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Relatório da Moody’s alerta que a dependência do país asiático como comprador de commodities e fornecedor de manufaturados cria dois riscos ao mesmo tempo — e o Brasil está entre os mais vulneráveis da América Latina

O Brasil exporta minério de ferro para a China. Com o dinheiro, importa aço chinês a preços que a indústria nacional não consegue competir. Parece absurdo, mas é exatamente isso que está acontecendo — e a Moody’s Ratings transformou esse paradoxo no símbolo de um risco muito maior que ronda toda a América Latina.
A agência de classificação de risco mapeou nesta semana como a dependência da China — tanto como destino das exportações quanto como origem das importações — criou o que chama de “riscos duplos”.
O Brasil, classificado como Ba1 estável pela Moody’s, aparece entre os países mais exposto do continente.
Primeiro, os números para entender a dimensão do que está em jogo. O comércio entre China e América Latina superou US$ 500 bilhões em 2025, mais que o dobro dos cerca de US$ 200 bilhões registrados em 2010.
A China é hoje o principal parceiro comercial do Brasil, do Chile e do Peru — e o segundo maior da região como um todo, atrás apenas dos EUA.
Só o Brasil movimentou US$ 100 bilhões em exportações para a China e US$ 75,9 bilhões em importações, segundo os dados mais recentes do relatório. Não é uma relação pequena. É uma dependência estrutural.
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Nem tudo é risco. A Moody’s reconhece ganhos reais para o Brasil em algumas frentes.
Soja e agronegócio é uma delas. As tensões comerciais entre EUA e China abriram espaço para o Brasil. Com Pequim reduzindo compras de soja norte-americana e buscando fornecedores alternativos, as exportações brasileiras do grão bateram recordes em 2025. O agronegócio colheu um dividendo geopolítico direto.
Celulose e madeira também aparecem entre os vencedores, com a melhor nota no índice de vulnerabilidade da Moody’s para o Brasil — o de menor risco e maior potencial exportador.
O país responde por cerca de 30% das exportações globais de celulose, com competitividade crescente ao longo do tempo. Os segmentos de celulose e papel ainda se beneficiam de isenções tarifárias concedidas recentemente pelos EUA, o que reforça o colchão de proteção.
Energia e minerais também aparecem na lista dos beneficiados na relação comercial com a China. Entre 2015 e 2025, o Brasil absorveu US$ 48 bilhões em investimento estrangeiro direto (IED) chinês — o maior volume da região.
Grande parte disso foi para transmissão elétrica, energia hidrelétrica e petróleo offshore. Mais recentemente, o capital chinês migrou para energia solar, eólica e minerais críticos para a transição energética. Para o país, isso significa recursos, empregos e infraestrutura em setores estratégicos.
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O Brasil é apontado pela Moody’s como uma das duas economias mais vulneráveis da América Latina — ao lado da Argentina —, com 50% a 60% dos setores industriais apresentando níveis elevados de vulnerabilidade.
O caso mais emblemático é o setor de aço e metais. O Brasil exporta minério de ferro bruto para a China e reimporta, crescentemente, produtos siderúrgicos acabados a preços que os produtores domésticos têm dificuldade de competir.
O valor agregado fica do lado de lá. O risco de deslocamento — termo técnico para a ameaça de a produção doméstica ser substituída por importações — é classificado como muito elevado.
No mesmo front, automóveis e veículos elétricos também sentem o peso da parceria com a China. As importações brasileiras de veículos elétricos chineses cresceram 18 vezes em 2023.
Os fabricantes instalados no Brasil, sejam nacionais ou multinacionais, enfrentam uma concorrência de preço e tecnologia que pressiona margens e participação de mercado.
Máquinas e equipamentos elétricos também figuram entre os setores de risco muito elevado. O valor agregado chinês incorporado nas exportações brasileiras desses segmentos mais que dobrou entre 2010 e 2022: no caso de veículos, saltou de 1,5% para 5,8%; em equipamentos elétricos e ópticos, de 3% para 8,1%.
O Brasil está cada vez mais dependente de insumos intermediários chineses para produzir e exportar — o que aumenta a vulnerabilidade a choques de preço e à substituição.
No caso de têxteis e vestuário, há um alto risco de deslocamento, embora o impacto econômico seja limitado por se tratar de setores pequenos no Produto Interno Bruto (PIB). Ainda assim, são intensivos em mão de obra, o que significa consequências sociais relevantes no caso de desindustrialização.
Por trás dos setores específicos, a Moody’s aponta um movimento estrutural preocupante: o Brasil — e a América Latina como um todo — está se deslocando para segmentos de menor valor agregado na cadeia produtiva.
O exemplo do cobre chileno ilustra bem, mas tem paralelo direto com o Brasil. À medida que a China amplia sua própria capacidade de processar e refinar matérias-primas, ela importa cada vez mais o produto bruto e menos o produto refinado.
Para o Brasil, isso significa que a pauta de exportações para a China — já concentrada em commodities como minério de ferro, soja e petróleo bruto — tende a ficar ainda mais presa em bens de baixo valor agregado.
Cerca de 80% do que o Brasil e os demais países da região vendem para a China são matérias-primas ou produtos agrícolas. As cinco principais categorias de exportação de cada país respondem por mais de 90% do total vendido ao mercado chinês. Isso é concentração extrema — e concentração é sinônimo de fragilidade quando a demanda do comprador muda.
E ela está mudando. A China está desacelerando a construção civil, o que reduz a necessidade de minério de ferro e aço. O modelo de crescimento chinês está migrando da infraestrutura tradicional para manufatura de alta tecnologia, o que implica menos demanda pelas commodities tradicionais que o Brasil vende.
Há ainda um alerta específico e recente. O acordo comercial fechado entre Donald Trump e Xi Jinping em maio de 2026 inclui disposições para compras de soja americana.
Se a China voltar a priorizar os EUA como fornecedor do grão, o Brasil perde justamente o benefício que havia capturado com as tensões comerciais dos últimos anos. O que foi ganho pelo conflito pode ser perdido pelo acordo.
A Moody’s também aponta que as defesas comerciais dos países latino-americanos contra a concorrência chinesa são “fragmentadas e reativas”.
E há um motivo estrutural para isso: os países da região dependem da China como compradora de suas commodities, o que limita a disposição de adotar medidas mais duras contra os produtos manufaturados chineses.
É uma armadilha: proteger a indústria doméstica pode irritar o principal comprador da sua principal exportação. O Brasil vive esse dilema de forma aguda.
Para quem acompanha o mercado brasileiro, a Moody’s traz um mapa de risco útil. Setores expostos à concorrência direta com manufaturados chineses — aço, veículos, eletroeletrônicos, máquinas — tendem a conviver com pressão persistente de margens e participação de mercado.
Já celulose, papel e agronegócio aparecem como os bolsões de maior resiliência no perfil exportador brasileiro.
O risco maior, porém, é o estrutural e de longo prazo: um Brasil que exporta cada vez mais commodities brutas e importa cada vez mais produtos industrializados é um país que transfere empregos, tecnologia e valor agregado para fora — e fica mais vulnerável a cada ciclo de demanda chinesa que vira.
Na análise da Moody’s, a China é, ao mesmo tempo, o maior cliente e um dos maiores competidores do Brasil.
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