Matisse em SP: o que se sabe sobre as obras recuperadas oito meses após roubo em biblioteca
Oito obras do pintor francês avaliadas em 200 mil (R$ 1 milhão) roubadas durante um assalto à Biblioteca Mário de Andrade foram encontradas em São Bernardo do Campo

Uma sacola de lona, 13 gravuras e uma fuga pela porta da frente. Foi assim que, em dezembro do ano passado, um dos mais importantes acervos culturais de São Paulo perdeu obras de Henri Matisse e Cândido Portinari. Agora, oito meses depois, parte desse patrimônio voltou para casa.
Na última quinta-feira (13), a Polícia Civil encontrou as oito gravuras de Matisse em uma residência em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. As obras, avaliadas em mais de US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão), segundo as autoridades, estavam sob a guarda de um homem de 44 anos, que acabou preso.
Além das obras de Matisse, mais cinco gravuras de Portinari desapareceram no mesmo assalto e continuam sem paradeiro conhecido.

Os detalhes do roubo
O crime ocorreu em 7 de dezembro de 2025, quando terminava a exposição Do Livro ao Museu, realizada pela Biblioteca Mário de Andrade em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).
A mostra passou três meses em cartaz e reuniu obras que ajudavam a contar uma parte da história da arte moderna brasileira. Entre elas estavam as oito gravuras de Matisse e cinco de Portinari.
Na manhã daquele domingo, dois homens entraram na biblioteca pela entrada principal. Em seguida, seguiram até a exposição, renderam um segurança e um casal de idosos que visitava o espaço e retiraram as obras.
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Os criminosos, inclusive, colocaram as 13 gravuras em uma sacola de lona e deixaram o prédio a pé e foram em direção ao metrô Anhangabaú. Vigilantes ainda correram para pedir ajuda a policiais que patrulhavam a região, mas os suspeitos não foram encontrados.

O valor das obras
Henri Matisse (1869–1954) ocupa um lugar central na história da arte moderna. Ele foi pintor, escultor, desenhista e gravurista e é considerado um dos maiores nomes da arte moderna. O artista francês ficou conhecido por liderar o Fauvismo, movimento conhecido pelo uso de cores vibrantes aplicadas diretamente do tubo de tinta, sem apego com a realidade visual.

Suas obras levadas da Biblioteca Mário de Andrade pertencem a uma das fases mais importantes de sua carreira, inclusive. As oito gravuras fazem parte de Jazz, livro de artista publicado em 1947. Matisse desenvolveu o projeto durante os últimos anos de sua vida, quando problemas de saúde dificultavam seu trabalho como pintor.
Sem conseguir trabalhar como antes, o artista passou a recortar formas em papéis coloridos e a montar as composições diretamente com esses fragmentos. O processo deu origem a uma das marcas mais reconhecíveis de sua produção tardia.
Em Jazz, ele levou essa técnica para uma publicação artística de grande escala. O livro reúne 20 pranchas e utiliza o pochoir, método de impressão que permitia aplicar as cores manualmente. O Museu de Arte Moderna de Nova York, por exemplo, possui um exemplar de Jazz de 1947. A edição registrada pela instituição tinha apenas 100 exemplares.
Após encontrar as obras, a polícia brasileira recuperou as seguintes gravuras de Matisse:
- O palhaço (Le clown);
- O circo (Le cirque);
- Senhor leal (Monsieur loyal);
- O pesadelo do elefante branco (Cauchemar de l'Eléphant Blanc);
- Os Codomas (Le Codomas);
- O nadador no aquário (La nageuse dans l'aquarium);
- O engolidor de palavras (L'avaleur de sabres);
- O cowboy (Le Cowboy).

O que aconteceu com as obras depois do roubo?
De acordo com a polícia, Laéssio Rodrigues de Oliveira, de 53 anos, teria planejado e coordenado o roubo. Conhecido por investigações anteriores envolvendo obras de arte e livros raros, ele está preso desde abril por outro caso. Já João Paulo Linhares de Araújo, encontrado com as gravuras nesta semana, seria responsável por guardar as peças para os envolvidos no crime. Além disso, a investigação também levou à prisão de outras pessoas.
Logo depois do roubo, as autoridades passaram a trabalhar em impedir que as obras deixassem o país. Isso porque, uma peça que desaparece no Brasil pode reaparecer anos depois em outro país, o que pode dificultar a investigação. Por isso, a Prefeitura de São Paulo acionou a Polícia Federal e a Interpol e comunicou o desaparecimento a instituições responsáveis pelo monitoramento do patrimônio cultural.
Enquanto as oito gravuras de Matisse já voltaram para o acervo, a história de Portinari continua em aberto. Os cinco trabalhos levados no mesmo dia ilustravam uma edição especial de Menino de Engenho, romance de José Lins do Rego. Portinari criou as gravuras para uma edição de 1959.
Cândido Portinari (1903–1962) foi um dos principais nomes do modernismo brasileiro e um dos artistas mais reconhecidos internacionalmente do país. Nascido em Brodowski, no interior de São Paulo, ele ganhou destaque por retratar em suas obras trabalhadores, cenas do cotidiano e desigualdades sociais brasileiras, com uma linguagem marcada por cores, formas e traços próprios.


A biblioteca já sofreu outro roubo de obras raras
Em 2006, 12 gravuras do século 19 desapareceram da biblioteca durante uma reforma. Os trabalhos pertenciam ao artista suíço Johann Jacob Steinmann e ilustravam Souvenirs de Rio de Janeiro, publicação dedicada a paisagens brasileiras.
O curioso é que as obras só reapareceram 16 anos depois. Em 2024, a Polícia Federal devolveu as 12 gravuras à biblioteca. Antes disso, elas haviam passado pelas mãos de um colecionador brasileiro que comprou as obras de forma legal em uma casa de leilões em Londres. A procedência, entretanto, acabou entregando o passado das peças. Como as gravuras constavam dos registros internacionais de obras desaparecidas, as autoridades conseguiram rastreá-las.
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