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2019-12-02T18:39:46-03:00
Victor Aguiar
Victor Aguiar
Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pelo Instituto Educacional BM&FBovespa e UBS Escola de Negócios. Trabalhou nas principais redações de economia do país, como Bloomberg, Agência CMA, Agência Estado/Broadcast e Valor Econômico.
Dólar cai a R$ 4,21

Nada de efeito Trump: Ibovespa sobe e encosta nos 109 mil pontos, na contramão do exterior

As sobretaxas ao aço brasileiro, anunciadas mais cedo por Donald Trump, foram ignoradas pelo mercado: o Ibovespa fechou em alta e o dólar recuou, em meio ao otimismo com a China e a percepção de sucesso nas vendas da Black Friday no país

2 de dezembro de 2019
18:39
Selo Mercados FECHAMENTO
Imagem: Montagem Andrei Morais / Shutterstock

Uma tempestade perfeita parecia se formar no exterior. Os mercados lá fora estavam negativos durante a manhã e a economia americana deu sinais de fraqueza — e, bom, o presidente dos EUA, Donald Trump, bateu de frente com o Brasil e sobretaxou as importações de aço do país. A segunda-feira (2) não era promissora para o Ibovespa.

Pois bem: o índice acionário brasileiro desafiou os prognósticos e fechou em alta de 0,64%, aos 108.927,83 pontos, sustentando uma alta firme desde o início do dia. A bolsa local, assim, destoou do exterior: o Dow Jones (-0,96%), o S&P 500 (-0,86%), o Nasdaq (-1,12%) e as praças da Europa tiveram um dia negativo.

O dólar à vista também teve uma sessão tranquila: a moeda americana encerrou a segunda-feira em queda de 0,68%, a R$ 4,2119. Mas, no caso do câmbio, Brasil e exterior andaram juntos: o dia foi marcado por uma desvalorização do dólar ante as divisas de países emergentes.

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E como explicar a ilha de calmaria do Ibovespa, em meio às turbulências das bolsas globais? Bem, há uma série de pontos, externos e domésticos, que ajudam a explicar essa dissonância. Assim como o exterior foi dominado por notícias negativas, os mercados brasileiros receberam uma onda de fatores positivos.

Comecemos a análise pelo lado bom: os dados animadores da economia chinesa e o otimismo com o cenário político e o desempenho das varejistas durante a Black Friday.

Voltando aos trilhos

Entre os fatores positivos para os agentes financeiro domésticos, destaque para os dados econômicos da China mostrando um sinal de fortalecimento da indústria do país, o que afasta parcialmente os temores quanto a uma desaceleração mais intensa da atividade do gigante asiático.

A expansão da economia chinesa é particularmente importante para o Brasil, já que o país é o principal consumidor global de commodities e produtos para a indústria de base — como o minério de ferro, o aço, o papel e a celulose, entre outros. Assim, a notícia foi comemorada pelos investidores locais.

Um segundo ponto que foi recebido com entusiasmo pelos agentes financeiros foi o balanço da Black Friday. Segundo um levantamento do instituto Boa Vista, as vendas do comércio na data cresceram 6,4% em relação a 2018, superando as projeções da empresa de alta de 4%.

Os dados da instituição levam em conta o período de 26 a 30 de novembro de 2019, em comparação com o intervalo entre 20 e 24 de novembro de 2018. Apenas na sexta-feira (29), a instituição diz estimar um aumento de 8% nas vendas em relação ao ano passado.

Nesse cenário, as ações de empresas varejistas fecharam em alta firme nesta segunda-feira, com destaque para Via Varejo ON (VVAR3), com ganho de 4,09%; B2W ON (BTOW3), com valorização de 4,37%; e Lojas Americanas PN (LAME4), com avanço de 2,02%.

No fim da tarde, uma manifestação oficial da Via Varejo confirmou a percepção positiva do mercado. Em resposta aos questionamentos do Seu Dinheiro, a empresa diz ter realizado a maior Black Friday dos últimos anos — apenas na sexta-feira (29), a companhia diz ter vendido R$ 1,1 bilhão, com 48% das operações on-line.

"Essa Black Friday representa uma virada em nossa companhia. Tivemos um desempenho acima da expectativa. Vencemos uma batalha", escreveu o presidente da Via Varejo, Roberto Fulcherberguer, no comunicado. "Fizemos todo o planejamento com estratégia, conseguimos equilíbrio entre volume e rentabilidade. Não sacrificamos margem. Estamos virando o jogo".

