Armageddon da IA: é o fim das empresas de software como serviço (SaaS) ou a maior promoção de ações do setor da década?
O medo de que a inteligência artificial torne o software tradicional obsoleto provocou uma liquidação generalizada no setor de SaaS; bancos veem exagero e apontam onde estão as chances de bons retornos

O temor de que a inteligência artificial (IA) substitua o software tradicional por agentes autônomos provocou, na última semana, a maior queda em 30 anos de empresas do setor de Software as a Service (SaaS), ou software como serviço.
A debandada vaporizou cerca de US$ 2 trilhões em valor de mercado — e sobrou até para empresas brasileiras como a Totvs (TOTS3), que viu suas ações despencaram quase 20% nas mínimas da sessão.
Mas, entre as cinzas desse Armageddon, há empresas de qualidade que podem gerar bons retornos, segundo BTG Pactual, JP Morgan e Morgan Stanley.
Para os bancos, o mercado está reagindo de forma indiscriminada, criando o que pode ser um dos melhores pontos de entrada dos últimos anos no segmento.
O Armageddon da IA na bolsa
O termo SaaS Armageddon ou SaaSpocalypse não é apenas força de expressão.
Na semana passada, o mercado de tecnologia viveu um dos seus capítulos mais dramáticos, e o vilão foi a expansão do Claude Cowork, um agente de IA projetado não apenas para conversar, mas para executar tarefas de forma autônoma.
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Diferente de um chatbot comum, o produto da Anthropic agora permite que empresas utilizem plugins especializados para automatizar fluxos de trabalho inteiros que antes exigiam softwares caros e horas de trabalho humano.
O que mais assustou o mercado foi o lançamento de 11 “starters” focados em:
- Setor jurídico: automação de revisão de contratos, triagem de acordos de confidencialidade (NDAs) e verificações de conformidade.
- Finanças e dados: análise de relatórios financeiros e cruzamento de bases de dados.
- Vendas e marketing: automação de prospecção e gestão de campanhas.
A lógica do mercado por trás do lançamento foi a seguinte: se o Claude pode pilotar o computador, ler arquivos, organizar pastas e preencher relatórios sozinho, por que uma empresa continuaria pagando por licenças mensais para softwares como Salesforce, ServiceNow ou ferramentas jurídicas especializadas?
A reação dos investidores foi imediata e atingiu principalmente empresas cujos modelos de negócios dependem do número de usuários ou de tarefas que a IA agora faz em segundos.
Ações de Thomson Reuters (-18%), RELX (-14,4%) e Wolters Kluwer (-13%) estiveram entre as maiores quedas em um único dia. Nomes mais conhecidos como Accenture (-9,6%) e Microsoft (-3%) também não escaparam da venda em massa.
No Brasil, Totvs (-13%), LWSA (-8,52%) e Bemobi (-6,69%) também foram dragadas pelo movimento do mercado internacional.
IA versus software, pânico versus fundamento
O setor de software viu seu peso no S&P 500 desabar de 12% para 8,4% com essa venda massiva, que começou no último dia 4 de fevereiro.
Segundo o JP Morgan, o sentimento dos investidores atingiu níveis profundamente pessimistas, com a exposição líquida a softwares caindo para o percentil 1 desde 2018. Enquanto isso, o interesse em semicondutores saltou para o percentil 100.
Para o BTG Pactual, essa punição é cega. “O mercado está tratando o setor de software como um bloco monolítico, falhando em distinguir entre empresas cujos modelos de negócios são vulneráveis à IA e aquelas que estão utilizando a tecnologia para fortalecer seu valor”, disseram os analistas Osni Carfi, Carlos Serqueira, Victor Neder e Bruno Ferreira.
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5 razões para não temer o apocalipse provocado pela IA
Segundo o JP Morgan, o risco percebido pelo mercado provocou vendas tanto em nomes de software de qualidade quanto de crescimento especulativo. O banco lista motivos claros para o investidor não fugir agora:
1. Cenários extremos são improváveis
O software corporativo está profundamente enraizado nas empresas. No curto prazo, a IA deve ser aditiva aos fluxos de trabalho, não um substituto.
2. Avaliações mínimas
Os preços caíram para perto das mínimas históricas em comparação com o chamado Dia da Libertação, quando Donald Trump anunciou um tarifaço global.
3. Fundamentos sólidos
Wall Street espera crescimento superior a 16% em vendas e lucros para o setor de software, projeções que estão entre as mais fortes do S&P 500.
4. Resultados surpreendentes
Gigantes como Microsoft e ServiceNow superaram as expectativas de lucros, mas viram as ações despencarem mesmo assim — um sinal de desconexão entre preço e valor.
5. Indicador contrário
O posicionamento baixista extremo e o aumento das apostas contra o setor (short selling) costumam preceder grandes ralis quando o sentimento vira.
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Onde estão as oportunidades?
Para os bancos, o SaaS Armageddon é mais um evento de sentimento do que de fundamentos deteriorados.
O BTG defende que softwares que resolvem problemas complexos e possuem dados proprietários têm um "fosso" de proteção.
Zeta Global (Z1TA34) e Braze (BRZE) são os destaques do banco. Segundo os analistas, essas empresas oferecem oportunidade por terem “expertise de domínio que a IA generativa tende a complementar, em vez de substituir”.
O JP Morgan, por sua vez, sugere que a movimentação recente permite obter exposição seletiva a nomes mais resilientes.
O banco sugere Microsoft (MSFT34) e ServiceNow (N1OW34) que, mesmo com a queda recente das ações, tiveram resultados operacionais fortes, sugerindo que a punição do mercado foi excessiva diante da execução apresentada.
Já a equipe do Morgan Stanley liderada por Michel Wilson diz que as expectativas de crescimento de receitas das maiores ações de tecnologia atingiram “máximas de várias décadas”, enquanto as avaliações diminuíram após a recente volatilidade do mercado, com o sell-off do setor.
Ao mesmo tempo, as perdas acentuadas das ações de software abriram “pontos de entrada atraentes” em nomes como Microsoft e Intuit (INTU34).
“Os ventos favoráveis fundamentais continuam a existir para o complexo de facilitadores de IA, e o comércio de adotantes de IA continua subestimado em nossa opinião”, disse o time do Morgan Stanley.
E a Totvs?
O recuo recente das ações da Totvs não abalou a convicção do Itaú BBA com a tese da empresa. Os papéis derreteram 12,89% no dia do Armageddon, na maior queda desde a pandemia.
O banco, que tem recomendação outperform — equivalente à compra — para a empresa, sustenta que os fundamentos da Totvs não mudaram, enquanto a derrocada do papel reflete, sobretudo, a mudança no humor global com empresas de software e a realocação de fluxo internacional.
Em outras palavras, a pressão vendedora se deve mais ao contexto externo do que a problemas específicos da Totvs.
Desde o início de 2025, a Totvs acumula alta de cerca de 44%, mesmo com o tombo da semana passada. O BBA compara com concorrentes como a alemã SAP e a norte-americana Salesforce, que recuaram 30% e 40%, respectivamente, no período.
Mas o banco alerta: como a ação é negociada com prêmio em relação aos pares internacionais, é possível que a Totvs enfrente mais volatilidade se o mercado continuar a olhar para a narrativa da IA como um obstáculo.
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