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ENERGIA DEMAIS?

Curtailment muda o jogo: Engie Brasil (EGIE3) reduz investimentos em renováveis e prevê consolidação do setor

Cortes na geração de energia pelo ONS afetam planos e impulsionam concentração no mercado de renováveis, segundo diretor da companhia; confira a entrevista completa com Guilherme Ferrari

energia renovável
No Brasil, a Engie atua em geração, comercialização e transmissão de energia elétrica, transporte de gás natural e soluções energéticas - Imagem: iStock/Alexandros Michailidis

Os cortes forçados na geração de energia pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) — o chamado curtailment — vêm se firmando como um dos maiores obstáculos à expansão das fontes renováveis no Brasil. Para a Engie Brasil (EGIE3), o efeito não é apenas frear novos projetos, mas também acelerar um movimento de consolidação no setor.

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Segundo Guilherme Ferrari, diretor de energia renovável da companhia, uma sobreoferta estrutural de energia, somada ao avanço veloz da geração distribuída e a incentivos regulatórios desalinhados, corroem a previsibilidade do mercado.

O resultado é um cenário em que boas ideias ficam engavetadas e projetos deixam de sair do papel no curto e médio prazo.

“O setor de renováveis vive hoje desafios estruturais como nunca antes. O curtailment passou a frustrar planos de negócios, comprometer manutenção de ativos e inibir completamente novos investimentos”, disse o executivo em entrevista ao Money Times.

Ferrari explica que o excesso de oferta atual é resultado de um ciclo de investimentos massivos em renováveis centralizadas entre 2021 e 2024.

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Nesse período, o governo já sinalizava que as fontes renováveis não convencionais (como energia solar e eólica) haviam atingido maturidade suficiente para dispensar o subsídio de 50% nas tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição (Tust/Tusd).

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A perspectiva de encerramento gradual do benefício levou empreendedores a anteciparem projetos para garantir o enquadramento nas regras vigentes, o que acabou provocando uma expansão rápida da oferta, sem crescimento proporcional da demanda.

Ao mesmo tempo, a explosão da geração distribuída — principalmente os painéis solares em casas ou empresas — agravou o desequilíbrio. Ela amplia a sobreoferta nos horários diurnos e intensifica os cortes impostos aos geradores centralizados, como hidrelétricas.

“O sinal econômico foi equivocado. Os incentivos ajudaram no curto prazo, mas se mostraram perversos no longo prazo. Muitos projetos foram implantados sem que o risco de sobreoferta tivesse sido corretamente precificado”, afirmou Ferrari.

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A Engie Brasil tem uma exposição relativamente menor às renováveis não convencionais quando comparada a outros grandes players do setor.

A companhia soma cerca de 10,5 GW de capacidade instalada, dos quais aproximadamente 70% a 75% vêm de hidrelétricas, enquanto a geração eólica responde por cerca de 15% e a solar, por cerca de 10%.

Ainda assim, a empresa afirma que uma parcela relevante da capacidade eólica e solar deixa de ser plenamente utilizada em momentos de sobreoferta, especialmente durante o dia, o que pressiona resultados.

Engie reduz investimentos em renováveis

Diante desse cenário, a companhia adotou uma postura mais conservadora quanto à alocação de capital. No último mês, obteve a revogação de outorga de quatro projetos solares no Rio Grande do Norte, após concluir que os empreendimentos não seriam economicamente viáveis dentro do horizonte esperado.

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“A gente pediu a revogação porque, caso contrário, começaríamos a entrar em descumprimento com a autorização”, explicou Ferrari.

No atual contexto do setor elétrico, a Engie afirma não enxergar condições econômicas para a retomada de novos projetos greenfield em renováveis no curto e médio prazo. “Não existe projeto que se sustente considerando cortes recorrentes de geração nesse patamar”, afirmou o diretor.

A empresa avalia que a energia eólica tende a recuperar espaço antes da solar, por apresentar um perfil de geração menos concentrado nos horários de maior sobreoferta. Ainda assim, não há sinais claros de retomada dos investimentos no horizonte imediato.

Ferrari acrescenta que a deterioração do ambiente também pode abrir espaço para um movimento de consolidação no setor, sobretudo entre empresas altamente expostas a fontes renováveis não convencionais.

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“Players 100% renováveis estão integralmente expostos ao curtailment. Em algum momento, isso pode afetar a capacidade de honrar financiamentos, o que tende a estimular processos de M&A”, disse.

Apesar disso, o executivo pondera que o ambiente ainda é complexo para aquisições. “Há um desalinhamento relevante entre a expectativa de curtailment dos vendedores e a visão mais conservadora dos compradores, o que dificulta a formação de preços”, explicou o diretor.

Com um portfólio majoritariamente hidrelétrico, a Engie avalia estar em uma posição “menos pior” frente ao cenário atual.

Para o crescimento futuro, a empresa tem priorizado alternativas com maior previsibilidade, como leilões de capacidade — com destaque para a possível expansão da UHE Jaguara, no interior de São Paulo —, aquisições seletivas e novos vetores regulados, como projetos de armazenamento por baterias, cuja licitação é esperada ainda este ano.

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Quanto às renováveis, a Engie afirma que a retomada dos investimentos depende de medidas estruturais, com mais previsibilidade regulatória e reequilíbrio do sistema. A companhia defende, principalmente, a revisão dos incentivos à geração distribuída.

“O curtailment virou um fator estrutural e hoje é um dos principais desestímulos a novos investimentos em renováveis”, defendeu Ferrari.

*Com informações do Money Times

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