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As bolsas dos principais países da região acumulam ganhos de pelo menos 10% em janeiro, mas nem tudo que reluz é ouro e a agência de classificação de risco aponta prós e contras que podem determinar o futuro dos seus investimentos
Os mercados emergentes estão voando. Foi assim que um gestor definiu nesta semana a entrada de capital estrangeiro em países como o Brasil, a Colômbia e o Chile. A grande questão, segundo a Fitch Ratings, é que essa enxurrada de dólares esconde gargalos, especialmente na América Latina.
De fato, os números falam por si. Em janeiro, até aqui, a bolsa da Colômbia subiu 24% em dólar, enquanto a do Brasil avançou 15%, a do Chile, 14%, e a do México, 10%. Por sua vez, o S&P 500 — índice amplo de Nova York — ganhou apenas 1%.
Esse desempenho é, em boa parte, impulsionado pelas políticas de Donald Trump, que têm forçado investidores a buscar outros mercados para colocar seus recursos e alternativas ao dólar.
O problema é que nem tudo que reluz, é ouro. Países como Brasil, Colômbia e Peru têm eleições presidenciais e legislativas pela frente e lidam com desajustes fiscais importantes, que podem comprometer a estabilidade e o crescimento econômico.
De olho nesse cenário, a Fitch Rating fez uma lista de prós e contras dos principais mercados da América Latina, e o Seu Dinheiro destaca, a partir de agora, tudo o que você precisa saber para investir bem na região.
De maneira geral, para a Fitch, a resiliência macrofinanceira da América Latina à política dos EUA tem sido um contraste notável com o passado. No entanto, a agência chama atenção para o fato de a política norte-americana, especialmente no que diz respeito a tarifas e comércio, permanecer uma incerteza significativa para a região.
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“Esperamos que a América Latina saia de um crescimento de 2,2% em 2025 para 2,5% em 2026. Bolívia e México devem ser os países com o crescimento mais fraco. O Brasil deve ter uma expansão abaixo da média da região, enquanto o Chile está no grupo de países que devem crescer na casa de 3%”, disse Shelly Shetty, diretora-gerente da Fitch, durante webinar nesta quarta-feira (28).
Mais cedo, a agência de classificação de risco manteve uma perspectiva de crédito neutra para a América Latina em 2026, com os principais indicadores de desempenho dos ativos permanecendo em grande parte inalterados em relação a 2025.
A Fitch destaca que a resiliência do crédito na região será sustentada por condições econômicas suficientes para apoiar a maioria dos setores. Para os bancos, a perspectiva é que incorporem um crescimento moderado do crédito, capital sólido e liquidez abundante.
Já as instituições financeiras não bancárias têm liquidez relativamente bem gerenciadas, com a maioria das perspectivas “neutras”, refletindo juros mais baixos, que deveriam aliviar os custos de financiamento.
A Fitch destaca que a inflação moderada e juros mais baixos também devem beneficiar as seguradoras da região.
O caso que mais merece atenção é o México, cuja tarifa efetiva dos EUA subiu para 5,8% de praticamente zero.
Por conta disso, a agência atribuiu aos bancos, seguradoras, empresas de financiamento e leasing, e sub-setores de financiamento estruturado no México perspectivas de deterioração.
“O desafiador ambiente político e regulatório do México, a partir da revisão pendente do Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá (USMCA), aumentou os riscos e incertezas em vários setores”, diz a Fitch.
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Antes de mergulhar de cabeça nas bolsas latinas, é importante saber o que o investidor deve esperar em 2026. Com base na avaliação da Fitch, aqui estão os ventos favoráveis e os ventos contrários que devem soprar sobre os principais países da região.
A questão fiscal é o que deve ditar o ritmo da economia e dos mercados daqui para frente.
De acordo com Todd Martinez, co-chefe de ratings soberanos da Fitch Ratings para as Américas, para estabilizar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e superar o risco fiscal, o próximo governo brasileiro precisa fazer um ajuste fiscal muito mais agressivo do que o visto até agora.
“Não importa qual seja o resultado da eleição, provavelmente o ajuste fiscal terá que vir muito mais do lado das despesas, já que a capacidade política para um aumento adicional de receitas parece limitada”, disse Martinez durante o webinar.
A Fitch considera que um candidato de direita possa ser mais ambicioso em termos de contenção de gastos, mas enfatiza que não vê a situação como binária.
Martinez relembra que o governo Luiz Inácio Lula da Silva levou medidas de corte de gastos para o Congresso em 2024. “Então vemos que, não importa qual seja o resultado da eleição, haverá esforços para melhorar a situação fiscal.”
Neste sentido, ele afirma que o resultado da eleição pode determinar a estratégia e a comunicação, que devem importar muito para os investidores.
“Se o governo adotar uma abordagem improvisada para a consolidação fiscal e assumir um crescimento irrealista, isso vai manter as taxas de juros reais altas. Mas se houver uma estratégia boa, pode obter um benefício real imediato com a redução das taxas de juros reais e nominais”, afirma.
A boa notícia no México é que houve uma consolidação fiscal inicial em 2025 e a má notícia é que não está totalmente claro se o país conseguirá mantê-la, segundo Martinez.
O especialista da Fitch pondera que os juros do México estão menores, porém a produção de petróleo em declínio está começando a pesar sobre as receitas e há uma pressão maior por gastos.
