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Para a corretora, o mercado está subestimando a capacidade da fintech de expandir crédito sem perder rentabilidade, embora a tese continue cercada de riscos

Desde que desembarcou na Nasdaq, no fim de janeiro, o PicPay (PICS) ainda não conseguiu conquistar a confiança dos investidores. As ações da fintech acumulam queda superior a 40%, a inadimplência virou motivo de preocupação recorrente e, após o balanço do 1T26, o mercado voltou a questionar se a companhia conseguirá transformar sua rápida expansão no crédito em crescimento rentável.
Mas é justamente nesse cenário de desconfiança que a XP Investimentos enxerga uma oportunidade no PicPay.
A corretora iniciou a cobertura das ações com recomendação de compra e preço-alvo de US$ 18 para o fim de 2026, o que implica potencial de valorização próximo de 64% em relação aos níveis atuais.
Na avaliação dos analistas, o mercado está excessivamente focado nos riscos da operação de crédito e deixando em segundo plano um dos principais ativos da companhia: sua base de mais de 44 milhões de usuários ativos.
"A tese oferece um perfil de alto risco e alto retorno, em que o risco parece excessivamente descontado e uma execução bem-sucedida na expansão do crédito pode destravar uma reprecificação significativa", escreveu a XP.
Para entender a tese da XP, é preciso voltar algumas semanas. No início do mês, o PicPay protagonizou uma das reações mais negativas entre empresas brasileiras listadas em Wall Street após divulgar os resultados do primeiro trimestre. Em apenas um pregão, as ações despencaram cerca de 17%.
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No período, a fintech reportou lucro líquido de R$ 169 milhões, praticamente o dobro do registrado um ano antes.
O problema estava em outro indicador observado de perto pelo mercado: a inadimplência.
O índice NPL 90+, que mede operações com atraso superior a 90 dias, avançou para 8,9%, uma alta de 1,69 ponto percentual em relação ao trimestre anterior.
O movimento reacendeu dúvidas sobre a velocidade da expansão do crédito e sobre a capacidade da companhia de preservar retornos à medida que aumenta sua exposição a empréstimos.
Na ocasião, diversas casas de análise adotaram uma postura mais cautelosa. O BTG Pactual, por exemplo, avaliou que seria difícil observar uma reprecificação relevante das ações no curto prazo até que houvesse maior visibilidade sobre a estabilização da inadimplência.
A XP argumenta que o mercado tem analisado o PicPay como mais um banco digital tentando ganhar escala em crédito.
No entanto, na visão da corretora, essa leitura ignora o principal diferencial competitivo da companhia: o ecossistema construído em torno de sua carteira digital.
Hoje, o PicPay conta com aproximadamente 44 milhões de usuários ativos, que utilizam a plataforma para pagamentos, transferências, Pix, boletos e diversos outros serviços financeiros.
Para a XP, essa base não representa apenas volume de clientes, mas uma fonte relevante de dados.
"A vantagem central do PicPay reside em sua carteira digital escalada e altamente engajada, que funciona como o principal motor de distribuição e dados do negócio", afirmam os analistas.
Segundo os analistas, a lógica é que cada interação dentro do aplicativo ajuda a companhia a conhecer melhor seus usuários, aprimorando modelos de análise de risco e aumentando a capacidade de ofertar crédito de forma mais eficiente.
Quanto maior o engajamento dentro da plataforma, maior tende a ser a quantidade de informações disponíveis para precificação de risco, concessão de crédito e monetização da base. É justamente esse ciclo que sustenta a visão mais positiva da XP.
Um dos pontos centrais da divergência entre a XP e parte do mercado está na interpretação dos indicadores recentes de crédito.
Enquanto investidores enxergam o aumento da inadimplência como um sinal de alerta, a corretora avalia que parte dessa deterioração era esperada diante do estágio atual da operação.
Segundo os analistas, carteiras jovens e em rápida expansão costumam atravessar períodos de normalização até que os modelos de concessão amadureçam.
Isso, no entanto, não significa que o tema esteja fora do radar. A XP reconhece que a qualidade dos ativos continuará sendo uma das variáveis mais importantes para a tese.
"Vemos a qualidade dos ativos como um dos pilares principais a serem monitorados, mas acreditamos que o mercado subestima a capacidade de escalar o crédito de forma lucrativa", afirmam os analistas.
Para mitigar riscos, o PicPay vem adotando uma estratégia gradual de concessão, baseada em limites iniciais mais baixos e expansão progressiva conforme o comportamento do cliente.
Além disso, a empresa tem ampliado a participação de modalidades consideradas mais seguras, como o crédito consignado privado.
A comparação com o Nubank surge em meio à discussão sobre fintechs brasileiras listadas no exterior.
Para a XP, o PicPay é hoje uma "versão de beta mais alto do Nubank" — com mais assimetria, mas também maior risco de execução. Ou seja, o papel deve subir mais que o do "roxinho" em ciclos de alta, mas também chacoalhará com muito mais violência nas baixas.
Contudo, os analistas acreditam que os investidores estão atribuindo avaliações muito diferentes a modelos de negócio que compartilham algumas características importantes.
Segundo os cálculos da corretora, o Nubank negocia atualmente a cerca de 15 vezes o lucro projetado para 2026. Já o PicPay é negociado próximo de 7,4 vezes.
Um dos fatores para essa diferença, na visão da XP, é que o Nubank possui histórico mais longo de execução, maior previsibilidade de resultados e uma trajetória mais consolidada na expansão do crédito.
Já o PicPay ainda precisa provar que consegue replicar esse desempenho em escala.
Por outro lado, os analistas argumentam que esse desconto pode abrir espaço para uma reprecificação relevante caso a companhia entregue o que promete.
"O PicPay é uma história de maior crescimento e maior risco, oferecendo upside significativo caso seu modelo orientado por dados se traduza em retornos sustentáveis ajustados ao risco, mas com maior incerteza", diz o relatório.
Parte dessa expectativa está ligada à expansão da carteira de crédito. A XP projeta que o saldo de operações avance dos atuais R$ 24 bilhões para aproximadamente R$ 64 bilhões até 2028.
Se esse crescimento vier acompanhado de controle da inadimplência e rentabilidade consistente, a corretora acredita que o mercado poderá reduzir parte do desconto atualmente aplicado às ações.
Apesar da recomendação de compra, a XP deixa claro que a tese está longe de ser livre de riscos.
Para a corretora, o principal desafio continua sendo a execução da estratégia de crédito. "O crescimento rápido expõe o modelo a erros de subscrição, especialmente dado o histórico ainda curto da operação", alertam os analistas.
Além disso, existe um componente regulatório importante. Segundo os analistas, as principais alavancas de monetização do PicPay, especialmente produtos como financiamento via Pix, enfrentam escrutínio regulatório e competitivo.
“Qualquer apertamento pode comprimir spreads ou limitar a escalabilidade de produtos de alta margem”, avaliam.
Entra na conta ainda a sensibilidade do PicPay ao ambiente macroeconômico. Com cerca de 85% dos clientes concentrados em segmentos de menor renda, a carteira está mais exposta à volatilidade de renda, alto endividamento e ciclos econômicos.
Para a XP, um ambiente macro mais fraco pode elevar a inadimplência, pressionar retornos ajustados ao risco e desacelerar o crescimento do crédito da fintech.
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