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Com forte exposição ao mercado chinês, o frigorífico pode apelar para operação no resto do continente para enviar carne bovina ao gigante asiático, mas essa não é a bala de prata
As ações da Minerva (BEEF3) sofrem com mais um pregão no vermelho nesta segunda-feira (5) após a China impor restrições às importações de carne bovina no apagar das luzes em 2025. Por volta das 17h, os papéis caíam 3,35%, negociados a R$ 5,19, terceira maior baixa do Ibovespa, que avançava 0,91% no mesmo horário, a 162.010 pontos.
E a situação não parece muito animadora para a empresa daqui em diante.
Isso porque, além de operar majoritariamente no Brasil — um dos países mais impactados pelas salvaguardas chinesas, ao lado da Austrália —, a companhia é a mais exposta a esse mercado, já que mais da metade das exportações vindas do Brasil vão para o gigante asiático.
No terceiro trimestre de 2025, cerca de 59% da receita do segmento de carne bovina da Minerva veio da China, segundo dados mais recentes disponíveis. Na visão do Santander, a companhia também é a mais afetada pela medida.
Na visão de Fernando Iglesias, analista de proteína animal da Safras & Mercado, a solução para a Minerva não passa só pelos esforços da própria companhia. “Vai depender muito da habilidade do Brasil na abertura de novos mercados, não é só a empresa”, afirmou em entrevista ao Seu Dinheiro.
Existe, no entanto, um atalho que pode ser uma solução de curto prazo para esse problema, segundo Iglesias: explorar a operação no restante do continente, em especial na Argentina e no Uruguai.
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Assim, a companhia poderia fazer uma triangulação: mandar parte do volume exportado via outros países, mudando a rota de chegada à China — preservando, portanto, a cota de importação brasileira.
A China se consolidou como o principal destino dos embarques de carne bovina uruguaia da Minerva no terceiro trimestre de 2025, com 33% do market share.
Na Argentina, esse número foi ainda maior: o país respondeu por 51% do total das exportações da companhia no 3T25. A expectativa é de que essa participação avance nos próximos períodos, segundo Iglesias, mas o “atalho” está longe de ser uma bala de prata.
“Enquanto não encontrarmos caminhos no mercado global [para suprir a demanda chinesa] fica um pouco mais complicado”, diz.
O analista ressalta que, mesmo reorganizando as cadeias, as operações no restante da América Latina não comportam o volume necessário para que isso se torne uma solução de longo prazo.
Algumas praças que podem ser alternativas para o Brasil tentar contornar esse problema, segundo Iglesias.
“Seria necessário alavancar as vendas para a Indonésia, Filipinas e o próprio Vietnã, além de avançar na abertura do Japão e da Coreia do Sul, para conseguir minimizar os efeitos da ausência da China”, afirma.
O Brasil tenta abrir os mercados japonês e sul-coreano às exportações de carne bovina há anos. Os dois são mercados considerados premium. As negociações esbarram em exigências sanitárias muito rigorosas em ambos os casos.
O analista também cita o próprio mercado norte-americano como relevante para o Brasil ao longo de 2026. O avanço das negociações de um acordo comercial com União Europeia também poderia ajudar a preencher o vácuo deixado pela potência asiática.
No entanto, ele ressalta que nenhum mercado, isoladamente, seria capaz de preencher o vácuo deixado pela China, já que as exportações brasileiras para o país devem encerrar 2025 em cerca de 1,7 milhão de toneladas — cerca de metade do total exportado —, volume que supera a cota de 1,1 milhão de toneladas imposta por Pequim.
Por isso, Iglesias é contundente: “exportaremos menos carne em 2026” — cabe lembrar que o ano passado foi descrito como o ano dessa commodity.
“Apesar de o setor ter registrado o maior volume de abates já observado em um único ano — com a expectativa de superar 41 milhões de cabeças —, o comportamento dos preços não seguiu a lógica de forte pressão baixista. Ao longo de praticamente todo o período, a arroba em São Paulo permaneceu acima de R$ 300, contrariando as projeções iniciais”, diz.
Mas há uma boa notícia: segundo ele, o Brasil deve produzir menos ao longo dos próximos meses, o que pode ajudar a equalizar a situação.
Analistas do BTG Pactual destacaram que os exportadores, especialmente os maiores sob cobertura do banco, não devem sair ilesos, mas ponderaram que a situação parece administrável.
“Toda pauta exportadora do Brasil corre risco”
Mesmo que as salvaguardas chinesas não sejam o fim do mundo para as exportadoras, a escaladas das tensões geopolíticas globais são um ponto de preocupação para o agro brasileiro, de acordo com Iglesias.
“Todos correm risco [de possíveis tarifas ou restrições]”, afirma.
O analista destaca que o avanço do protecionismo comercial em nível global tende a colocar o Brasil em uma posição delicada, uma vez que estamos entre os maiores exportadores de uma série de commodities.
“Muitas vezes o protecionismo se mascara em questões ambientais ou sanitárias, como a Europa faz com o meio ambiente ou a China fez com a gripe aviária. É o preço que pagamos por sermos tão competitivos”, afirma.
Outro ponto que chama a atenção é o desempenho da JBS (JBSS32) e MBRF (MBRF3) na bolsa. Enquanto a Marfrig perde quase 11% do valor de mercado nos últimos cinco dias, as outras duas caem 5,33% e 3,41%, respectivamente.
Isso se dá porque a JBS tem uma diversificação geográfica marcante, atuando em diversos países com estrutura robusta — podendo, por consequência, operar de vários locais e driblar tarifas. O próprio CEO, Gilberto Tomazini, explica a lógica:
“Nossa empresa foi construída para lidar e reduzir a volatilidade. Então, isso não é relevante para nós. Temos outros mercados. No caso da Friboi no Brasil, uma ou outra fábrica que estava focada na exportação para os EUA é afetada, mas não é algo comprometedor para o negócio", afirmou em participação no Agro Summit, do Bradesco BBI, no ano passado, se referindo às tarifas impostas pelos Estados Unidos à época.
Já a MBRF tem um posicionamento diferente, optando por focar em produtos de maior valor agregado, como pratos congelados e hambúrgueres, o que traz mais resiliência.
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