Pinakotheke troca o Morumbi por Higienópolis e estreia nova fase com mostra sobre Surrealismo
Com exposição inaugural que reuniu mais de 10 mil visitantes no primeiro mês, a galeria fundada por Max Perlingeiro em 1979 inaugura novo espaço em casarão histórico reformado

Mais de 46 anos após sua fundação no Rio de Janeiro, a Pinakotheke chega a um novo endereço em São Paulo. O projeto vai além da mudança de sede, com rebranding, novos públicos e inclusive uma exposição que levou quase uma década para sair do papel.
Desde maio deste ano, a galeria ocupa um casarão dos anos 1930 na Rua Minas Gerais, esquina com a Praça Marechal Cordeiro de Farias, em Higienópolis, São Paulo. O imóvel estava fechado há anos. Então a Pinakotheke o escolheu para sediar sua nova operação, antes concentrada no Morumbi, onde a instituição permaneceu por 24 anos.
“Esta reestruturação tem como principal objetivo consolidar a Pinakotheke para um novo momento de expansão nacional e internacional”, diz Max Perlingeiro, fundador e diretor-geral da Pinakotheke. “O rebranding e a mudança para a nova sede em Higienópolis traduzem uma instituição em transformação, preparada para ampliar seu diálogo com novos públicos”.

A mostra inaugural, Surrealismos: arte para além da razão, recebeu mais de 10 mil visitantes no primeiro mês. Perlingeiro atribui o número, inclusive, à mudança de endereço.
“Estar no coração do maior corredor cultural da cidade colocou a exposição no mapa de uma maneira que superou todas as nossas expectativas”, comemora. “Estamos emocionados com o acolhimento da cidade e dos paulistanos, que confirmam que essa nova fase começou da melhor maneira possível.”
A reforma
A obra de adequação e modernização ficou por conta do escritório Luciano Dalla Marta Arquitetura. O time responsável mapeou os elementos originais da construção antes de qualquer intervenção. Assim, pisos, molduras e proporções foram recompostos, e a estrutura interna precisou ser praticamente refeita.
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“A casa estava largada, fechada há muito tempo. Estava uma tristeza quando entramos lá”, conta Dalla Marta.
A pesquisa histórica que antecedeu as obras, aliás, foi o que permitiu ao escritório distinguir o que deveria ser preservado do que precisava ser substituído. “Praticamente demolimos a casa internamente e a reconstruímos para atender às normas de segurança e de estrutura”, explica.
Para o arquiteto, aliás, a grande protagonista na casa é a arte. “A arquitetura, neste caso, é submetida à arte. Elas não devem competir.”
Os espaços foram repensados tanto para as exposições quanto para os trabalhos mantidos em acervo. Isso que exige exigências técnicas específicas de iluminação, climatização e circulação. O terreno tem 700 metros quadrados. Deles, 180 se dedicam à área expositiva, quase o dobro do endereço anterior, e 370 de área externa que circunda a construção.

Área preservada
Além da restauração do casarão, o projeto ainda tem um pavilhão anexo em aço corten. A estrutura tem poucos pontos de suporte, o que preserva a vista do terreno. Ela nasceu para receber encontros, eventos e atividades que ampliem o programa da galeria.
“Quis preservar a identidade da casa. Havia um espaço ao lado que ficava abandonado, então pensei em uma cobertura que é solta da casa. São elementos complementares”, diz Dalla Marta sobre a escolha, que também foi simbólica.
“A casa representa um pedaço da história de São Paulo. Pensei em criar algo que mostrasse que alguma coisa foi mudada, que não é simplesmente uma casa, mas uma instituição em funcionamento. É um toque contemporâneo que traz a pessoa para o momento atual.”
A exposição
“Surrealismos: arte para além da razão”, em cartaz até 15 de agosto, é também um projeto pessoal de Perlingeiro. A pesquisa começou em 2016, quando ele foi mais de uma vez à exposição sobre Magritte no Centre Pompidou, em Paris. A mostra explorava a relação entre a pintura do artista belga e a filosofia.
“Isso foi determinante para iniciar uma pesquisa interminável, quase obsessiva, sobre o Surrealismo. Da leitura de dezenas de livros e artigos em revistas de arte e psicanálise à vista de filmes e vídeos”, conta o diretor-geral da instituição, também curador da mostra.

