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Mariana Pavão

ENERGIA INFINITA

Sol artificial já brilha no laboratório, mas possibilidade de geração de energia infinita ainda tem pela frente um obstáculo importante

Enquanto a China tenta reproduzir o sol na Terra, um estudo analisa até onde a promessa da fusão nuclear resiste fora do laboratório

Mariana Pavão
7 de fevereiro de 2026
13:38 - atualizado às 12:22
Cientistas buscam geração de energia infinita por meio de "sol artificial".
Cientistas buscam geração de energia infinita por meio de "sol artificial". - Imagem: gerada por IA.

E se a solução para a energia limpa estivesse à vista todos os dias? Inspirados no próprio céu, pesquisadores chineses decidiram tentar reproduzir, na Terra, o funcionamento do sol como caminho para uma fonte quase ilimitada de energia.

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O “sol artificial” chinês atende pelo nome de EAST, sigla para Experimental Advanced Superconducting Tokamak. Trata-se de um dos experimentos de fusão nuclear mais avançados do mundo, em operação desde 2006.

Em tese, a ciência envolvida é simples: combinar núcleos de hidrogênio para formar átomos de hélio, liberando grandes quantidades de energia no processo. É exatamente o que acontece no interior da nossa estrela.

Na prática, porém, colocar um sol artificial em funcionamento está longe de ser algo trivial.

Ao longo de duas décadas, o EAST acumulou investimentos estimados em mais de US$ 1,8 bilhão. E, apesar de avanços relevantes, a pergunta é menos científica e mais econômica: essa tecnologia pode escalar e competir no mundo real da geração de energia?

Um estudo publicado na revista Energy Policy analisou exatamente essa questão.

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Como funciona a fusão e por que ela é tão desafiadora

Quando se fala em energia nuclear, acidentes históricos como Chernobyl costumam vir à mente. A fusão nuclear, no entanto, opera sob uma lógica diferente da fissão tradicional, tecnologia associada aos principais riscos históricos da energia nuclear.

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Na fusão, não há risco de reação em cadeia descontrolada. Se algo falha, o processo simplesmente se interrompe sem que haja explosão ou liberação de material radioativo.

Em teoria, trata-se de uma fonte de energia limpa, segura e com resíduos de curta duração. Além disso, pode operar de forma contínua, ao contrário de outras fontes como solar, eólica e hidrelétrica, que dependem de condições climáticas.

O desafio é o caminho para chegar lá, um percurso marcado por alta complexidade técnica, custos elevados e prazos longos de desenvolvimento.

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Para que a fusão aconteça, é necessário atingir temperaturas superiores a 100 milhões de graus Celsius para forçar os núcleos a se fundirem.

Além disso, esse plasma superaquecido e extremamente instável precisa ser mantido confinado por campos magnéticos, sem tocar em nenhuma superfície física, por tempo suficiente para gerar mais energia do que consome.

O EAST já foi capaz de demonstrar que esse tipo de confinamento é tecnicamente possível.

Em 2025, o reator chinês bateu o recorde mundial ao sustentar o plasma por 1.066 segundos, além de superar o chamado limite de Greenwald, um marco teórico que indica maior densidade do plasma sem perda de estabilidade.

Ainda assim, há um ponto crucial que o experimento não ultrapassou: o limiar em que a fusão gera mais energia do que consome.

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Da física ao caixa: a conta que ainda não fecha

Como a fusão nuclear ainda não chegou à escala comercial, sua viabilidade econômica hoje só pode ser estimada por modelos.

Um estudo da Energy Policy, conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge, da Universidade de Wisconsin–Madison e do Politecnico di Milano, usou simulações para avaliar esse cenário.

E, para eles, a resposta é cautelosa: talvez sim — mas não nas condições atuais, e não tão cedo.

Para competir no mercado global de eletricidade, os autores estimam que a fusão precisaria atingir um custo entre US$ 80 e 100 por megawatt-hora (MWh), o mesmo patamar esperado para a nuclear por fissão bem executada.

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Nos modelos econômicos analisados pelo estudo, as usinas de fusão teriam um custo acima de US$ 150/MWh.

O desafio parece ainda maior quando se compara com outras fontes limpas já consolidadas, que operam em faixas significativamente inferiores:

  • US$ 20–40/MWh para solar fotovoltaica
  • US$ 25–50/MWh para eólica terrestre
  • US$ 40–90/MWh em projetos hidrelétricos

O alto custo não é apenas tecnológico. A fusão sofre com obstáculos econômico-operacionais, como manutenção custosa e ciclos térmicos pouco eficientes.

Seja como for, os pesquisadores não parecem pessimistas.

A conclusão do estudo é de que a fusão não deve ser vista como uma solução rápida ou uma aposta isolada, mas como um programa industrial de longo prazo, que exige padronização, escala e décadas de desenvolvimento coordenado entre setores público e privado.

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O apetite do mercado sugere disposição para esse horizonte. Projeções apontam que o segmento pode atrair aportes superiores a US$ 350 bilhões até 2050, sinalizando a confiança de investidores nessa nova fonte de energia firme, limpa e contínua.

Ainda assim, por enquanto, o “sol artificial” segue brilhando mais nos laboratórios do que nas planilhas de custo.

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