Por que o Pão de Açúcar está ‘na berlinda’? Qual é a real situação da empresa hoje e o que deu errado nos últimos anos
Com um caminhão de dívidas vencendo em 2025, o Pão de Açúcar (PCAR3) tenta alongar compromissos enquanto cortar custos. Mercado se pergunta se isso será o bastante

O Pão de Açúcar (PCAR3) parece estar incorporando o ditado “devo não nego, pago quando puder”, mas nesse caso a grande dúvida do mercado é: quando a empresa vai poder? Com R$ 1,7 bilhão em dívidas batendo à porta neste ano, a varejista encerrou o ano passado com capital circulante negativo de R$ 1,2 bilhão.
Em bom português: o Pão de Açúcar tem mais dívidas vencendo no curto prazo do que caixa para quitá-las — o que motivou a Deloite a levantar dúvidas sobre a capacidade da rede de se manter de pé.
A maior parte disso está concentrada em debêntures emitidas. Em maio, vencem R$ 511 milhões referentes à 18° emissão, primeira séria, enquanto em julho o compromisso é ainda maior: de R$ 889 milhões, da 20° emissão, segunda série.
Ou seja, daqueles 1,7 bilhão de dívidas que vencem em 2025, R$ 1,4 bilhão precisam ser pagos nos próximos cinco meses.
O restante é composto principalmente pela parcela da 20ª emissão, terceira série, cujo saldo atualizado gira em torno de R$ 254 milhões e tem vencimento dividido entre novembro de 2026 e novembro de 2027.
Além disso, há ainda um empréstimo com saldo de aproximadamente R$ 508 milhões, parte do qual também entra no curto prazo e contribui para pressionar o caixa ao longo de 2026. Todas essas informações estão no demonstrativo financeiro da companhia.
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Dívidas maiores do que valor na bolsa
Para mais do que os vencimentos de curto prazo, a companhia tem um endividamento total de R$ 4 bilhões e está valendo menos da metade disso na bolsa: R$ 1,5 bilhão, segundo dados do TradeMap.
O balanço também mostra cerca de R$ 16 bilhões não provisionados em disputas tributárias e discussões administrativas classificadas como perdas possíveis — valores que não estão reconhecidos como passivo, mas que representam risco potencial relevante.
Além de R$ 1 bilhão provisionado para contingências fiscais destacados como perda provável.
Ao mesmo tempo, a varejista até teria créditos fiscais: cerca de R$ 1,7 bilhão em ativos fiscais diferidos e aproximadamente R$ 1,8 bilhão em créditos de PIS/Cofins. Mas a realização desses valores depende da geração futura de lucro tributável.
Em um cenário de histórico recente de prejuízos, esses créditos viram mais uma variável de incerteza na equação financeira.
O que o Pão de Açúcar está fazendo para resolver?
Segundo o CEO recém-empossado Alexandre Santoro, a companhia está negociando o alongamento das dívidas. Em teleconferência com os investidores ontem (25), o executivo afirmou que as conversas com credores estão avançando e que essa situação já não era segredo para ninguém.
A negociação envolve apresentar aos credores e parceiros o plano de eficiência da companhia e a quantificação do que as novas medidas significarão para o resultado de 2026.
O plano prevê uma redução de pelo menos R$ 415 milhões na base de custos e despesas operacionais (SG&A), com as primeiras capturas já a partir do primeiro trimestre de 2026.
Além da reestruturação financeira, a gestão está revisando, reduzindo ou até cancelando contratos de prestação de serviços, tecnologia e consultorias, com o objetivo de torná-los mais aderentes à atual realidade do negócio.
Outra frente considerada crítica é a redução drástica do capex (investimentos). Para 2026, o orçamento ficará entre R$ 300 milhões e R$ 350 milhões — quase metade do valor investido no ano anterior. A estratégia inclui a suspensão total de expansões e projetos de inovação, priorizando a manutenção das lojas e a experiência do cliente.
Santoro também destacou o esforço para rentabilizar cerca de 20% a 25% das lojas que operam abaixo do potencial. A companhia pretende renegociar aluguéis considerados desproporcionais e ajustar o sortimento antes de avaliar o fechamento das unidades como último recurso.
Vai ser o sufuciente?
Na visão de gestores com quem o Seu Dinheiro conversou para esta matéria, não será o suficiente se for só isso. Por isso, o mercado já aventa a necessidade de aporte de capital por parte dos Coelho Diniz, os acionistas majoritários da companhia hoje.
Isso geralmente acontece por meio de aumento de capital, o que pode ocasionar uma forte diluição na base acionária da companhia.
No entanto, o mercado se pergunta se a família que chegou ano passado ao controle da varejista teria vontade de fazer esse movimento, levando em consideração os R$ 17 bilhões em contingências tributárias. A grande pergunta é se vale a pena colocar dinheiro nessa situação.
Para o Safra, os R$ 786 milhões consumidos das reservas financeiras ao longo do ano, sem considerar os R$ 93 milhões provenientes de aumento de capital e venda de ativos, evidenciam uma estrutura de capital ainda desequilibrada. “Essa continua sendo nossa principal preocupação em relação ao caso”, afirmou em relatório.
Como o Pão de Açúcar chegou até aqui?
O declínio do Pão de Açúcar pode ser explicado por uma combinação de fatores macro e microeconômicos. Do lado estrutural, o comportamento do consumidor mudou. A consolidação dos atacarejos, com preços mais baixos e operação enxuta, atraiu parte relevante do público em busca de economia.
Ao mesmo tempo, o segmento premium passou a ser ocupado por redes especializadas e mais eficientes, como hortifrutis e supermercados focados em maior qualidade, deixando o GPA espremido em um meio-termo difícil de sustentar.
Internamente, segundo gestores, a companhia demorou a reagir a essa mudança de hábito. A estratégia não se ajustou com a velocidade necessária, o desempenho operacional piorou e o endividamento aumentou.
O contexto societário agravou o quadro. Após dividir o controle com Abilio Diniz, o grupo francês Casino assumiu o comando total do GPA em 2012.
Nos anos seguintes, porém, o Casino passou a enfrentar dificuldades financeiras na Europa, acumulando cerca de 7 bilhões de euros em dívida, pressionado por concorrência acirrada e uma estratégia agressiva de aquisições.
Cabe lembrar que, em seu auge, o GPA detinha controle sobre uma série de marcas relevantes no varejo brasileiro. Entre elas, destacam-se Pão de Açúcar, Extra, Assaí, Minuto Pão de Açúcar, Drogaria Extra e a participação na Via Varejo, que reunia Casas Bahia e Ponto Frio.
Com a pressão dos credores lá fora, o Casino teve que começar a vender os negócios que compunham o GPA.
“E o Pão de Açúcar era só mais um e o pior de todos. Ninguém queria comprá-lo, então os negócios foram sendo separados e vendidos. O controlador foi deixando tudo que é ruim e que não queriam comprar nele. Então o Pão de Açúcar acabou virando o ‘saco de maldade’ do embelezamento dessas outras empresas que foram sendo separadas”, destaca um gestor com quem o Seu Dinheiro conversou.
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