Por fim, um economista ainda cita o noticiário político doméstico como catalisador para o desempenho positivo do Ibovespa e do câmbio. "A Simone Tebet [presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado] deu uma entrevista comentando sobre as reformas estruturais e se mostrou bem otimista com a tramitação da PEC dos fundos", diz ele, afirmando que as declarações foram bem recebidas pelo mercado.

Tensões externas

O cenário positivo para os ativos domésticos acabou se sobrepondo às tensões vistas lá fora, em especial ao anúncio da retomada na sobretaxação ao aço e alumínio do Brasil e da Argentina pelos Estados Unidos, de modo a compensar o ganho de competitividade nas exportações desses países após a recente desvalorização de suas moedas.

Embora a notícia não seja positiva, o mercado conseguiu evitar uma espiral de perdas. Afinal, o grande comprador externo de aço e commodities metálicas do Brasil é a China, e não os Estados Unidos — e, como dito no início do texto, a indústria chinesa está se fortalecendo.

Assim, apesar de o posicionamento de Trump gerar preocupação, as ações das siderúrgicas não sentiram o golpe. Pelo contrário: Usiminas PNA (USIM5) fechou em alta de xxx%, Gerdau PN (GGBR4) subiu xx% e CSN ON (CSNA3) teve ganho de xx%. Um estudo mais aprofundado da lógica por trás das siderúrgicas, com os números das exportações de cada uma das companhias, pode ser visto nesta matéria especial.

Ainda nos EUA, o índice ISM de atividade no setor manufatureiro caiu a 48,1 em novembro, abaixo das projeções do mercado, de 49,2 — dado que trouxe cautela às bolsas americanas. No entanto, por mais que os índices de Nova York tenham terminado no vermelho, o Ibovespa conseguiu se sustentar em alta, considerando o otimismo com a China e o noticiário doméstico.

E o dólar?

No mercado de câmbio, o dólar perdeu força em relação às divisas de países emergentes, como o rublo russo, o peso chileno, o rand sul-africano e o peso colombiano. No entanto, o real apareceu entre os destaques, ganhando terreno em magnitude superior a seus pares.

Há dois fatores que ajudam a tirar pressão do dólar à vista por aqui. Em primeiro lugar, o Banco Central (BC) realizou mais um leilão à vista de dólares — prática que vem sendo adotada desde a semana passada, como maneira de frear a escalada nas cotações da moeda americana.

Além disso, operadores e analistas destacaram que a manifestação de Trump em relação ao aço e alumínio do Brasil e da Argentina pode ser entendida como um mecanismo do republicano para pressionar o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

Em seu tuíte, o presidente do país diz que a instituição deveria agir para que os países "não tirem vantagem do dólar forte através de uma desvalorização cambial". Ou seja: se o Fed agir para enfraquecer o dólar, tais medidas não serão necessárias.

Alta nos juros

Apesar do alívio no dólar à vista, as curvas de juros continuam em sua trajetória de ajustes positivos, com o mercado apostando que o ciclo de cortes na Selic poderá ser interrompido antes do que era originalmente previsto, em meio à desvalorização recente do câmbio.

Nesse cenário, veja como se comportam os principais DIs nesta segunda-feira:

  • Janeiro/2021: de 4,69% para 4,75%;
  • Janeiro/2023: de 5,89% para 5,96%;
  • Janeiro/2025: de 6,52% para 6,57%;
  • Janeiro/2027: de 6,85% para 6,90%.

Top 5

Veja as cinco ações de melhor desempenho do Ibovespa nesta segunda-feira:

  • CSN ON (CSNA3): +5,73%
  • NotreDame Intermédica ON (GNDI3): +4,41%
  • B2W ON (BTOW3): +4,37%
  • Via Varejo ON (VVAR3): +4,09%
  • BR Malls ON (BRML3): +3,92%

Confira também os papéis com as maiores perdas do índice:

  • Qualicorp ON (QUAL3): -2,72%
  • Raia Drogasil ON (RADL3): -2,65%
  • Smiles ON (SMLS3): -2,45%
  • BTG Pactual units (BPAC11): -2,31%
  • Yduqs ON (YDUQ3): -2,15%
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