cedo, Broadcast e Valor noticiaram que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello teria dito, em reunião com governadores, que apenas haverá certificação pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) de imunizante contra coronavírus em fevereiro.
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O Estado de São Paulo já tem um cronograma de vacinação, que se iniciará em 25 de janeiro, conforme anunciado pelo governador João Doria.
Segundo Igor Cavaca, analista da Warren, a informação de que a vacinação só deverá ocorrer após fevereiro pesou no mercado de ações local.
"Os setores que mais subiram hoje foram os associados à 'nova' economia e que vinham caindo nas últimas semanas", diz Cavaca. "Isso dá mais espaço para as empresas tech no início do ano que vem."
Ainda assim, diz o Valor, segundo os governadores, ficou acertado com Pazuello que a Anvisa registrará qualquer vacina que já tenha o aval de qualquer uma das quatro principais agências internacionais do setor — seja a Food and Drug Administration (FDA), dos EUA, a European Medicines Agency (EMA), da União Europeia, Pharmaceuticals and Medical Devices Agency (PMDA), do Japão, e a National Medical Products Administration (NMPA), da China.
Se a Anvisa não se manifestar, o registro será concedido automaticamente, diz a matéria.
Deste modo, a história do mercado se inverteu ao longo do dia, com base tanto em um processo de realização de lucros natural como na disputa pela vacinação e na cautela fiscal pelo temor de flexibilização do teto de gastos, que fizeram o índice frequentar o terreno negativo a partir do meio da tarde.
O Ibovespa foi então para um lado, e as bolsas americanas, que iniciaram o dia em queda, para outro, pois estas acabaram virando para alta, apesar do aumento de casos de coronavírus e indefinições políticas no exterior.
A incerteza sobre o pacote de estímulos fiscais, nos Estados Unidos, e o impasse quanto ao Brexit, na Europa, além do avanço dos casos de coronavírus no hemisfério norte — nos EUA, as internações chegam ao ápice da crise — como um todo, deram um tom de cautela aos mercados mais cedo.
No país americano, os congressistas em Washington ainda penam para alcançar um entendimento sobre uma proposta de estímulos fiscais. A questão agora é que tipo de proteção dar às empresas e outras entidades durante a pandemia, obstáculos restantes em seus esforços para chegar à ajuda emergencial de mais de US$ 900 bilhões.
No fim do dia, no entanto, os principais índices acionários à vista nos EUA fecharam em alta — S&P 500 avançou 0,3%; Dow Jones, 0,35%, e Nasdaq, 0,5%. Foram encerramentos de sessão em máximas históricas tanto para o índice das 500 maiores empresas do país como para o de ações de tecnologia.
Empresas do setor de saúde tiveram uma sessão de ganhos com o início da aplicação, no Reino Unido, de doses da vacina da Pfizer desenvolvida em parceria com a BioNTech. Os papéis da farmacêutica avançaram 3%.
Sinais de que congressistas continuam empenhados em finalizar um novo pacote de estímulos, em que pesem incertezas, impulsionaram as bolsas.
A Bloomberg informou que os líderes republicanos planejavam conversar com funcionários da Casa Branca em um esforço para avançar as negociações em torno de um acordo de ajuda de cerca de US$ 900 bilhões.
Os papéis de tecnologia, que estavam no vermelho antes da notícia, ganharam terreno de forma constante na segunda metade da sessão e puxaram a alta dos outros índices.
Quem sobe, quem desce
A principal alta percentual do Ibovespa hoje foi da BRF, após divulgar a sua sua meta ambiciosa de receita até 2030, além da meta de aumentar o Ebitda em 3,5 vezes nos próximos dez anos.
A Eletrobras, cuja cobertura foi iniciada pelo BTG Pactual com recomendação de compra, foi outra cujas ações subiram forte hoje.
O papel é visto como "o mais atrativo risco-recompensa sob nossa cobertura" no setor elétrico, com potencial de alta significativo pela perspectiva de privatização, de até 84%, segundo os analistas do banco.
As ações de Magazine Luiza se beneficiaram da perspectiva de que a vacinação leve mais tempo para começar a ocorrer, o que prolongaria o período de "anormalidade" na economia e beneficiaria empresas que tiraram vantagem do "stay at home". Com isso, os papéis dispararam hoje.
Via Varejo ON, outra varejista online, teve alta de 1,5%.
Confira as principais altas:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| BRFS3 | BRF ON | 23,13 | 8,69% |
| ELET3 | Eletrobras ON | 35,62 | 5,92% |
| ELET6 | Eletrobras PNB | 35,96 | 4,99% |
| MGLU3 | Magazine Luiza ON | 24,95 | 4,83% |
| HYPE3 | Hypera ON | 32,64 | 3,85% |
Na ponta negativa, ações de empresas da velha economia, como as ligadas a commodities, foram as que mais perderam — Usiminas e PetroRio lideraram as perdas. Ambas marcam fortes altas em 2020, de ao menos 50%.
