Não é hora de pânico: BofA corta Brasil da lista de bolsas para comprar, mas vê valor em ações selecionadas; confira as eleitas
Banco norte-americano prefere dois outros países da América Latina, mas diz onde estão escondidas as chances entre as ações brasileiras

O Bank of America virou a mão para o Brasil, e rebaixou a recomendação para as ações brasileiras de overweight — equivalente a comprar — para marketweight — equivalente a neutro.
Na prática, significa que os estrategistas do BofA deixaram de enxergar o País como uma aposta preferencial na América Latina — e passaram a olhar com mais carinho para Chile e Colômbia.
Basicamente três coisas mudaram na visão do banco sobre o Brasil: os juros vão ficar mais altos do que se esperava, os lucros das empresas estão sendo revisados para baixo, e o calendário eleitoral começa a incomodar.
O problema dos juros no Brasil
Desde janeiro de 2026, o BofA estava com recomendação de compra para o Brasil. A aposta era que o Banco Central continuaria cortando a Selic, o que costuma ser gasolina para a bolsa: juros menores barateiam o crédito, estimulam o consumo e tornam as ações mais atraentes em comparação com a renda fixa.
Esse cenário mudou. A equipe de economia do banco agora projeta a Selic em 14,25% ao final de 2026 — ante a projeção anterior de 13,25%. Isso significa apenas mais um corte na reunião da próxima semana, seguido de uma pausa prolongada.
Para o investidor pessoa física, a lógica é direta: Selic mais alta por mais tempo significa que a renda fixa continua competitiva. Por que se arriscar na bolsa se o Tesouro Direto paga bem? E para as empresas, especialmente as mais endividadas, juros elevados por mais tempo comprimem margens e pesam no caixa.
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A pressão inflacionária segue como pano de fundo: o BofA aponta que os riscos de inflação continuam inclinados para cima, em parte por conta da fraqueza do real e com o aumento da volatilidade ligada às eleições deste ano.
O Brasil ainda tem oportunidades — mas seletivas
Rebaixar não é o mesmo que abandonar. O BofA continua vendo valor em empresas específicas dentro do Brasil, especialmente aquelas preparadas para um ambiente de crédito mais difícil.
Nos bancos, a preferência recai sobre nomes como Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e BTG Pactual (BPAC11) — instituições financeiras com balanços sólidos ou que se beneficiam de uma Selic elevada para ampliar receitas.
No setor elétrico, o banco trocou a Copel (CPLE3) pela Equatorial (EQTL3), que oferece, segundo os analistas, valuation atraente e flexibilidade de alocação de capital.
Por outro lado, três empresas saíram da carteira recomendada: Sabesp (SBSP3), por não apresentar gatilhos de curto prazo; a Ecorodovias (ECOR3) e a Anima Educação (ANIM3), ambas mais vulneráveis em um cenário de juros altos por tempo prolongado.
O raciocínio é simples: empresas alavancadas que dependem de queda de juros para melhorar seus números perdem a graça quando o corte é adiado, segundo o BofA.
Por que Chile e Colômbia entram no lugar?
Enquanto o Brasil perde um pouco do brilho, o BofA aumenta a exposição a dois países andinos.
Na Colômbia, o banco adicionou o Davivienda à carteira. O argumento: o banco colombiano negocia a um preço descontado em relação aos pares da região, mas está melhorando a rentabilidade. Em outras palavras, é barato com fundamento para ficar menos barato.
No Chile, duas adições. O BCI, banco com margens resilientes e ganhos de eficiência, e a Coca-Cola Andina, engarrafadora chilena com forte momento de lucros.
O cenário macro do Chile também ajuda: o time do BofA espera crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) chileno acima do potencial, impulsionado por reformas em curso.
A Colômbia segue como overweight (compra) na visão do banco — um dos poucos países da região nessa categoria — justamente pela valuation atrativo em comparação com os vizinhos.
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México: cuidado redobrado
O México permanece em marketweight (neutro), mas o tom ficou mais cauteloso.
O BofA vê três obstáculos: crescimento do PIB mais fraco, risco crescente de que o acordo comercial norte-americano (USMCA) passe a ter revisões anuais — o banco estima 70% de probabilidade para esse cenário — e incerteza política crescente.
O lucro das empresas listadas na bolsa mexicana também perdeu força, de acordo com a análise.
O contexto regional: queda desde abril
O pano de fundo para tudo isso é um recuo expressivo dos mercados latino-americanos. O índice MSCI LatAm acumula queda de 14% desde a máxima de 14 de abril.
O gatilho foi um dado forte de empregos nos EUA, que reacendeu o debate sobre os juros norte-americanos: se o Federal Reserve (Fed, o banco central do país) precisa manter a taxa elevada por mais tempo, o dólar sobe, os emergentes sofrem e o capital migra de volta para os Estados Unidos.
Para o investidor brasileiro, é importante saber que o vento que soprava a favor do Ibovespa no começo do ano arrefeceu.
Não é hora de pânico — o BofA ainda vê valor em empresas selecionadas —, mas também não é hora de apostar todas as fichas no mercado local na expectativa de um ciclo de cortes que, por ora, foi adiado.
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