Porto Seguro (PSSA3) e Fleury (FLRY3) desistem de nova empresa com a Oncoclínicas (ONCO3), que pediu proteção; o que acontece agora?
O termo de criação da NewCo previa que a Oncoclínicas aportaria os ativos e operações relacionados às clínicas oncológicas, bem como endividamentos e passivos da companhia

O negócio que poderia ser uma salvação para a Oncoclínicas (ONCO3) acaba de cair por terra. O grupo de medicina diagnóstica Fleury (FLRY3) e a seguradora Porto Seguro (PSSA3) anunciaram o fim das negociações com a rede de saúde oncológica para a criação de uma nova companhia.
Em um fato relevante divulgado ontem à noite (13), o Fleury informou a desistência do acordo não vinculante, anunciado em 23 de março, onde ingressaria como investidor na formação de uma nova empresa (NewCo).
Já hoje (14), a Porto Seguro notificou o mercado que também encerrou as negociações, ficando a Oncoclínicas liberada da exclusividade prevista no acordo de março.
A Oncoclínicas chegou a cair 8,94%, a maior queda do mercado. No entanto, às 12h14, o sinal se inverteu, e a empresa está em alta de 4,07% na bolsa.
Ainda ontem, a Oncoclínicas decidiu recorrer à Justiça para tentar reorganizar sua situação financeira. Ela vai ajuizar uma ação de tutela cautelar em caráter antecedente no Tribunal de Justiça de São Paulo, com o objetivo de suspender temporariamente obrigações financeiras e evitar a antecipação de dívidas.
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Como seria o acordo entre a Porto, Fleury e Oncoclínicas
O termo de criação da NewCo previa que a Oncoclínicas aportaria os ativos e operações relacionados às clínicas oncológicas, bem como endividamentos e passivos no valor total de, no máximo, R$ 2,5 bilhões.
O Fleury e a Porto investiriam, em conjunto, R$ 500 milhões na NewCo por meio de uma holding, da qual seriam os únicos acionistas e por meio da qual passariam a deter o controle da NewCo.
Nas análises de bancos que avaliaram as tratativas, o Fleury avançava em um segmento mais complexo, de crescimento estrutural e com potencial de melhorar sua posição dentro da cadeia de saúde, fortalecendo sua posição em um segmento atrativo.
O que sobra para a Oncoclínicas?
Essas desistências abrem espaço para que propostas apresentadas pela Mak Capital sejam avaliadas pela Oncoclínicas. Recentemente, a companhia anunciou que seu acionista MAK Capital Fund LP, com 6,31% das ações, está interessado em realizar um aporte de aproximadamente R$ 500 milhões.
Empréstimos menores, de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões, para a compra de medicamentos, também estavam na mesa.
Em setembro, a Starboard Partners, empresa focada em empresas em situações especiais, havia feito uma proposta de converter R$ 1,7 bilhão da dívida em equity, além de fazer um aumento de capital de mais de R$ 800 milhões. No entanto, essa oferta foi rechaçada pela Latache, a segunda maior acionista da companhia.
Oncoclínicas sob forte pressão
Em forte crise financeira, a empresa chegou a convocar assembleias gerais de debenturistas de diferentes emissões para deliberar sobre a concessão de um waiver. Esta é uma dispensa temporária diante do risco de descumprimento do índice de alavancagem, que mede o nível de endividamento da companhia, sem que ela precise pagar os credores antes do vencimento.
Na semana passada, a Oncoclínicas anunciou que dobrou seu prejuízo. Ela registrou perdas líquidas de R$ 1,51 bilhão no quarto trimestre de 2025, ante um prejuízo de R$ 759 milhões no mesmo período de 2024.
A auditoria que assinou o balanço chama a atenção para a situação financeira da companhia, com capital circulante líquido negativo em R$ 2,3 milhões. Esses eventos "indicam a existência de incerteza relevante que pode levantar dúvida significativa quanto à capacidade de continuidade operacional da entidade", diz a auditoria.
Como a empresa chegou nessa situação
A Oncoclínicas abriu o capital em 2021 com planos de atender à crescente demanda por atendimento especializado no tratamento de câncer e se consolidar como a principal empresa dentro do segmento. No entanto, o seu valor na bolsa derreteu, e hoje é de apenas R$ 813,54 milhões. Crescimento arrojado, investimentos arriscados e sócios polêmicos afetaram a companhia.
A Oncoclínicas cresceu significativamente desde a abertura de capital, impulsionada por parcerias agressivas com pagadores como a Unimed-Rio, cujas margens mais altas compensavam seus perfis de crédito mais arriscados.
Além disso, entrou no segmento de hospitais — que hoje tenta vender — e abriu uma joint venture na Arábia Saudita.
Com isso, passou a queimar caixa em alta velocidade. Diante disso, passou por dois aumentos de capital, em 2023 e 2024, em busca de redução no nível de alavancagem.
A última injeção de capital em particular mostrou-se uma faca de dois gumes. De um lado, o fundador e CEO, Bruno Ferrari, demonstrou a confiança no negócio, colocando mais dinheiro na empresa; de outro, a operação trouxe também um aporte relevante, da ordem do bilhão, do Banco Master.
Com a entrada do acionista, veio mais um erro financeiro: a companhia colocou parte relevante do seu caixa em títulos do Master. Uma matéria do Seu Dinheiro de fevereiro de 2025 já levantava essa desconfiança, muito antes do escândalo do banco de Daniel Vorcaro vir à tona.
Outros dois eventos afetaram o seu fluxo de caixa no último ano. A inadimplência da Unimed FERJ custou R$ 864,9 milhões, contabilizada integralmente no 3T25, e a empresa perdeu R$ 431 milhões relacionados aos depósitos mantidos no Banco Master.
A situação da empresa está tão apertada que afeta o seu capital de giro líquido, para manter a operação. As contas a receber demoraram 93 dias a cair no quarto trimestre. Os estoques têm uma duração média de 19 dias.
A média de contas a pagar é de 111 dias, um alívio já que a empresa conseguiu renegociar prazos com um dos seus principais fornecedores de medicamentos, diz o CFO. Ou seja, considerando todos esses prazos, ela tem capital de giro líquido de apenas um dia.
Com Money Times
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