Lucro da Ambev (ABEV3) supera expectativa no 2T26, mas ação chega a cair 3%. Por que o resultado não convenceu?
Após a divulgação dos resultados, a empresa também anunciou pagamento de R$ 1,1 bilhão em juros sobre o capital próprio

Nem mesmo o lucro líquido de R$ 3,47 bilhões da Ambev (ABEV3) no segundo trimestre de 2026 foi o suficiente para animar os investidores. Apesar do resultado divulgado nesta manhã (30) representar um avanço de 24,5% no ano e superar as expectativas do mercado, as ações da empresa iniciaram o dia com queda de mais de 3%, chegando a liderar as perdas do Ibovespa.
Por volta de 13h30 (horário de Brasília), ABEV3 caía 1,76%, a R$ 15,62, a segunda maior queda do índice. Neste mesmo horário, o Ibovespa subia 1,11%, aos 175.814,25 pontos.
Segundo a Ambev, o desempenho no trimestre foi impulsionado pelo aumento do Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e por menores despesas financeiras líquidas.
A empresa também informou que o Ebitda ajustado, que mede o desempenho operacional, atingiu R$ 6,37 bilhões no período de abril a junho, alta de 3,6% na comparação anual.
A receita líquida da Ambev chegou a R$ 20,14 bilhões no segundo trimestre deste ano, um leve avanço de 0,3% na comparação com o mesmo período em 2025. Já o lucro líquido ajustado foi de R$ 3,49 bilhões no último trimestre.
Resultado da Ambev não convenceu
Analistas do BTG Pactual, Itaú BBA, Citi e XP Investimentos avaliaram que a qualidade dos resultados da Ambev ofusca a surpresa positiva no lucro.
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Para os especialistas, os ganhos foram muito dependentes de itens tributários e financeiros, enquanto a performance operacional frustrou as expectativas.
A XP afirmou ainda que a forte queda das ações reflete a frustração do mercado. Ao longo do trimestre, investidores vinham elevando as expectativas para os resultados da companhia, mas os números não corresponderam ao otimismo.
Apesar disso, o BTG avaliou o resultado como "decente" e manteve a recomendação de compra para as ações da empresa, com preço-alvo de R$ 20. O Citi e o Itaú BBA reiteraram a avaliação neutra, com preço-alvo de R$ 16,50 e R$ 17, respectivamente.
Nem a Copa salvou: os pontos negativos do balanço
Uma das principais decepções no 2T26 da Ambev foi o segmento de cerveja no Brasil. Em meio à Copa do Mundo, o mercado colocava na conta um impulso relevante no consumo, mas as expectativas não viraram realidade.
Embora os jogos de futebol tenham ajudado a elevar o volume de vendas da divisão em 5% no ano, os números mostraram um benefício mais restrito do que o antecipado. Segundo as projeções, era esperado um aumento de cerca de 7%.
Para o BTG, outro 'gol contra' da Ambev foi a natureza da expansão da margem Ebtida, que atingiu 33%. O banco classificou esse ganho como de "baixa qualidade" por enxergar que o resultado foi inflado por incentivos fiscais, que contribuíram com 120 pontos-base para a margem.
"Sem esse efeito tributário, a lucratividade operacional teria ficado praticamente estável, uma vez que as despesas com vendas e distribuição saltaram 11% devido aos esforços comerciais para a Copa", afirmaram os analistas em relatório.
A capacidade da Ambev de repassar preços também foi questionada pelos analistas. O Citi destacou que a evolução dos preços na divisão, que teve alta de 3,8%, veio mais fraca do que o previsto. Esse fator levou a receita líquida total a ficar 2% abaixo das estimativas do banco.
Além disso, fora da divisão de cerveja brasileira, o cenário foi de retração de volumes em quase todas as frentes. No segmento não-alcoólico nacional, houve uma queda de 4,4%, refletindo a estratégia da Ambev de sair dos canais de menor retorno e a perda de participação de mercado.
Já no Canadá e na América do Sul, os volumes caíram 2% e 2,9%, respectivamente, com destaque para o desempenho na Bolívia. Na América Central, o Ebitda reportado desabou 15%, impactado pela desconsolidação das operações em Cuba.
O que a Ambev diz sobre o 2T26
Para a Ambev, os números do primeiro semestre de 2026 refletem um sólido momentum da empresa, com crescimento de 0,7% dos volumes totais, resultado de um desempenho mais forte dos volumes do portfólio de cerveja.
No semestre, a receita líquida cresceu 7,2%, enquanto o Ebitda ajustado aumentou 9,6%, com expansão de margem de 70 pontos-base. Nos últimos seis meses, todas as unidades de negócio entregaram crescimento de Ebitda e expansão de margem.
“Continuamos investindo em nossas marcas e em nossas capacidades de construção de marcas. Neste trimestre, a Copa do Mundo destacou essas capacidades, com ativações do nosso portfólio de marcas em diversos países, canais e ocasiões de consumo”, diz a Ambev.
O copo meio cheio da Ambev
Apesar dos pontos de atenção, o copo da Ambev não está vazio. Além do lucro acima das expectativas, os analistas destacam o sucesso da estratégia no segmento premium, que teve um aumento de dois dígitos. O desempenho permitiu que a companhia ampliasse a participação em diferentes segmentos, mostrando uma execução comercial forte, segundo o Citi.
Os bancos ressaltaram ainda que as plataformas digitais BEES e Zé Delivery seguem ganhando tração. Para os especialistas, o Zé Delivery foi destaque por operar com um portfólio mais premium, ajudando a elevar a rentabilidade média dos canais de distribuição.
Houve também um consenso de que a empresa está priorizando a recompra de ações como a principal via de retorno aos acionistas. No primeiro trimestre, a Ambev executou R$ 2,2 bilhões, completando 95% do programa atual.
Mesmo o Itaú BBA, que teve uma visão mais conservadora sobre os resultados, reconheceu que a alocação de capital e a remuneração via Juros sobre Capital Próprio (JCP) continuam avançando de forma constante.
O pagamento bilionário em JCP
Após a divulgação dos resultados, a Ambev anunciou a distribuição de R$ 1,1 bilhão em juros sobre o JCP, com base no lucro do exercício e nos saldos disponíveis. O montante equivale ao valor bruto de R$ 0,0713 por ação.
Porém, como a distribuição do provento será tributada e a Ambev realizará a retenção do Imposto de Renda na Fonte antes do pagamento, a distribuição líquida é estimada em R$ 0,0588 por ação.
A distribuição ocorrerá até 31 de dezembro deste ano, com base na posição acionária de 21 de setembro na B3 e 23 de setembro na Bolsa de Nova York (Nyse), sem incidência de correção monetária. As ações e os ADRs passarão a ser negociados ex-JCP a partir de 22 de setembro de 2026.
No mesmo comunicado, a companhia anunciou a aprovação pelo conselho para a data de pagamento da terceira e última parcela do JCP aprovados em dezembro do ano passado. A transação será efetuada em 6 de outubro , no valor bruto de R$ 0,1185 por ação, correspondente ao valor líquido estimado de R$ 0,1007.
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