CEO sai, ação sobe: por que o mercado comemorou a saída de Rafael Lucchesi da Tupy (TUPY3)
A saída de Rafael Lucchesi, alvo de críticas por possível interferência política, foi bem recebida pelo mercado e abre espaço para a escolha de um CEO com perfil técnico — em meio a desafios operacionais e à fraqueza do mercado norte-americano

No cotidiano, quem busca melhorar a aparência costuma começar pelo visual: cabelo, guarda-roupa e assim por diante. Na Tupy (TUPY3), a mudança para ficar mais atraente para o mercado foi de CEO.
Rafael Lucchesi deixou o comando da companhia na sexta-feira (27) e ontem (30) os papéis da fabricante brasileira de autopeças festejaram com alta de 4,16%, a R$ 12,78.
O movimento pode até parecer contraintuitivo se levarmos em consideração que a saída de um presidente geralmente causa preocupação entre os investidores, mas nesse caso o pé atrás do mercado era justamente o executivo. O conselho agora busca alguém para assumir a cadeira.
Lucchesi assumiu o comando da Tupy em abril de 2025. A sua indicação, vinda de órgãos estatais por acionistas da companhia, levou a questionamentos sobre indicação política na gestão, segundo fontes com quem o Seu Dinheiro conversou.
Ele entrou no lugar de Fernando Rizzo, que fez carreira durante décadas na Tupy e era visto como o responsável por abrir novos caminhos de negócios para a empresa nos últimos anos.
“Agora, a expectativa dos acionistas minoritários é por um processo de escolha de fato competitivo. Bons candidatos certamente não faltarão, o que se espera é que o conselho conduza essa etapa com o rigor necessário”, afirmou ao Seu Dinheiro Camilo Marcantonio, CIO da Charles River, gestora que detém 5,4% da companhia.
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No ano, os papéis da companhia avançam 6,38%, mas acumulam queda de quase 30% nos últimos 12 meses.
O polêmico CEO
A indicação do executivo partiu do BNDESPar, braço de investimentos do banco estatal, e da Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil. Juntos, os acionistas têm uma participação de cerca de 58% na fabricante de autopeças.
Sem experiência direta no setor automotivo e vindo de quase 20 anos como diretor na Confederação Nacional da Indústria (CNI) e outros 14 anos no Serviço Social da Indústria (Sesi), Lucchesi passou a ser visto por investidores como um nome desalinhado às exigências técnicas da companhia.
Na avaliação de uma fonte ouvida pelo Seu Dinheiro, o BNDESPar teria cedido à crescente pressão do mercado ao decidir pela saída do executivo. “Acredito que não foi uma renúncia, esse anúncio foi uma maneira de dar uma saída honrosa”, afirmou.
Com isso, cresce a leitura de que o movimento pode indicar uma mudança de postura dos acionistas majoritários, agora mais inclinados a buscar um nome de mercado, em vez de uma indicação de cunho político.
Na visão do Citi, fica evidente que a complexidade do cargo exigia um perfil de liderança com maior expertise no setor.
“Embora a notícia abra espaço para a nomeação de um executivo experiente da indústria, a Tupy atravessa um dos momentos mais desafiadores de sua história, e a ausência de um CEO permanente adiciona mais uma camada de dificuldade”, escreve o time de análise do banco em relatório.
A recomendação para os papéis é de compra, com preço-alvo em R$ 14, o que representa uma alta potencial de quase 10% em relação ao fechamento de ontem.
Interferência política na Tupy
A partir de 2023, a reconfiguração do conselho da Tupy passou a chamar a atenção do mercado, sobretudo pela presença de nomes ligados ao governo.
Entre eles, Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, e Carlos Lupi, então ministro da Previdência Social, que assumiram assentos no colegiado e permaneceram nas posições até 2025.
À época, o salário anual para o cargo chegava a R$ 1 milhão. A reclamação de agentes do mercado foi que os nomes não seriam técnicos o bastante para ocupar a posição.
Os outros problemas da Tupy
Para além das mudanças no alto escalão, a companhia atravessa um momento delicado, marcado pela queda nos volumes de produção em meio à desaceleração do mercado norte-americano, seu principal destino de exportações.
Nos Estados Unidos, a Tupy enfrenta uma combinação de fatores que pressiona tanto a demanda quanto a rentabilidade da operação.
A produção de veículos comerciais pesados recuou de forma relevante no país, reduzindo os pedidos por componentes e comprometendo a diluição de custos fixos. Ao mesmo tempo, o setor de transporte tem operado com excesso de capacidade, o que comprime a rentabilidade das transportadoras e leva ao adiamento na renovação de frotas.
O cenário foi agravado por distorções no ciclo de demanda após o adiamento de regras ambientais, como o pacote EPA 27, que impõe limites mais rígidos de emissões para veículos pesados nos EUA e levou à antecipação de compras seguida por uma queda mais acentuada nas encomendas.
Soma-se a isso um ambiente de incertezas geopolíticas e comerciais — como foi o caso das tarifas impostas por Donald Trump contra o Brasil — que reduz a visibilidade sobre investimentos e pedidos, além de um pano de fundo macro mais desafiador, com impacto indireto de juros e crédito sobre a atividade econômica.
Na Tupy, a produção de veículos comerciais, seu principal driver, caiu cerca de 27% em 2025, passando de 612 mil para 447 mil unidades, enquanto o segmento de pesados recuou aproximadamente 24%, de 81 mil para 61 mil unidades.
“O mercado de caminhões pesados nos EUA está sofrendo bastante, mas há medidas que a Tupy pode tomar para ajudar nos resultados”, afirma Marcantônio.
Uma delas é a otimização do footprint fabril, que envolve ajustar a estrutura produtiva à nova realidade de demanda, com redução de capacidade ociosa e melhor distribuição da produção entre as plantas.
Além disso, ele enxerga que a companhia tem espaço para melhoria operacional.
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