Dólar a R$ 4,40, ou dívida acima de 80% do PIB: o alerta de Stuhlberger para 2026
Dólar, juros e eleição entram no radar do gestor do lendário fundo Verde para proteger a carteira

Mesmo sem defender uma saída do Brasil, Luis Stuhlberger já está se protegendo como se o pior estivesse no horizonte. Pessimista com o cenário para 2026, o gestor do lendário fundo Verde afirma que os fundamentos da economia brasileira estão “insanos” — e que o modelo atual de crescimento é sustentado por uma fórmula de endividamento que não se sustenta no tempo.
“Eu não mudaria minha alocação para sair correndo do Brasil, porque o país tem um potencial imenso que, com um governo melhor, pode fazer os preços dos ativos se multiplicarem. Não vale a pena ir embora”, disse o gestor, durante evento anual de investimentos do UBS BB.
Mas a frase do CEO da Verde Asset, que tem R$ 16 bilhões sob gestão, vem acompanhada de um alerta: também não vale se animar demais.
Na avaliação do gestor, apesar da resiliência recente — desemprego em baixa, inflação sob controle e economia em expansão —, os números fiscais contam uma história bem diferente.
Stuhlberger resume o cenário com uma visão estruturalmente negativa para o ambiente macroeconômico doméstico. “Eu tendo a ser mais pessimista porque esse modelo vai se esgotar. O mercado pode se animar com anúncios pontuais, mas o problema fiscal real vai surgir mais adiante”, projetou.
Hoje, o Brasil arrecada cerca de 37,8% do PIB e gasta algo próximo a 38,5%. “Isso é um negócio insano para um país emergente e pobre. Não existe paralelo na economia mundial em que um PIB per capita de 12 mil dólares gaste isso”, afirmou.
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Para Stuhlberger, esse desequilíbrio indica que o modelo político adotado pelo governo Lula é sustentado por uma trajetória inviável de endividamento, que pode levar a dívida pública para além de 80% do PIB ao fim do mandato.
Mesmo assim, recentemente, o fundo multimercado da gestora zerou sua posição em criptoativos e começou o ano apostando mais em real e ações brasileiras.
O hedge como proteção financeira de Stuhlberger
Em meio às incertezas eleitorais, o gestor revelou parte das estratégias que vem usando para proteger a carteira. Segundo ele, montar hedges contra o cenário brasileiro não é apenas uma decisão financeira, mas também uma forma de lidar com a frustração política.
Um hedge é uma forma de seguro do patrimônio, que consiste em apostar contra a atual exposição. Caso o cenário mude drasticamente, uma parte do patrimônio está protegida.
“Mesmo que eu perca 20% nos outros ativos, se eu ganho 1% com o hedge, eu fico feliz porque ganhei algo com a vitória do Lula”, disse. “Acredito que a eleição será decidida no 50/50 até o final. Por isso, é importante manter opções de proteção”, afirmou.
Para Stuhlberger, há opções de proteção baratas hoje no mercado. Uma das proteções preferidas do gestor no momento é o dólar para janeiro de 2028, especialmente como seguro em um cenário de restrição à saída de capital.
Juros longos distorcidos, câmbio fora do lugar e bolsa dependente de fluxo
Para o gestor, alguns dos fundamentos da economia estão descalibrados. “O câmbio está extremamente fora do lugar. O valor justo está muito distante da cotação atual, e o juro longo também está estressado”, avaliou.
Para ele, o valor justo (fair price) do dólar estaria próximo de R$ 4,40. “Toda vez que alguém de direita ganha a eleição, o dólar vai para o fair price.”
No mercado de juros, Stuhlberger criticou a estratégia do Tesouro Nacional. “Quando o juro longo fica muito estressado, o Tesouro costuma reduzir emissões longas e concentrar no curto. Mas essa gestão não fez isso: continua emitindo longo sem levar em conta essa distorção”, afirmou.
Já na bolsa, ele vê um desempenho desigual. “O mercado performou bem em dois momentos: primeiro com utilities; depois com commodities e bancos. O estrangeiro parece acreditar que um eventual quarto governo Lula não será pior que o atual.”
Segundo ele, há hoje um fluxo global “gigantesco”: investidores estrangeiros mantêm cerca de US$ 36 trilhões nos Estados Unidos. Se uma fração disso migrar para mercados pequenos como o Brasil, o impacto é relevante.
A visão do CEO da Verde Asset sobre a economia brasileira
Na avaliação de Stuhlberger, a expansão fiscal ajuda a explicar a surpreendente resiliência da economia. Os gastos públicos crescem, em média, 5% ao ano em termos reais, e o impulso fiscal e de crédito em 2024 deve alcançar R$ 180 bilhões, segundo suas contas.
Dos 215 milhões de habitantes do Brasil, cerca de 112 milhões recebem algum pagamento do governo mensalmente, destacou o gestor. “Isso mantém o desemprego baixo, mas a dúvida é o que acontece quando houver necessidade de ajuste fiscal”, disse.
Para ele, o país vive hoje um paradoxo. “As empresas crescem, os setores de consumo estão aquecidos, mas tudo é mantido por uma fórmula inviável de endividamento. O que acontece quando esse modelo parar e o governo precisar fazer um ajuste fiscal?”
O fantasma da dominância fiscal
Para Bruno Coutinho, CEO da Mar Asset, que também participou do painel no evento, o Brasil vive uma característica estrutural: o Estado é o protagonista da economia.
Diferentemente de economias desenvolvidas, onde a política monetária dita o ritmo, no Brasil o motor é o fiscal — e o Banco Central acaba atuando como um “passageiro”, reagindo à política de gastos.
“O risco hoje é a dominância fiscal, quando o BC não consegue subir juros para conter a inflação porque isso inviabilizaria a dívida pública”, afirmou.
Segundo ele, o cenário global ainda ajuda a mascarar o problema — mas o fantasma tende a reaparecer à medida que as eleições se aproximarem.
CENÁRIO ELEITORAL
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