Milei prepara ‘supertranca’ contra a máquina de imprimir dinheiro na Argentina
A meta do presidente argentino é ambiciosa: rasgar a Carta Orgânica aprovada por Cristina Kirchner para desmantelar os velhos gatilhos que alimentam a espiral inflacionária no país

Se no cenário global as reformas nos bancos centrais vêm ganhando os holofotes — como a recente movimentação de Kevin Warsh nos EUA —, na América Latina o barulho vem de Buenos Aires. Javier Milei quer fechar de vez a porta, trancar e jogar a chave fora para a impressão sem controle de dinheiro na Argentina.
Para isso, ele prepara um pronunciamento em cadeia nacional na noite desta quinta-feira (30), às 20h (horário de Brasília), quando vai detalhar o projeto de lei de reforma da Carta Orgânica do Banco Central da República Argentina (BCRA).
O anúncio na TV abre alas para as reformas econômicas que a Casa Rosada quer acelerar no Congresso após o recesso de inverno. A previsão é que o texto chegue à Câmara dos Deputados já na próxima terça-feira.
A meta do governo de Milei é ambiciosa: rasgar a Carta Orgânica aprovada em 2012, sob o segundo mandato de Cristina Kirchner e a gestão de Mercedes Marcó del Pont na autoridade monetária, para desmantelar os velhos gatilhos que historicamente alimentam a espiral inflacionária na Argentina.
Os 4 pilares da reforma do BC da Argentina
A Carta Orgânica é a lei máxima que dita as regras do jogo para o Banco Centra da Argentina. Hoje, o BCRA funciona sob regras permissivas herdadas do kirchnerismo. O projeto de Milei quer mudar isso com quatro diretrizes centrais:
1. Proibição total de financiamento ao Tesouro
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A regra principal proíbe, por lei, que o Banco Central da Argentina emita dinheiro para cobrir o déficit fiscal do governo.
A proposta elimina ferramentas criadas ou expandidas na era Kirchner, como os adelantos transitorios e as letras intransferibles — títulos de dívida que o governo entregava ao BCRA sem valor real de mercado para sacar dinheiro e pagar dívidas, funcionando na prática como um cheque em branco estatal.
2. Mandato único: estabilidade de preços
Atualmente, o Banco Central da Argentina precisa perseguir múltiplos objetivos sociais e econômicos ao mesmo tempo. A nova legislação quer simplificar essa missão: a autoridade monetária terá um único foco, defender o poder de compra da moeda e baixar a inflação.
3. Independência
Se hoje o chefe do Executivo consegue demitir a cúpula do Banco Central sem grandes atritos políticos, o novo projeto promete erguer uma blindagem institucional.
A ideia é tornar o processo de remoção das autoridades do BCRA consideravelmente mais difícil, garantindo autonomia operacional à instituição.
4. Resgate do dólar "do colchão"
Com o fortalecimento da estabilidade monetária, a reforma também projeta mecanismos legais para incentivar que economias mantidas em moeda estrangeira fora do sistema financeiro formal — os famosos dólares guardados em casa ou no exterior — finalmente entrem na rede bancária argentina.
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O que o governo pretende com isso?
A jogada é chave para a segunda metade do mandato de Milei. Ao retirar do Estado a capacidade de emitir moeda para cobrir rombos orçamentários, o presidente argentino tenta selar um compromisso definitivo com o mercado e com a população: a inflação só vai desacelerar de forma sustentável se a máquina de imprimir dinheiro for aposentada por lei.
Se conseguir o aval dos deputados na semana que vem, Milei terá transformado a estrutura do Banco Central da Argentina em um cofre blindado, onde a disciplina fiscal deixa de ser uma escolha política e passa a ser uma obrigação legal.
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