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Como um déjà vu, Kevin Warsh é colocado na panela de pressão pelo republicano, enquanto o mercado refaz as apostas no aperto monetário nos EUA

Kevin Warsh mal teve tempo de esquentar a cadeira no Federal Reserve (Fed) e já herdou a mesma dor de cabeça de seu antecessor. O novo presidente do banco central norte-americano estreia com uma missão das mais espinhosas: equilibrar a independência da instituição diante de um mercado que passa a apostar em juros mais altos — e de uma Casa Branca que quer exatamente o contrário.
Como um déjà vu do mandato de Jerome Powell, a cena se repetiu nesta sexta-feira (5): após a divulgação do payroll — o principal relatório de emprego dos EUA — de maio, que mostrou uma criação de vagas acima das estimativas pelo terceiro mês seguido, Donald Trump pegou o microfone a bordo do Air Force One e foi direto ao ponto: “gostaria de ver as taxas de juros do Fed mais baixas.”
O republicano elogiou os números do emprego — “muito bons”, “muito melhores do que o esperado” — mas fez questão de desassociá-los de qualquer risco inflacionário.
Em maio, a economia norte-americana criou 172 mil vagas, superando as estimativas de 85 mil, e a taxa de desemprego ficou estável em 4,3%, em linha com o esperado.
“Crescimento não significa inflação”, disse Trump, em uma tentativa de esvaziar o principal argumento dos que defendem cautela na política monetária.
Trump ainda foi mais longe e citou Warsh pelo nome, dizendo que deixará a decisão sobre corte de juros “a cargo” do novo presidente do Fed na reunião de outubro — e que “não se importaria” se ele optasse por reduzir as taxas.
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O comitê de política monetária do Fed (Fomc, na sigla em inglês) se reúne nos dias 16 e 17 deste mês. Os próximos encontros acontecem em 28 e 29 de julho, depois em 15 e 16 de setembro.
O republicano não explicou por que mencionou o encontro de outubro, marcado para os dias 27 e 28, mas vale lembrar que ocorre poucos dias antes das eleições de meio de mandato nos EUA.
Enquanto Trump pressiona por juros menores, o mercado vai na contramão com força. A ferramenta FedWatch, do CME Group, mostrou uma reprecificação expressiva logo após o payroll.
A probabilidade de alta de juros na reunião de setembro saltou de 23% para 38%. Para outubro — justamente a reunião que Trump mencionou —, a aposta em aperto já superou a de manutenção, chegando a 50,5%.
E dezembro se consolidou como o primeiro mês com expectativa majoritária de aperto: a chance de pelo menos uma elevação dos juros até o fim do ano avançou de 58% para 70%.
A única certeza, por ora, é que junho será de calmaria: 98% do mercado aposta em manutenção da taxa nos atuais 3,50% a 3,75% ao ano na próxima reunião do Fomc.
A Capital Economics avaliou que o resultado do payroll aproxima o Fed de “algumas altas preventivas” ainda em 2026.
Se o mercado de trabalho não piorar significativamente nos próximos meses, a consultoria britânica indica que setembro pode marcar o início de um novo ciclo de aperto monetário — o oposto do que Trump quer.
Para o investidor brasileiro, o recado é importante. Juros mais altos nos EUA tendem a fortalecer o dólar globalmente, pressionando o real e encarecendo importações.
Além disso, um ambiente de juros elevados lá fora aumenta a atratividade dos títulos norte-americanos, o que pode reduzir o apetite por ativos de mercados emergentes — incluindo o Brasil.
Warsh herda, portanto, não apenas a cadeira de Powell, mas também o mesmo dilema: como conduzir a política monetária com autonomia quando o inquilino da Casa Branca acompanha cada decisão de perto — e não hesita em opinar publicamente?
A resposta, por enquanto, está nas mãos do novo xerife do Fed. E o mundo inteiro vai assistir ao seu próximo movimento.
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