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Dólar, juros e EUA: ex-Fed e ex-Tesouro dá pistas sobre o que pode acontecer a partir de agora 

Para Janet Yellen, inflação ainda reserva surpresas e o banco central norte-americano pode voltar a apertar a política monetária

Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e ex-secretária do Tesouro dos EUA.
Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e ex-secretária do Tesouro dos EUA. - Imagem: Paulo Bareta

Quando Janet Yellen fala sobre jurosinflação ou cenário fiscal, o mercado costuma prestar atenção por um motivo simples: poucas pessoas participaram de tantas decisões de política econômica e monetária nos Estados Unidos quanto ela. E, nesta quinta-feira (23), o recado foi claro: os juros não vão ceder na maior economia do mundo.  

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"Se eu fosse uma pessoa de apostas, apostaria que veremos mais aceleração da inflação", afirmou a economista, durante evento realizado nesta tarde. 

Na avaliação da ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e ex-secretária do Tesouro dos EUA, a combinação de tensões geopolíticas, tarifas comerciais, investimentos bilionários em inteligência artificial (IA) e uma economia norte-americana que segue resiliente mudou o pano de fundo da política monetária.  

Em outras palavras, devolver a inflação à meta de 2% ficou mais difícil — e isso aumenta a probabilidade de que os juros permaneçam elevados por mais tempo ou até voltem a subir. 

"Neste momento, acredito que o Fed está em compasso de espera, mas totalmente preparado para voltar a elevar os juros. Se essa última rodada de turbulências no Oriente Médio continuar ou se intensificar, poderemos ver novas altas para conter a inflação", disse. 

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Por que Yellen fala e o mercado ouve? 

Em mais de três décadas, Yellen esteve no centro das principais respostas dos EUA a crises econômicas e financeiras.  

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Ela segue sendo a única pessoa na história norte-americana a ter comandado as três instituições mais importantes da política econômica dos EUA: o Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca (CEA), o Federal Reserve e o Departamento do Tesouro. 

Além do feito inédito, também foi a primeira mulher a presidir tanto o banco central norte-americano quanto o Tesouro. 

Mais do que ocupar cargos históricos, Yellen ajudou a redefinir a própria atuação do Fed.  

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Ao longo da carreira, tornou-se uma das principais defensoras da ideia de que o banco central não deveria priorizar apenas um lado do mandato duplo (a inflação), mas também se concentrar no mercado de trabalho. 

Essa visão continua influenciando as decisões do Fed até hoje. 

Mas é importante destacar que que quem determina o chamado mandato duplo do BC dos EUA — de estabilidade de preços, com inflação em 2%, e pleno emprego — é o Congresso norte-americano.  

O recado de Yellen para o investidor 

Outro ponto que, segundo Yellen, ainda é pouco precificado pelos investidores é o impacto da inteligência artificial sobre os preços. 

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Embora exista a expectativa de que a IA aumente a produtividade e reduza custos no longo prazo, ela avalia que, neste momento, ocorre justamente o contrário. 

"Neste momento, acho que a inteligência artificial está acelerando a inflação, e não esfriando", afirmou. 

Na avaliação da economista, a corrida global por infraestrutura de IA elevou fortemente a demanda por semicondutores, data centers e eletricidade, pressionando custos justamente quando o Fed tenta desacelerar a economia. 

Ao mesmo tempo, a valorização das gigantes de tecnologia impulsiona o mercado acionário norte-americano, aumenta a riqueza financeira das famílias e mantém o consumo aquecido. 

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"O mercado de ações sobe com a expectativa de lucros futuros, e isso acaba estimulando ainda mais os gastos", disse. 

Juros altos mudam o principal problema dos EUA 

Na visão de Yellen, porém, os efeitos de um ambiente prolongado de juros elevados vão além da inflação. Para ela, o maior risco hoje está nas contas públicas norte-americanas. 

"O que realmente me preocupa não é a relação dívida/PIB. O que me preocupa é o peso crescente das despesas com juros", afirmou. 

A dívida federal dos Estados Unidos já gira em torno de 100% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o déficit público permanece próximo de 6% da economia mesmo fora de um período recessivo. 

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Segundo Yellen, durante anos esse problema permaneceu parcialmente escondido porque os juros estavam próximos de zero. Agora, financiar a dívida ficou muito mais caro. 

Na avaliação da economista, o envelhecimento da população elevará continuamente os gastos com previdência e saúde, tornando inevitável alguma combinação entre aumento de impostos, redução de benefícios ou cortes de despesas. 

"O problema dos EUA vai piorar e não há solução indolor. Isso terá de envolver alguma combinação de impostos mais altos, pensões mais baixas ou menor apoio para despesas médicas", disse. 

O desafio, segundo ela, é que nenhuma dessas alternativas encontra respaldo político. 

Yellen lembrou ainda que os bancos centrais reduziram significativamente as compras de títulos públicos nos últimos anos, aumentando a dependência dos governos em relação ao mercado para financiar seus déficits. 

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"Em algum momento, os mercados olharão para essa trajetória fiscal e poderão exigir taxas de juros mais altas", alertou. 

Dólar perde força, mas continua sem rival 

Apesar das discussões sobre desdolarização, Yellen acredita que a moeda norte-americana continuará ocupando posição dominante no sistema financeiro internacional. 

Ela reconhece que o dólar perdeu participação nas reservas internacionais nos últimos anos, em parte devido às sanções impostas contra Rússia e China, mas considera improvável que outra moeda assuma esse papel no curto prazo. 

"Não existe outro mercado com a mesma profundidade, liquidez e segurança institucional", afirmou. 

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Nem mesmo a China, segundo ela, reúne hoje as condições necessárias para substituir o dólar devido às restrições sobre a movimentação de capitais. 

Yellen também demonstrou otimismo cauteloso em relação às stablecoins, criptomoedas com lastro em ativos reais com o dólar.  

Na avaliação da ex-secretária do Tesouro, essas moedas digitais podem tornar os pagamentos internacionais mais eficientes e até fortalecer a posição global do dólar, desde que funcionem sob regras claras. 

"As stablecoins precisam ser totalmente lastreadas por ativos seguros. Sem regulamentação, podem representar riscos reais para a estabilidade financeira", afirmou. 

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