A mensagem por trás da decisão dos juros nos EUA que derrubou as bolsas lá fora e aqui
O banco central norte-americano manteve a taxa referencial na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, como esperado; entenda o que incomodou os investidores

Em um relacionamento, certamente Kevin Warsh não é a pessoa das declarações públicas de amor. Nesta quarta-feira (29), o presidente do Federal Reserve fez questão de deixar claro que não haverá carro de som para guiar os passos dos investidores sobre os juros nos EUA — mas, mesmo sendo low profile, o presidente do banco central norte-americano não escondeu o que sente (ou pensa).
A decisão de hoje de manter os juros inalterados na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano não pegou ninguém de surpresa, a não ser pelo fato de que o texto do comunicado tinha cinco parágrafos curtos. Ainda assim, as poucas explicações trouxeram mensagens (de amor?) cifradas ao mercado.
A primeira delas veio do trecho que diz que “a inflação permanece elevada em relação à meta de 2% do Comitê, refletindo em parte choques de oferta que impulsionaram aumentos de preços em certos setores, incluindo energia”.
Vinicius Flores, gestor de investimentos e fundador da Stratton Capital, explica que o fato de o comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês) reconhecer explicitamente que a inflação elevada reflete choques de oferta em setores como o de energia é uma distinção importante, já que choques de oferta não se combatem com juros mais altos.
“Ao fazer essa separação, o Fed sinalizou que entende a natureza do problema e que não pretende reagir de forma automática a uma pressão inflacionária que está fora do seu controle”, diz Flores.
Outra mensagem escondida veio do placar da decisão de hoje: nove membros do Fomc votaram pela manutenção dos juros enquanto três deles defenderam o aumento da taxa neste encontro — o maior número de dissidentes apontando para uma mesma direção (neste caso, o aperto monetário) desde setembro de 2016.
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"Três membros votantes (Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan) preferiram subir os juros em 25 pontos-base, contra uma decisão unânime em junho. Essa dissidência tripla mostra que o apetite por aperto monetário está crescendo dentro do comitê”, acrescenta Flores.
O resultado líquido é um comunicado equilibrado: dovish (brando) no diagnóstico, hawkish (rígido) na composição do voto.
Os sinais mistos que rondam os juros
O relacionamento de Warsh e o mercado tem pouco mais de oito semanas. E, segundo os especialistas, o banco central norte-americano está diante de sinais mistos que favorecem a cautela.
De um lado, a inflação medida pelo índice de preços ao consumidor (CPI, em inglês) segue acima de 3% e as pesquisas de unidades regionais do Fed confirmam que os preços permanecem pressionados. A meta do Fed é de 2% para inflação, e Warsh disse hoje que vai entregar a taxa no alvo.
De outro, os breakevens de inflação de cinco e dez anos — indicadores que medem a expectativa dos investidores — estão estáveis e bem-comportados na faixa de 2,3%, sinalizando que o mercado não enxerga uma deterioração estrutural na trajetória de preços.
Além disso, sob a liderança de Warsh, o Fed está passando por mudanças internas que podem ter impacto positivo sobre a leitura inflacionária adiante: a revisão das fontes de dados, do framework de avaliação da inflação e da própria comunicação do banco central norte-americano são processos que devem ser finalizados até o final do ano.
“Subir juros no meio dessas reformas seria precipitado”, disse Flores.
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O que esperar para os próximos meses
Embora Warsh esteja lutando para controlar as expectativas do mercado em relação aos próximos passos do Fed, é inevitável que os investidores coloquem suas fichas na mesa sobre o que pode acontecer com os juros nos EUA daqui para frente.
O banco central norte-americano ainda tem mais três reuniões daqui até o final do ano: setembro, outubro e dezembro. E uma alta de juros não pode ser descartada, especialmente se o petróleo voltar a subir por conta da guerra no Irã ou se dados de inflação apresentarem surpresas negativas.
A ferramenta FedWatch, do CME Group, indicava 71,3% de probabilidade de elevação dos juros em setembro, ante 80,5% antes da decisão. A chance de manutenção era de 28,7%. Entre os que projetam aumento, 70,3% apontam alta de 25 pontos-base, para a faixa de 3,75% a 4,00%, e 1,6% veem avanço de 50 pontos-base.
“Hoje, o mercado precifica uma alta em setembro, mas a dinâmica inflacionária até lá será determinante para o próximo passo do Fed. Com a incerteza do conflito no Oriente Médio e o preço do petróleo rondando os US$100, podemos ver a inflação não ceder o suficiente, o que poderia levar mais membros do Fomc a votar por uma alta na próxima reunião”, disse André Valério, economista sênior do Inter.
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A reação dos mercados
Em Nova York, as bolsas despencaram por uma infinidade de razões hoje, mas principalmente porque o mercado de títulos sinalizou que o Fed poderia estar ficando para trás na luta contra a inflação, já que o banco central norte-americano optou por manter as taxas de juros inalteradas.
O Dow Jones perdeu 1.152 pontos, recuando 2,2%, na pior queda desde abril de 2025. O S&P 500 recuou 1,5%, enquanto o Nasdaq perdeu 1,7%.
O mercado de títulos nos EUA respondeu à manutenção dos juros com o yield (rendimento) do Treasury de 10 anos subindo para mais de 4,66%, enquanto os longos, de 30 anos, avançaram para mais de 5,2%, atingindo o nível mais alto desde 2007.
“Para os mercados, a manutenção evita um aperto monetário imediato, mas a divisão dentro do comitê não garantiu o otimismo. A reunião de setembro ganha ainda mais importância, com os investidores atentos aos próximos dados de inflação e emprego para avaliar se o alívio recente nos preços é sustentável”, disse José Aureo, economista e sócio da Blue3 Investimentos.
Por aqui, o Ibovespa recuou 1,52%, aos 173.885,34 pontos, depois de renovar mínimas intradiárias, enquanto o dólar à vista recuou 0,27%, a R$ 5,1084.
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