Vai viajar para a Argentina? Saiba o que esperar do dólar e do peso daqui para frente
O BTG Pactual faz uma análise do comportamento do câmbio daqui até o final do ano, e diz o que quem quer tomar um bom vinho ou comer empanadas precisa fazer para não perder dinheiro na viagem ao país vizinho

O dólar deve ficar relativamente comportado nas próximas semanas na Argentina — boa notícia para quem planeja cruzar a fronteira em breve. Mas quem pensa visitar nossos hermanos no segundo semestre precisa ficar de olho: a moeda deve ganhar força e encarecer a viagem, segundo relatório do BTG Pactual divulgado nesta semana.
Para os analistas Andres Borenstein e Sofia Ordonez, “o dólar deve permanecer relativamente quieto nas próximas semanas”.
A expectativa é de que a moeda norte-americana suba, mas de forma moderada — “no máximo abaixo ou na linha da inflação”.
O motivo é que a Argentina está em uma situação rara: tanto a conta corrente quanto a conta financeira estão superavitárias, o que permite ao banco central acumular reservas com pouca volatilidade no câmbio.
Em abril, o saldo da conta corrente foi positivo em US$ 1,33 bilhão — o melhor resultado desde setembro do ano passado.
Esse colchão de dólares vem de dois motores principais: as exportações agrícolas e de energia, que têm batido recordes, e o fluxo de empréstimos em dólar no sistema financeiro local.
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“Não há razão para acreditar que esse fluxo vai parar, dada a alta liquidez no mercado local de dólares”, diz a dupla de analistas.
O segundo semestre muda o jogo na Argentina
A viagem de férias no fim do ano pode sair mais cara. O BTG projeta que “no segundo semestre, o dólar vai retomar algum dinamismo” — e o banco central deverá reduzir o ritmo de compras de moeda estrangeira.
Pelos cálculos do banco, se o dólar fechar o ano em 1.700 pesos argentinos, isso representaria uma alta de 2,7% ao mês nos próximos sete meses. Se fechar em 1.650, a alta mensal seria de 2,27%.
Em ambos os cenários, a valorização supera a inflação projetada para o período — ou seja, o peso argentino perde poder de compra para quem carrega reais ou dólares.
A inflação e o papel do Banco Central
O banco central argentino tem sido peça-chave nesse equilíbrio. A instituição comprou US$ 2,63 bilhões só em maio — praticamente o mesmo valor de abril —, e o relatório estima que vai atingir a meta informal de US$ 10 bilhões em reservas ainda esta semana. Para o ano inteiro, a projeção é de US$ 14,8 bilhões em compras líquidas.
Esse acúmulo de reservas é possível porque as exportações estão fortes. A safra agrícola atual tem volume recorde e preços melhores do que no ano passado — embora, curiosamente, esteja trazendo menos dólares do que em várias safras anteriores, já que os produtores estão atrasando a conversão de divisas.
Já o setor de energia aparece como “outro fator indicando que o fluxo de dólares vai permanecer generoso”.
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O risco das eleições na Argentina
Os analistas, no entanto, fazem um alerta importante para o segundo semestre: as eleições na Argentina, marcadas para 2027.
“Quanto mais cedo o ruído eleitoral começar, mais arriscada fica nossa premissa”, afirma a dupla, referindo-se à expectativa de que os argentinos mantenham suas poupanças em pesos para aproveitar as altas taxas de juros reais.
A chamada dolarização — o hábito do argentino de correr para o dólar em momentos de incerteza — é apontada como uma das principais variáveis imprevisíveis para o câmbio.
“Há um fluxo permanente de pessoas que vão poupar parte de sua renda em dólares. Isso significa que, mesmo no melhor cenário, precisamos assumir dolarização, pois ela faz parte do DNA argentino”, afirmam os analistas.
Em abril, por exemplo, os argentinos compraram US$ 2,36 bilhões em moeda estrangeira. Desse total, US$ 600 milhões foram usados para pagar faturas de cartão de crédito no exterior e US$ 1,2 bilhão ficou depositado em bancos argentinos — o que acaba, na prática, realimentando o próprio sistema financeiro local.
O carry trade no limite
Para quem acompanha o mercado financeiro argentino, os analistas do BTG trazem um recado direto: a estratégia de carry trade — tomar dólares emprestados para aplicar em pesos a juros altos — “pode ter um pouco mais de fôlego, mas está operando no limite do tempo”.
Com títulos de curto prazo indexados à inflação todos com juros negativos, o espaço para ganhos está se estreitando, segundo a dupla.
O que esperar na prática
Para o viajante brasileiro, o cenário de curto prazo é relativamente favorável: câmbio estável, inflação ainda sob controle e um banco central ativo comprando dólares. Mas planejar uma viagem para outubro ou novembro exige cautela.
O segundo semestre combina pressão cambial, incerteza eleitoral e uma tendência de dólar mais forte — o que pode encarecer a experiência portenha de forma relevante.
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