Papéis que haviam sido beneficiados com o horizonte de uma vacina sair rapidamente e a vacinação de fato ocorrer no curto prazo, como Gol PN e Azul PN, recuaram ao menos 0,9%. Na mesma linha, Embraer ON fechou o dia entre as principais perdas.
Enquanto isso, ações de bancos como Bradesco PN (-1,2%) e ON (1,1%), Itaú PN (-0,26%) e Banco do Brasil ON (-0,11%) encerraram o dia no negativo. Petrobras ON (0,9%) e PN (1,3%), além de Vale ON (0,1%), foram outros papéis de grandes participação no índice que caíram e limitaram a performance do Ibovespa.
"O que houve hoje foi uma correção dos principais pesos, e também, claro, a cautela fiscal", diz Lucas Carvalho, analista da Toro.
Veja as principais baixas do dia:
| CÓDIGO | EMPRESA | PREÇO (R$) | VARIAÇÃO |
| USIM5 | Usiminas PNA | 13,84 | -4,29% |
| PRIO3 | PetroRio ON | 54,00 | -2,74% |
| EMBR3 | Embraer ON | 9,18 | -2,03% |
| EQTL3 | Equatorial ON | 21,63 | -1,73% |
| GOAU4 | Metalúrgica Gerdau PN | 10,54 | -1,68% |
Dólar fecha em alta com desconforto fiscal, juros caem
O dólar parou de se enfraquecer contra o real na sessão de hoje e fechou em alta de 0,15%, cotado aos R$ 5,1275.
Ainda é um patamar de fechamento nos níveis do mês de junho. Mas, mais cedo, a moeda, reagindo ainda à entrada de fluxo estrangeiro no país com a melhora no perfil de risco de ativos de emergentes, chegou a cair 1,1%, para R$ 5,0640.
"Fluxo de gringos mantém dólar depreciado hoje, o mercado tem motivos para comprar real em um 'bull market'", disse Cleber Alessie, operador de câmbio da Commcor, pela manhã.
A oscilação sobre a distribuição das vacinas no Brasil, no entanto, pesou, e teve um impacto no desempenho da moeda hoje, fazendo-a se apreciar, segundo Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.
A divisa americana caiu frente aos pares emergentes do real brasileiro, como peso mexicano, rublo russo e rand sul-africano. Frente a rivais fortes, como euro, libra e iene, conforme indicado pelo Dollar Index (DXY), o dólar se fortaleceu levemente.
Os juros futuros dos depósitos interbancários, por sua vez, não seguiram o dólar e continuaram a se descomprimir.
As taxas reagiram com uma alta ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) divulgado na manhã de hoje, e, sim, caíram com a percepção de que a tendência de alta dos preços não é consistente, conforme indicado pelos núcleos da inflação medida pelo índice.
O IPCA apontou alta de 0,89% em novembro, acima do teto das estimativas, enquanto o IPCA acumulado em 12 meses ultrapassou pela primeira vez desde fevereiro o centro da meta de inflação para 2020, de 4,0%, atingindo 4,31%.
Ainda assim, os agentes financeiros adotaram a visão de que a inflação subjacente, ou os núcleos da inflação, que desconsideram efeitos de choques temporários mantiveram-se bem comportados e não indicam uma tendência de alta dos preços.
A inflação subjacente tem o objetivo de captar o viés de alta ou baixa dos preços desprezando impactos transitórios como os que acometem, por exemplo, alimentos, em razão de fatores climáticos, ou em vestuários e carnes, por conta de ajustes sazonais.
Segundo essa percepção, não haveria, então, razão para uma alta de juros por parte do Banco Central (BC) — amanhã o BC decide sobre o futuro da taxa básica de juros, a Selic. Por isto, houve uma desinclinação da curva de juros com queda ao longo de toda a sua extensão.
"Olhando a decomposição da inflação, os indicadores de núcleo até caíram em relação a outubro", diz Eduardo Velho, sócio e economista-chefe da JF Trust Investimentos.
Segundo ele, a alta da inflação começará a ser devolvida a partir de janeiro, com menores efeitos do reajuste de energia elétrica e, também, a redução da demanda pelo fim do auxílio emergencial e a depreciação do dólar.
Pela manhã, foi divulgado o leilão de NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional série B), títulos com taxa de juros prefixada e também atrelados à inflação, realizado pelo Tesouro Nacional.
Foi vendido o lote completo de 1,1 milhão de NTN-Bs — 569,3 mil para maio de 2025; 430,7 mil para agosto de 2030; 12 mil para agosto de 2040 e 88 mil para maio de 2055.
Veja as taxas de fechamento dos principais vencimentos:
- Janeiro/2021: de 1,914% para 1,910%
- Janeiro/2022: de 3,08% para 3,07%
- Janeiro/2023: de 4,48% para 4,45%
- Janeiro/2025: de 6,14% para 6,07%
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