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FUNDOS DE INVESTIMENTO

A nova arma dos fundos sistemáticos para bater o CDI: inteligência artificial — e o que mais você precisa saber sobre isso

A possibilidade de processar diferentes fontes de informação pode oferecer vantagens competitivas que não eram tão aproveitadas anteriormente, com resultado nos retornos

Imagem: iStock.com/rudall30

Balanços de empresas, dados setoriais, indicadores macroeconômicos e tendências de mercado. Essas são algumas das principais informações utilizadas por gestores e analistas para avaliar se vale a pena investir em uma ação ou não.

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Não é pouca coisa. Todos os dias há divulgações novas.

Entretanto, há limites para o que um humano consegue avaliar e calcular, principalmente em pequenos prazos. Modelos matemáticos e computacionais tradicionais também têm suas barreiras. Mas a inteligência artificial (IA) mudou esse cenário.

A capacidade de análise de dados pela IA é muito superior ao que gestores e analistas tinham até então. Se antes os dados utilizados eram mais tabulares e numéricos, agora é possível trabalhar com informações “não estruturadas”, como texto, áudio, imagens e vídeos.

“A ideia toda é você conseguir identificar aquelas empresas que vão ganhar e as que vão perder usando dados, indicadores e treinamento de modelos para identificar as informações que ninguém viu”, diz Marcello Paixão, gestor responsável pelos fundos sistemáticos na AZ Quest.

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Atualmente, a AZ Quest está trabalhando o processamento dessas informações não estruturadas. Segundo Paixão, desde 2025, a gestora já processou a transcrição de entrevistas e teleconferências de mais de 20 mil empresas globais. O modelo está treinado para Estados Unidos e Brasil, e agora está mapeando Reino Unido e Austrália.

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Teoricamente, se um CEO usar um tom mais defensivo, hesitar mais ao responder perguntas ou mudar o padrão de comunicação em relação aos trimestres anteriores, os sistemas conseguem captar essas alterações e transformar esse comportamento em variável estatística.

Como funcionam os fundos sistemáticos

Os fundos sistemáticos utilizam modelos matemáticos, algoritmos e regras para tomar decisões de investimento e executar operações automaticamente. A participação humana fica mais concentrada no desenvolvimento, monitoramento e atualização dos modelos.

Apesar do crescimento recente, eles não são exatamente uma novidade.

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Essa forma de investir surgiu antes mesmo da computação moderna, utilizando inicialmente apenas modelos matemáticos. Mas, com o aumento do poder computacional e os avanços da inteligência artificial, a capacidade de processamento de dados cresceu exponencialmente.

Quant” ou “sistemático” também não é exatamente uma categoria de fundo de investimento. Está mais para um estilo de gestão ativa, nas classificações brasileiras. Na prática, eles entram nas categorias de multimercados, ou até mesmo fundos de ações.

Entre as gestoras brasileiras com estratégias desse tipo estão AZ Quest, V8, Fundamenta, Kadima e Constância.

Em boa parte desses fundos, o modelo funciona por meio de estratégias chamadas de long & short fatoriais. Os fatores clássicos usados incluem critérios para ranqueamento das empresas, como valor, momento, crescimento, qualidade e baixa volatilidade.

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O algoritmo recebe uma enorme base de dados e monta um ranking das empresas consideradas mais e menos atrativas dentro desses critérios.

Com esse ranking pronto, o modelo do fundo sistemático monta suas posições compradas nas ações consideradas mais fortes e posições vendidas nas mais fracas.

E esses algoritmos estão ganhando cada vez mais espaço na indústria. Um levantamento do portal E-Investidor apontou que, em 2025, cerca de 35% do volume no mercado à vista da B3 foi feito via negociação de alta frequência — um nome técnico para robôs de negociação. Há dez anos, esse volume era de 14%.

A busca por vencer o CDI

Os fundos sistemáticos podem ter várias estratégias. Há fundos que operam somente ações compradas, derivativos, entre outras possibilidades. A estrutura long & short dos fundos sistemáticos cria um comportamento bastante diferente de um fundo tradicional de ações.

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Como há posições compradas e vendidas ao mesmo tempo — geralmente em proporções próximas —, o resultado do fundo depende menos da direção da bolsa e mais da capacidade do modelo de identificar distorções entre empresas.

“Apesar de eles operarem ações, essa composição neutra traz um comportamento para a cota muito diferente dos índices da Bolsa. Na prática, o fundo ganha na ponta comprada e vendida”, afirma Pedro Silva, analista de fundos da Empiricus Research.

É justamente por isso que faz sentido muitos desses fundos compararem a performance com o CDI, e não com o Ibovespa.

Mas esta não é uma missão simples no Brasil atual: significa entregar retornos acima do CDI — hoje na casa dos 14% ao ano.

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Na prática, trata-se de uma concorrência direta com aplicações conservadoras de renda fixa, como Tesouro Selic e CDBs, que entregam retornos elevados com risco muito baixo.

Para o investidor, fica o questionamento: por que correr risco em renda variável se é possível conseguir retorno de dois dígitos em aplicações conservadoras?

Não por acaso, multimercados e fundos de ações — que abarcam os fundos sistemáticos — enfrentaram uma sequência de saídas líquidas nos últimos anos, enquanto fundos de renda fixa concentraram grande parte da captação da indústria.

Nesse ambiente, os fundos sistemáticos long & short tentam vender uma proposta diferente: usar tecnologia, capacidade de processamento e análise estatística para buscar retornos menos dependentes da direção do mercado.

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Uma questão de performance

O AZ Quest Bayes Long Short Sistemático entregou retorno equivalente a 150% do CDI desde o início da estratégia, em julho de 2022, segundo divulgação da própria casa. Neste ano, até 9 de junho, o fundo entregou 14,76% de retorno, frente 6% do CDI.

Um outro fundo da casa, o AZ Quest Bayes Long Biased Sistemático, tem uma estratégia que incorpora indicadores macroeconômicos locais e globais, também conseguiu entregar mais do que o CDI, com uma folga menor: 7,58% no acumulado do ano.

Para Silva, da Empiricus, o que vai atrair o investidor não é o uso ou não de mais dados e inteligência artificial, mas o retorno que essa estratégia traz.

“Acho que o investidor hoje está menos interessado se a estratégia é gerida por um modelo de IA ou por um gestor e sua equipe de análise e mais interessado em entrega consistente de retorno acima do benchmark”, afirma o analista.

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A Empiricus tem recomendação para dois fundos sistemáticos: o Genoa Sagres e o Giant Zarathustra.

O Genoa Sagres é focado em estratégia macro, de curto e médio prazo, no âmbito global. No ano passado, o fundo superou o CDI em 70%, fechando o ano com 24,4% de retorno. Neste ano, entretanto, até o dia 9 acumula 0,3% de retorno.

Já o Giant Zarathustra opera nos mercados globais de juros, moedas, ações e commodities. Neste ano, o fundo está com um retorno de 4,68%, equivalente a 80% do CDI.

Segundo Silva, da Empiricus, a entrega acima do CDI depende muito da robustez do modelo desenvolvido pelas gestoras e, principalmente, da capacidade do time de continuar melhorando ao longo do tempo.

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