Vale (VALE3) sente o peso da guerra e real mais forte: lucro líquido cai 35% no 2T26, mas mineradora libera R$ 8,64 bilhões em proventos
A Ebitda da mineradora deu um salto de 9% entre abril e junho em base anual, mas parte desse desempenho foi neutralizada por aumento de custos — mas não foi apenas isso que puxou o lucro para baixo; confira os detalhes

Mesmo depois de a Vale (VALE3) registrar a maior produção para um segundo trimestre desde 2018, um temor persistia no mercado antes da divulgação do balanço: que a disparada do petróleo, com a guerra no Oriente Médio, elevasse os custos a ponto de consumir parte dos ganhos proporcionados pelo forte desempenho operacional da mineradora.
Nesta quinta-feira (30), com a divulgação dos resultados, esse receio se confirmou.
A mineradora teve lucro líquido atribuível aos acionistas de US$ 1,375 bilhão, queda de 35% em relação ao mesmo período do ano passado e de 27% em relação ao trimestre imediatamente anterior. A cifra veio abaixo das projeções compiladas pela Bloomberg, que apontavam para US$ 1,95 bilhão.
Segundo a companhia, essa linha do balanço foi pressionada principalmente pelo pior desempenho financeiro — com perdas na marcação a mercado de derivativos —, pelo aumento da carga tributária e pelo reconhecimento de uma provisão em despesas não recorrentes.
O impacto do aumento dos custos
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado avançou 9% na base anual, para US$ 3,6 bilhões. Em relação aos três primeiros meses do ano, o número diminui 4%. A expectativa de mercado era de US$ 3,83 bilhões, de acordo com o consenso Bloomberg.
Essa é justamente a linha que o mercado acompanhava com mais atenção para saber o impacto do aumento dos custos de produção.
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O salto de 9% do Ebitda foi sustentado principalmente pelos preços mais altos do minério de ferro, do cobre e das pelotas, além do aumento dos volumes vendidos.
No entanto, o número poderia ter sido até maior, não fosse pela elevação dos custos, pressionados pela valorização do real frente ao dólar e pela alta do bunker — combustível que abastece os navios de carga —, que encareceu o frete marítimo, além do avanço dos preços de outros insumos e combustíveis.
O custo caixa C1 (que é o custo da mina ao porto) foi de US$ 24,1 por tonelada, alta de 9% no ano a ano, refletindo principalmente a apreciação do real, enquanto os custos all-in alcançaram US$ 61,6 por tonelada, avanço de 18% em relação ao mesmo período do ano passado, pressionados adicionalmente pelo aumento dos custos de frete.
Petróleo mais caro faz Vale revisar guidance
Diante desse cenário, a Vale revisou para cima sua projeção de custos para 2026. O guidance para o custo caixa C1 do minério de ferro passou de US$ 20,00 - US$ 21,50 por tonelada para US$ 22,50 – US$ 23,50 por tonelada, enquanto a estimativa para o custo all-in foi elevada de US$ 52– US$ 56 por tonelada para US$ 58– US$ 62 por tonelada.
A companhia informou que as novas projeções consideram um câmbio médio de R$ 5,13 por dólar e um preço médio do Brent de US$ 86 por barril ao longo do ano.
Ao mesmo tempo, a Vale melhorou as perspectivas para o negócio de metais básicos, considerada uma das grandes avenidas de crescimento para a empresa.
Nos últimos trimestres, os metais básicos vêm ganhando peso crescente na estratégia da companhia. O avanço consistente do cobre e do níquel reforça a tentativa da mineradora de reduzir sua dependência do minério de ferro e ampliar a exposição a minerais considerados essenciais para a transição energética.
A projeção de produção de cobre foi elevada de 350 mil–380 mil toneladas para 360 mil–380 mil toneladas em 2026, enquanto a de níquel passou de 175 mil–200 mil toneladas para 185 mil–200 mil toneladas. As demais estimativas operacionais permaneceram inalteradas.
A divisão de matais básicos segue brilhando
A divisão de metais básicos voltou a ser um dos destaques da Vale neste balanço do segundo trimestre de 2026. O Ebitda ajustado do segmento cresceu 79% na comparação anual, para US$ 1,289 bilhão, impulsionado principalmente pelo cobre, cujo resultado operacional saltou 91% no ano, para US$ 1,026 bilhão.
