Os desafios estruturais e os oásis de lucro dos setores de telecomunicação e saúde decifrados pela Moody’s
Entre planos de saúde com lucros recordes e teles brigando por cada centavo no pós-pago, agência de classificação de risco diz onde o vento sopra a favor e onde os juros altos continuam castigando as empresas

Se você é aquele investidor que busca refúgio em setores historicamente resilientes e regulados para proteger sua carteira de dividendos, é bom calibrar as expectativas. A Moody's Local Brasil passou o pente fino em dois gigantes da economia real — telecomunicações e saúde — e o diagnóstico traz um alerta claro: resiliência não é sinônimo de crescimento sem limites. Em tempos de Selic elevada (14,25% a ano), o diabo mora nos detalhes.
Os novos relatórios de visão setorial da agência de classificação de risco mostram que tanto a infraestrutura de conexão quanto os cuidados com a vida continuam operando como mercados sólidos.
Mas a maturidade dos negócios, a competição acirrada e o custo do capital estão separando os vencedores dos perdedores. Para quem bota o dinheiro do próprio bolso nessas empresas, olhar apenas para o faturamento já não basta.
Telecom: o teto de crescimento e foco na margem
O mercado de telefonia móvel no Brasil atingiu a maioridade. Na visão da Moody's, o avanço no número de acessos tende a ser cada vez mais moderado.
Isso significa que a era de conquistar milhões de novos clientes em um piscar de olhos acabou. Agora, a guerra das grandes operadoras é para capturar valor dentro de casa.
O foco das teles, segundo a agência, se voltou inteiramente para a recomposição de preços e para a migração estratégica dos clientes do pré-pago para o pós-pago, que garante uma receita mais previsível e robusta.
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Há um esforço para engordar o faturamento com serviços de maior valor agregado, como soluções corporativas, pacotes convergentes e a tão aguardada monetização da tecnologia 5G.
Contudo, o investidor precisa monitorar os riscos regulatórios latentes que podem atrasar o cronograma de investimentos e pesar no caixa.
Os principais nós identificados pela Moody's estão nas regras municipais para a instalação de antenas e no complexo modelo de remuneração pelo uso de redes.
Se na telefonia o jogo é de manutenção, na banda larga a dinâmica mudou de patamar.
A ascensão meteórica das ISPs (provedores regionais), que ditou o ritmo do mercado nos últimos anos, começou a dar sinais claros de desaceleração orgânica. O mercado simplesmente maturou. A penetração da fibra óptica (FTTH) já alcançou estimados 79%, restando pouco espaço novo para expansão fácil.
Com a competição ao extremo limitando o poder de repasse de preços, a saída desenhada pela agência é a consolidação do setor — fusões e aquisições que gerem ganho de escala e eficiência.
Mas a Moody's lembra que essa dança das cadeiras encontra uma barreira espinhosa: os juros elevados no país e a consequente disputa por capital, o que encarece o financiamento para as compras.
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Saúde: oásis das operadoras e calvário dos hospitais
Se o setor de saúde também carrega a medalha da resiliência, a Moody's faz questão de separar o joio do trigo.
O setor vive hoje um cenário de tendências francamente opostas entre seus segmentos, desenhando um viés positivo para operadoras de planos de saúde e farmacêuticas, enquanto hospitais e distribuidoras enfrentam dias bem mais cinzentos.
A grande surpresa positiva fica por conta das operadoras de planos de saúde. Embaladas por uma forte recomposição de preços — aqueles reajustes salgados que você provavelmente sentiu no bolso —, elas registraram um lucro recorde em 2025.
Mais do que isso, a sinistralidade desceu para a casa dos 81% — o menor patamar visto desde 2020.
No entanto, o investidor de ações precisa ponderar: o crescimento da base de beneficiários segue limitado pelo ambiente macroeconômico e pelo próprio impacto dos reajustes elevados. Além disso, o fantasma das fraudes continua no topo da lista de atenção da agência.
No segmento farmacêutico, o horizonte também parece promissor. A Moody's enxerga uma janela favorável com a queda da patente da semaglutida — a famosa molécula contra a obesidade —, abrindo uma avenida de crescimento para o mercado de genéricos.
O sinal amarelo aqui fica por conta do monitoramento da concorrência, que deve se intensificar, e da tradicional morosidade regulatória.
Na ponta mais frágil da corda da saúde estão os hospitais, apontados pelo relatório como o elo mais pressionado do setor.
Eles enfrentam uma tempestade perfeita: de um lado, a persistente inflação médica e um poder de barganha limitado diante das operadoras de saúde; do outro, as dificuldades brutais de desalavancagem.
Com a taxa Selic nas alturas, a cobertura de juros das dívidas consome boa parte do resultado operacional dos hospitais, tornando a redução do endividamento uma missão indigesta.
Para o segmento de diagnósticos (laboratórios), o tom da agência é neutro, sustentado ao menos por uma melhor previsibilidade de caixa, o que traz algum alento para o investidor de crédito privado.
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