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Bia Azevedo

Bia Azevedo

Jornalista pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2025, esteve entre os 50 jornalistas mais admirados da imprensa de Economia, Negócios e Finanças do Brasil. Já trabalhou como coordenadora e editora de conteúdo das redes sociais do Seu Dinheiro e Money Times. Além disso, é pós-graduada em Comunicação digital e Business intelligence pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

VEJA OS DETALHES

Entre dívidas ocultas e balanços questionáveis: o que laudo pericial revela sobre a crise da Fictor

Laudo da Laspro libera avanço da recuperação, mas identifica números conflitantes, dependência de aportes internos e confusão patrimonial entre as empresas

Bia Azevedo
Bia Azevedo
23 de março de 2026
18:40 - atualizado às 17:52
Grupo Fictor, holding patrocinadora do Palmeiras, entra com pedido de recuperação judicial.
Grupo Fictor, holding patrocinadora do Palmeiras, entra com pedido de recuperação judicial. - Imagem: Divulgação

O pedido de recuperação judicial do Grupo Fictor deu mais um passo relevante, mas longe de dissipar as incertezas. Em laudo de constatação prévia, a perícia concluiu que os requisitos legais foram atendidos, o que abre caminho para o avanço do processo, mas com uma série de ressalvas.

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Segundo a perita nomeada pela Justiça de São Paulo, a Laspro, problemas identificados colocam em xeque a qualidade e a consistência das informações financeiras apresentadas pelas empresas do grupo.

Na prática, a constatação é de que o grupo até consegue cumprir formalmente as exigências da Lei de Recuperação Judicial, mas carrega problemas relevantes de consistência contábil, organização documental e saúde financeira.

Um dos principais pontos de atenção do laudo está na contabilidade. A perícia identificou divergências relevantes entre os demonstrativos financeiros — incluindo balanço patrimonial, demonstração de resultados e fluxo de caixa — além de erros materiais em cálculos.

O documento assinado defende a inclusão das 43 empresas do grupo em um único processo, sob o regime de substancial.

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Isso porque o laudo indica que a fragilidade do grupo vai além da liquidez consolidada: há empresas com patrimônio líquido negativo e outras sustentadas basicamente por aportes internos, em meio a uma forte confusão patrimonial e elevada interdependência financeira que, segundo a perícia, impede a análise isolada de cada companhia e levanta dúvidas sobre a real qualidade dos ativos e a capacidade de sobrevivência sem o suporte do próprio grupo.

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Os números que não fecham para o Grupo Fictor

Se o laudo pericial já levanta dúvidas sobre o grupo como um todo, a análise individual de algumas empresas escancara um quadro ainda mais delicado — que vai de inconsistências contábeis graves a casos de insolvência patrimonial.

A situação mais crítica, sob a ótica da confiabilidade dos números, aparece na Fictor Meios de Pagamentos. Segundo a perícia, as demonstrações financeiras da companhia apresentam falhas metodológicas relevantes, incluindo o cálculo incorreto da receita líquida e divergências entre documentos oficiais e planilhas internas.

O problema é tão profundo que o perito afirma não ser possível aferir a real situação econômica da empresa.

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Já a Fictor Securitizadora enfrenta um problema mais direto: insolvência. O passivo supera o ativo, configurando patrimônio líquido negativo, enquanto a estrutura do balanço é altamente concentrada em carteiras de recebíveis de longo prazo.

Com caixa reduzido e prejuízo elevado — da ordem de R$ 81,6 milhões —, a empresa combina baixa liquidez com inconsistências entre demonstrativos, o que reforça a percepção de fragilidade estrutural.

Na Fictor Agro Comércio de Grãos, o quadro chama atenção pela desorganização dos números.

A companhia apresenta versões diferentes do resultado financeiro: enquanto a demonstração de resultados aponta prejuízo de mais de R$ 81 milhões, o balancete indica perda marginal, e o fluxo de caixa chega a sugerir lucro.

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Além disso, a maior parte dos ativos está concentrada em créditos contra empresas do próprio grupo, o que limita a liquidez e reforça a dependência interna.

A Fictor Holding Financeira Ltda., por sua vez, sintetiza a fragilidade do modelo do grupo. Sem receita operacional própria, com caixa praticamente inexistente e patrimônio líquido negativo, a holding depende integralmente do desempenho das controladas.

Na Fictor Asset Ltda., os problemas combinam inconsistência contábil e dependência financeira. A empresa apresenta divergências entre lucro e prejuízo nos demonstrativos, além de geração de caixa operacional negativa e patrimônio líquido deteriorado.

A manutenção das atividades depende de aportes recorrentes do grupo, o que levanta dúvidas sobre sua capacidade de sobrevivência de forma autônoma.

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Mais de uma Fictor Alimentos

No segmento de alimentos, o caso mais emblemático é o da Fictor Alimentos Betim Ltda., que não é a empresa aberta com ações negociadas na bolsa, mas uma subsidiária dela, responsável pelo arrendamento de plantas industriais.

A empresa declarou não possuir credores, mas aparece no processo com mais de R$ 34 milhões em dívidas — uma inconsistência que levou a perícia a classificar o requisito como apenas parcialmente cumprido e recomendar esclarecimentos formais.

Já a Fictor Alimentos Ltda, que também não é a companhia aberta, e a Fictor Alimentos S.A. — esta sim a aberta em bolsa e negociada sob o ticker FICT3 — aparecem inseridas no mesmo contexto de fragilidade documental e dependência do grupo, embora com menor nível de detalhamento individual no laudo.

A empresa aparece no laudo dentro do conjunto cuja documentação foi considerada, em linhas gerais, apresentada, mas ainda dependente de ajustes, validações e possíveis esclarecimentos adicionais, especialmente no contexto da consolidação do grupo.

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Assim como as demais, sua análise individual fica prejudicada pela própria dinâmica identificada pela perícia, em que ativos, passivos e fluxos financeiros se misturam entre as empresas, dificultando a separação clara das responsabilidades.

Fictor Alimentos (desta vez, a aberta)

Fora do escopo da perícia, a companhia informou recentemente a desmobilização e o encerramento das atividades relacionadas à aquisição da Unidade Produtiva Isolada (UPI) da Mellore, movimento aprovado pelo conselho de administração.

Esse é um ponto sensível para a tese de continuidade da operação. Isso porque, sem essa transação, a empresa não possui ativos imobilizados próprios, operando essencialmente por meio de arrendamentos.

Na prática, as plantas industriais onde são produzidas as carnes — base da geração de receita — não pertencem à companhia, mas são “alugadas” de terceiros, no caso, da Mellore Alimentos, que também está em recuperação judicial.

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Esse modelo, embora viável em condições normais, torna-se mais frágil em um cenário de crise e sob análise judicial: a continuidade da operação depende diretamente da manutenção desses contratos.

Caso a Justiça entenda que a empresa não tem capacidade de honrar os pagamentos, pode autorizar a rescisão dos arrendamentos, o que teria efeito imediato — sem acesso aos frigoríficos, a Fictor Alimentos interromperia a produção, deixaria de gerar receita e, na prática, perderia sua operação.

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