O plano inicial era lançar a exposição em 2024, para marcar o centenário do Manifesto Surrealista de André Breton. O projeto acabou adiado, mas o período serviu para incorporar novas referências. Entre elas, as mostras comemorativas do centenário realizadas nos Estados Unidos e na Europa, e a retrospectiva de Lee Miller na Tate Britain, em Londres. A fotógrafa surrealista, musa e colaboradora de Man Ray, aliás, foi um dos últimos acréscimos ao repertório conceitual.
“Nunca o Surrealismo foi tão discutido, pensado, repensado: a participação feminina, o encontro de Breton com a revista antilhana Tropiques em 1941, a negritude e o Surrealismo”, diz Perlingeiro.
O cocurador Tadeu Chiarelli explica a opção pelo plural no título. De acordo com ele, “a opção por usar o termo Surrealismo no plural traduz a diversidade de práticas e teorizações acerca do movimento".
"Existe um conjunto de obras e ações ligadas à arte que pode ser entendido como voltado para o inconsciente e para o fantástico, para o maravilhoso e para o onírico, utilizado por aqueles que desejaram manifestar suas percepções do mundo, tanto na arte quanto na política.”

De Dalí a Di Cavalcanti
São cerca de 100 obras de 60 artistas em três núcleos. O primeiro traz europeus: Dalí, Magritte, Picasso, Max Ernst, Joan Miró, Giorgio de Chirico, Marcel Duchamp e Louise Bourgeois, entre outros.
O segundo é um tributo aos latino-americanos com Diego Rivera, Leonora Carrington e Roberto Matta. Além disso, há uma seleção de brasileiros como Tarsila do Amaral, Ismael Nery, Di Cavalcanti, Athos Bulcão e Tunga.
No terceiro núcleo estão artistas norte-americanos e caribenhos, com destaque para Man Ray, Francesca Woodman e Minnie Evans. Maria Martins e Louise Bourgeois, porém, têm salas individuais.
Entre os destaques do segundo andar estão dois trabalhos de René Magritte, “La magie noire” (1948) e “La fin du monde” (1963); a escultura “Mujer de pie” (1945), de Pablo Picasso, em bronze patinado dourado; e “Femme debout” (c. 1963), de Alberto Giacometti, também em bronze.
No mesmo piso, a grande xilogravura de M.C. Escher, “Metamorphose” (1939-1940), com quatro metros de comprimento, ocupa passagem entre salas. De Salvador Dalí, a exposição traz escultura “Vénus spatiale” (1984), três peças em cerâmica esmaltada da série “La suite catalane” (1954) e “The Persistence of Memory II”, em lã e colagem.
A mostra tem inclusive uma coleção de fotocolagens e fotomontagens, vídeos de artistas contemporâneas brasileiras como Letícia Parente e Lenora de Barros, e trechos de filmes clássicos como “Un Chien Andalou”, de Luis Buñuele Dalí, e “Le Sang d’un poète”, de Jean Cocteau. A entrada é gratuita.
Além da arte
Durante o período da exposição, a área externa terá uma cafeteria temporária, em parceria com o Orfeu Cafés Especiais. O espaço abriga também uma livraria com o catálogo da Pinakotheke Editora e suas publicações acumuladas ao longo de décadas de atuação, que incluem monografias, catálogos e edições de referência sobre arte brasileira e internacional.
Já o pavilhão está programado para receber encontros, lançamentos e atividades que ampliem o escopo cultural da galeria para além das mostras. A intenção, segundo a instituição, é transformar a nova sede em um polo de atividade contínua, não apenas durante as temporadas expositivas.
Serviço: Surrealismos: arte para além da razão na Pinakotheke São Paulo
Endereço: Rua Minas Gerais 246 - Higienópolis, São Paulo
Período: até 15 de agosto de 2026
Entrada: gratuita
Horários: segunda a sexta-feira, das 10h às 18h; sábados e feriados, das 10h às 16h
Mais informações: pinakotheke.com.br | @pinakotheke
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