De café da tarde em família a 60 mil bolos por dia: a trajetória da Casa de Bolos rumo aos R$ 800 milhões
A rede começou depois que o filho da fundadora Vó Sônia perdeu o emprego. Hoje, o negócio já possui mais de 600 unidades

Aos 80 anos, Sônia Ramos — mais conhecida como Vó Sônia — segue sendo o principal símbolo de uma rede de franquia que nasceu de um café da tarde em família e hoje produz cerca de 60 mil bolos por dia.
Fundada em 2010, em Ribeirão Preto (SP), a Casa de Bolos encerrou 2025 com faturamento de R$ 720 milhões, crescimento de 11,6% nas operações e a inauguração de 63 novas unidades. Para 2026, a projeção é alcançar 700 lojas e R$ 800 milhões em receita.
Com mais de 600 unidades distribuídas em 20 estados e presença em mais de 250 municípios brasileiros — além de uma loja em Lisboa, Portugal —, a rede teve um início bem mais simples.
Casa de Bolos: oportunidade em momento de incerteza financeira
A Casa de Bolos começou pela necessidade da família de ter uma outra fonte de renda. Rafael Ramos, filho caçula de Sônia e hoje responsável pela área de marketing da empresa, havia perdido o emprego ao fim do contrato de estágio em uma multinacional.
“Eu estava estudando marketing e trabalhava como estagiário, mas a empresa decidiu não renovar meu contrato. Fiquei um período sem emprego, e minha mãe estava aposentada, recebendo um salário-mínimo”, afirma.
Sônia já era conhecida na família por preparar bolos confeitados para casamentos e aniversários. Então, durante uma conversa à mesa de casa, surgiu a ideia de transformar a habilidade em negócio.
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A família pesquisou o mercado local e identificou uma lacuna: havia uma grande oferta de bolos confeitados, mas poucos estabelecimentos especializados em bolo caseiro simples.
“Visitamos padarias e supermercados e percebemos que o bolo caseiro de qualidade não era fácil de encontrar. Vimos ali uma oportunidade de fazer um bolo simples, bem-feito, com preço acessível”, diz Rafael.
A primeira unidade foi aberta em 11 de abril de 2010, em um pequeno ponto comercial no centro de Ribeirão Preto. No primeiro dia, venderam 21 bolos – o que foi um resultado melhor do que eles esperavam.

Simplicidade como estratégia
Desde o início, a proposta foi manter uma estrutura enxuta e foco no produto. A loja tinha cerca de 100 metros quadrados, dois fornos, duas batedeiras industriais e capacidade inicial para produzir cerca de 110 bolos por dia — número que, à época, parecia ambicioso.
A família chegou a sentar em frente ao ponto comercial para contar o fluxo de pessoas e carros, registrando os dados em planilha para estimar o potencial de vendas. “Não precisava ser grande para fazer um pequeno estudo de mercado. É o mínimo que todo negócio pode fazer”, afirma Rafael.
O cardápio começou com bolos tradicionais de furo no meio — fubá, milho, cenoura, trigo — vendidos a preços acessíveis.
O atendimento próximo, feito pela própria Sônia, também se tornou marca registrada. “Fizemos o básico bem-feito: atender bem, com cuidado, de forma humanizada. Isso traz retorno”, diz o executivo.
Do negócio familiar ao franchising
O crescimento rápido chamou a atenção de parentes interessados em abrir unidades semelhantes.
“Não tínhamos dinheiro para crescer sozinhos e não queríamos simplesmente vender receita e criar concorrente. A franquia foi a forma de manter padrão e expandir com responsabilidade”, explica Rafael.
O ponto de virada veio em 2012, com a abertura de uma unidade em Pinheiros, em São Paulo, aberta pelo cunhado de um dos filhos da Sônia. A loja alcançou vendas expressivas e ampliou a visibilidade da marca. Com isso, diversos clientes pediram para abrir uma unidade do negócio. Ao fim daquele ano, a rede já somava 25 lojas franqueadas.
Desde então, a expansão tem ocorrido majoritariamente de forma orgânica, impulsionada por consumidores que se interessam em levar a marca para suas cidades.
