EUA, Europa e China: BTG passa um pente fino no mapa global e diz o que esperar dos juros, do dólar e da inflação a partir de agora
Guerra no Oriente Médio segue ditando ritmo da economia mundial; confira as projeções atualizadas dos analistas para o exterior

O conflito no Oriente Médio, as restrições prolongadas no Estreito de Ormuz e a disparada dos preços do petróleo seguem redesenhando as perspectivas para a atividade global. Essa é a conclusão do BTG Pactual, que atualizou suas projeções macroeconômicas.
Em relatório mensal de cenário macro divulgado na terça-feira (9), o banco destacou que o choque energético passou a ocupar papel central nas discussões sobre inflação, crescimento e política monetária nas maiores economias globais.
Segundo o banco, o ambiente atual tornou mais complexo o balanço de riscos para os bancos centrais, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, enquanto a China continua enfrentando desafios ligados à fraqueza da demanda doméstica.
Petróleo e conflito no Oriente Médio elevam preocupações com inflação
Maio foi marcado por forte volatilidade nos mercados em meio à continuidade da guerra no Irã e às restrições severas no Estreito de Ormuz, que já duram quatro meses.
Para o BTG Pactual, as limitações à navegação em uma das principais rotas globais de transporte de petróleo mantêm elevado o prêmio de risco no mercado de energia e ampliam as preocupações com impactos inflacionários por meio dos combustíveis e dos custos de frete.
Com o barril de petróleo próximo de US$ 100, os investidores passaram a incorporar um cenário mais restritivo para as taxas de juros nas principais economias desenvolvidas.
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Inflação persistente reacende debate sobre juros nos EUA
Nos Estados Unidos, o banco destaca que os dados de abril reforçaram a complexidade do cenário econômico.
O índice de preços para gastos pessoais (PCE, a métrica preferida do Federal Reserve para acompanhar a inflação) acelerou para 3,8% na comparação anual, o maior nível desde maio de 2023, enquanto o núcleo da inflação avançou para 3,3%.
Apesar disso, a alta mensal do núcleo ficou em 0,24%, abaixo das expectativas, indicando alguma moderação, especialmente no setor de serviços.
Ainda assim, o BTG Pactual avalia que a composição da inflação continua desconfortável para o banco central dos Estados Unidos.
“A composição permanece pouco confortável para o Fed, com inflação consistentemente acima da meta e riscos adicionais vindos de novos aumentos em bens, em meio à alta nos preços dos fretes”, afirma o relatório.
O mercado de trabalho também continua resiliente. As contratações seguem em ritmo robusto e os indicadores apontam para um possível ponto de inflexão na atividade, indo além da simples estabilização observada anteriormente.
Por outro lado, os salários permanecem compatíveis com a meta de inflação — de 2% no longo prazo —, sugerindo que a melhora do emprego ainda não está gerando pressões adicionais sobre os preços.
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Tecnologia segue impulsionando crescimento dos EUA
O investimento em tecnologia continua sendo um dos principais motores da economia dos Estados Unidos.
No primeiro trimestre de 2026, o segmento contribuiu com 1,6 ponto percentual para o crescimento econômico do país, compensando parte da fraqueza observada no consumo, afetado pelo inverno rigoroso e pela perda de renda real causada pela alta dos combustíveis.
Segundo o BTG, o crescimento do país continua sustentado também pela resiliência do consumo, apoiada pela valorização dos mercados acionários e pelos reembolsos tributários recebidos pelas famílias.
O resultado é uma combinação de inflação persistente, mercado de trabalho aquecido e choque de oferta em andamento.
“Nesse sentido, a economia norte-americana combina inflação persistente, mercado de trabalho acelerando e um choque de oferta ainda em curso. Esse arranjo torna o balanço de riscos mais desafiador para o Fed”, o banco.
Apesar disso, o cenário-base do BTG continua prevendo manutenção da taxa de juros ao longo de 2026. Ainda assim, a instituição reconhece que aumentou a probabilidade de uma discussão sobre novos apertos monetários.
O mercado já voltou a atribuir alguma chance de alta de juros nos Estados Unidos ainda em 2026.
BCE deve voltar a subir juros
Na Europa, o impacto do choque energético tem sido mais visível nos preços do que na atividade econômica.
Embora o crescimento siga demonstrando resiliência moderada, a inflação continua sensível à trajetória do petróleo.
Com o barril negociado acima do cenário utilizado pelo Banco Central Europeu (BCE) em março, o BTG acredita que a instituição deverá retomar o ciclo de aperto monetário. A expectativa do banco é de um aumento de 0,25 ponto percentual nos juros na reunião de junho.
“O cenário adverso se aproxima do central, reforçando a probabilidade de alta nas próximas reuniões e mantendo a comunicação inclinada para riscos altistas para a inflação”, afirma o relatório.
Atualmente, o mercado precifica cerca de 0,60 ponto percentual adicionais de aperto monetário na zona do euro.
China enfrenta desaceleração doméstica
Enquanto Estados Unidos e Europa lidam com pressões inflacionárias, a China segue enfrentando uma dinâmica diferente.
Após um primeiro trimestre mais forte, os dados de abril perderam força. O BTG atribui o movimento ao choque de energia, às inundações no sudeste do país e à acomodação após o desempenho mais robusto observado anteriormente.
O banco descreve a economia chinesa como uma economia de “duas velocidades”, com exportações e setores ligados à tecnologia apresentando desempenho superior aos segmentos mais dependentes do consumo doméstico.
Embora a inflação tenha acelerado na margem, impulsionada pelos custos de energia e produção, a demanda enfraquecida continua limitando os repasses para os consumidores.
Por isso, o BTG avalia que os impactos do choque energético tendem a ocorrer de forma indireta, principalmente por meio da demanda externa.
Brasil aparece entre os emergentes mais protegidos
Na avaliação do BTG Pactual, o Brasil também se destaca entre os mercados emergentes diante do atual choque provocado pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã.
Segundo o relatório, o país é o único entre os grandes emergentes analisados a apresentar saldo líquido positivo quando considerados conjuntamente os fluxos relacionados a energia e fertilizantes.
O banco destaca ainda que o Brasil possui o maior colchão absoluto em dólares da amostra analisada, equivalente a US$ 16 bilhões.
Com esse pano de fundo, o BTG manteve sua projeção para o dólar em R$ 4,90 no fim de 2026.
A estimativa considera a melhora das contas externas impulsionada pelo petróleo, a posição relativamente favorável do Brasil entre os emergentes e o diferencial de juros ainda elevado.
O banco ressalta, contudo, que o cenário depende de um compromisso crível com a estabilização fiscal após as eleições e continua sujeito aos riscos decorrentes de um ambiente internacional mais adverso.
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