Martinez afirma que o governo mexicano indicou no Orçamento de 2026 que quer aumentar os investimentos, em vez de diminuí-los, o que pode ser um ponto de pressão adicional.
“Não vemos isso como um risco iminente para o rating, mas é algo que nos mantêm atentos”, disse.
As eleições de meio de mandato foram determinantes para a Argentina, de acordo com a Fitch.
Apesar da derrota nas eleições da província de Buenos Aires em setembro, escândalos de corrupção e uma crise econômica que exigiu a ajuda de Trump, o presidente da Argentina, Javier Milei, foi considerado o grande vitorioso das eleições legislativas de outubro do ano passado.
Mas nem tudo são flores para os hermanos. “Ainda há muita pressão sobre as reservas do banco central argentino e sobre os juros, o que mostra que, apesar da melhora do quadro fiscal da Argentina, o país ainda tem muitas fragilidades”, disse Martinez.
Ele reconhece que o governo Milei tem feito um bom trabalho com relação ao câmbio e às reservas.
A política de reserva de Milei para este ano foca na reconstrução de reservas internacionais e flexibilização gradual do câmbio. Desde 1º de janeiro, as bandas cambiais se ajustam mensalmente pela inflação, e o Banco Central visa acumular US$ 10 bilhões em reservas.
“Estão fazendo um bom trabalho na compra de reservas. Se continuarem a acumularem reservas é um bom gatilho porque significa que a Argentina vai conseguir voltar a ter bom acesso ao mercado e vai renegociar dívidas em condições melhores”, afirma Martinez.
A Fitch rebaixou o rating da Colômbia de BB+ para BB em dezembro do ano passado e não vê melhoras significativas para o país no curto prazo.
“A Colômbia sofre com elevado déficit fiscal há pelo menos cinco anos e entendemos que as medidas para corrigir esse buraco não estão sendo implementadas. O governo até adotou algumas medidas por decreto, mas esperamos mais um ano de déficit em 2026”, disse Richard Francis, co-chefe de ratings soberanos da Fitch Ratings para as Américas, durante o webinar desta quarta-feira (28).
Segundo ele, o ambiente na Colômbia vem se deteriorando cada vez mais. “As expectativas de inflação aumentaram muito, o que deve levar o banco central a subir juros. Isso tende a pesar sobre a demanda doméstica e, por consequência, no crescimento econômico”, afirma.
Nem mesmo as eleições podem ajudar a mudar o quadro por agora. “Não achamos que um novo governo conseguirá implementar medidas na velocidade adequada para lidar com essas questões”.
A boa notícia é que, segundo Francis, a Colômbia é o mais que mais deve se beneficiar de uma possível abertura de mercado na Venezuela, após a invasão dos EUA.
“A Colômbia era o país que mais exportava para a Venezuela antes de toda a questão das sanções, se esse comércio for retomado, está em posição para ser o país mais beneficiado”, acrescentou.
Para a Fitch, a questão política é o maior desafio do país. Ainda assim, a previsão é de que a economia peruana cresça na casa dos 3% em 2026, em linha do que foi em 2025.
“O problema do Peru é que tivemos sete presidentes em oito anos, o que mostra como o sistema político do país é instável. É um sistema fraco, fragmentado, que prioriza indivíduos e não partidos”, disse Francis.
Segundo a Fitch, a América Latina também entra em 2026 de olho em riscos políticos relevantes, com eleições no Brasil, na Colômbia e no Peru.
Segundo o gerente de portfólio da Fitch, Greg Magnuson, no Brasil a taxa de juros permanece em patamar elevado, o que continua a desestimular investimentos produtivos e pressiona a geração de caixa das empresas.
Apesar de margens ainda resilientes em termos agregados, o fluxo de caixa livre segue negativo em parte relevante do portfólio corporativo, especialmente no Brasil e na Colômbia.
Outro ponto de atenção destacado pela agência é o risco no setor de utilities, que concentra cerca de 45% do portfólio avaliado na região.
No Brasil e na Colômbia, há preocupação com episódios de curtailment (cortes forçados na geração de energia) e incertezas sobre os mecanismos de compensação.
No caso colombiano, somam-se dúvidas regulatórias que podem afetar a previsibilidade de receitas, aumentando a vulnerabilidade do setor em um ambiente já pressionado por juros altos e inflação persistente.
O ambiente político também adiciona volatilidade. Embora o Peru tenha apresentado maior estabilidade econômica e institucional nos últimos anos, Brasil e Colômbia seguem mais expostos a mudanças de política econômica e fiscal, o que pode impactar o custo de capital e o apetite dos investidores.
A agência ainda chama atenção para o fato de as questões de governança corporativa terem ganhado um peso adicional após casos recentes envolvendo empresas como Ambipar e Braskem, além do episódio relacionado ao Banco Master.
Segundo a Fitch, cerca de 20% do portfólio analisado inclui companhias com posições de liquidez insuficientes para cobrir mais de 10% das dívidas de curto prazo, com maior concentração de risco entre emissores de escala nacional.
A agência avalia que esse contexto, somado às eleições e às incertezas regulatórias, pode trazer volatilidade adicional aos mercados financeiros e de capitais, afetando tanto o custo de financiamento quanto a confiança dos investidores ao longo de 2026.
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