Atualmente, cerca de 80% das unidades estão concentradas no Sudeste, mas a empresa intensifica o avanço no Nordeste, especialmente na Paraíba e no Ceará.
A rede também tem uma unidade em Lisboa, em Portugal, comandada por um dos filhos da Vó Sônia. No entanto, a expansão internacional não é um dos objetivos no momento.
Inovação sem romper a tradição
Ao longo dos anos, a empresa adaptou o modelo de negócio às mudanças de mercado. Em 2016, lançou o bolo caseiro no pote, uma febre do momento, voltado ao consumo individual e a períodos de altas temperaturas.
“Nossos franqueados pediram para que a gente vendesse sorvete quando estivesse mais calor, mas nosso foco sempre foi bolo caseiro. Decidimos vender os bolos no pote que podem ser servidos gelados”, diz.
O produto também viabilizou a criação de quiosques em shoppings e estações de metrô, ampliando os formatos de operação.
O papel permanente de Vó Sônia
Mesmo sem atuar na gestão cotidiana, Sônia Ramos mantém participação ativa. Ela organiza e revisa pessoalmente os cadernos de receitas entregues aos franqueados e opina no desenvolvimento de novos produtos.
“Ela não abre mão das receitas. Tudo passa pela mão dela. Quando lançamos um bolo novo, ela experimenta, dá opinião. A experiência dela é fundamental”, afirma o filho.
Quanto custa abrir uma franquia da Casa de Bolos?
A Casa de Bolos oferece cinco modelos de franquia. Dois são voltados para novos franqueados (Loja Mini e Loja Standard) e três para quem já faz parte da rede (Express, Quiosque e Hub). O prazo estimado de retorno é de 24 meses em todos os formatos.
A seguir, veja investimento inicial (taxa de franquia + implantação), faturamento médio e margem estimada de cada modelo.
Loja Mini
- Investimento inicial: R$ 170 mil
- Royalties: R$ 1.700 fixos mensais (reajuste anual)
- Taxa de publicidade: R$ 300 mensais (reajuste anual)
- Faturamento médio mensal: R$ 65 mil
- Lucro estimado: 20%
- Área mínima: 40 m²
- Retorno estimado: 24 meses
O modelo conta com cozinha própria e atendimento ao público, mas tem estrutura e capacidade produtiva menores.
Loja Standard
- Investimento inicial: R$ 219 mil
- Royalties: R$ 2.300 fixos mensais (reajuste anual)
- Taxa de publicidade: R$ 400 mensais (reajuste anual)
- Faturamento médio mensal: R$ 143 mil
- Lucro estimado: 15%
- Área mínima: 80 m²
- Retorno estimado: 24 meses
É o modelo mais tradicional da rede e concentra a maior parte das unidades, com cardápio completo de mais de 100 sabores.
Loja Express
- Investimento inicial: R$ 113 mil
- Taxa de franquia: R$ 51 mil
- Implantação: R$ 62 mil
- Royalties: R$ 1.500 fixos mensais
- Taxa de publicidade: R$ 300 fixos mensais
- Faturamento médio mensal: R$ 63 mil
- Lucro estimado: 40%
- Área mínima: 30 m²
- Retorno estimado: 24 meses
Não possui cozinha. Funciona como ponto de venda abastecido por outra unidade do mesmo franqueado.
Quiosque
- Investimento inicial: R$ 138 mil
- Royalties: 4% do faturamento bruto
- Taxa de publicidade: 2% do faturamento bruto
- Faturamento médio mensal: R$ 150 mil
- Lucro estimado: 66%
- Área mínima: 4 m²
- Retorno estimado: 24 meses
Também não possui cozinha e opera como ponto de venda em locais de grande circulação, como shoppings, aeroportos e estações.
Hub (modelo de produção)
- Investimento inicial: R$ 144 mil (taxa de franquia + implantação; não inclui reforma e capital de giro)
- Royalties: R$ 1.500 fixos mensais (reajuste anual)
- Taxa de publicidade: isento
- Faturamento médio mensal: R$ 128 mil
- Área mínima: 80 m²
- Retorno estimado: 24 meses
O Hub não realiza atendimento ao público. Atua exclusivamente como unidade de produção para abastecer modelos Express e Quiosque.
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