A companhia também se beneficiou da alta dos preços realizados — o cobre foi vendido por US$ 14.062 por tonelada, 57% acima do registrado um ano antes, enquanto o níquel avançou 14%, para US$ 18.061 por tonelada.
Mais detalhes do balanço
A receita líquida foi de US$ 10,5 bilhões, avanço de 19% no ano e de 13% em relação aos trimestre anterior, em linha com as expectativas. O fluxo de caixa livre foi de US$ 1,505 bilhão, 85% acima do trimestre anterior, favorecido pelo maior Ebitda e pela menor saída de caixa com tributos.
A Vale encerrou o primeiro trimestre de 2026 com uma dívida líquida de US$ 13,173 bilhões, alta de 8% em relação ao mesmo período de 2025. Na comparação trimestral, houve queda de 3%.
Já a dívida líquida expandida — que considera que considera as provisões relacionadas aos desastres de Brumadinho e Samarco, além dos efeitos de swaps cambiais — encerrou o trimestre em US$ 16,7 bilhões, queda de 4% na comparação anual e de 6% em relação ao primeiro trimestre de 2026.
Segundo a Vale, o recuo trimestral refletiu principalmente a forte geração de fluxo de caixa livre. Além disso, as provisões para Brumadinho diminuíram 9% na comparação trimestral e 17% em relação ao mesmo período de 2025, para US$ 1,7 bilhão, enquanto as provisões para Samarco recuaram 22% na base trimestral e 36% na anual, para US$ 2 bilhões.
Os custos e despesas totais, excluindo Brumadinho e descaracterização de barragens, somaram US$ 7,969 bilhões, avanço de 20% ante igual período de 2025.
As despesas relacionadas a Brumadinho e à descaracterização de barragens somaram US$ 101 milhões, avanço de 166% frente ao mesmo trimestre de 2025.
Dividendos e JCP
A mineradora também anunciou a distribuição de R$ 8,64 bilhões em proventos aos acionistas, sendo R$ 6,68 bilhões na forma de juros sobre capital próprio (JCP) e R$ 1,97 bilhão em dividendos. O pagamento será realizado em 2 de setembro, correspondendo a um valor bruto de R$ 2,030721898 por ação, dos quais R$ 1,568705805 serão pagos como JCP e R$ 0,462016093 como dividendos.
Terão direito aos proventos os investidores com ações da Vale na carteira ao fim do pregão de 11 de agosto, na B3. Para os detentores de ADRs negociados na Bolsa de Nova York (NYSE), a data de corte será 13 de agosto. A partir de 12 de agosto, as ações da mineradora passarão a ser negociadas ex-direitos na B3, enquanto as ADRs ficarão ex-dividendos na NYSE a partir de 13 de agosto.
Portanto, você tem duas opções: comprar as ações da mineradora agora para receber os proventos, ou deixar a data de corte passar e adquirir os papéis a um valor menor, mas sem o direito aos dividendos e JCP.
Programa de recompra de ações
Além disso, o conselho de administração da Vale aprovou um novo programa de recompra de até 100 milhões de ações ordinárias ou ADRs, equivalente a cerca de 2,3% do capital da companhia. O programa terá duração de 18 meses e só entrará em vigor após o encerramento do plano atual, previsto para 18 de agosto deste ano.
A mineradora informou que as ações recompradas poderão ter dois destinos: até 21,8 milhões de papéis poderão permanecer em tesouraria para serem utilizados em programas de remuneração de longo prazo destinados a executivos, enquanto o restante será cancelado, reduzindo o número de ações em circulação e aumentando proporcionalmente a participação dos acionistas remanescentes.
Segundo a companhia, o programa busca aproveitar o atual nível de negociação das ações para fazer uma alocação de capital considerada eficiente, potencializando o retorno aos acionistas.
A Vale afirma ainda que a recompra sinaliza confiança da administração nas perspectivas da empresa e oferece maior flexibilidade financeira, especialmente por meio do uso de derivativos como o Equity Swap, que amplia a exposição econômica às ações sem exigir desembolso imediato de caixa. Em 30 de junho, a mineradora possuía 4,26 bilhões de ações em circulação e 183,4 milhões de ações em tesouraria.
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