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Mesmo com um cenário macroeconômico difícil, empresas ligadas à inteligência artificial seguem entre os grandes destaques de Wall Street em 2026

Juros altos, inflação pressionada e guerra no Oriente Médio costumam formar uma combinação indigesta para a bolsa. Mas, em Wall Street, um grupo de ações conseguiu atravessar esse ambiente adverso com fôlego de sobra: as empresas ligadas à inteligência artificial.
No primeiro semestre de 2026, o setor de tecnologia despontou como o principal destaque do mercado norte-americano. Mesmo após uma liquidação recente das ações, as gigantes do setor ainda acumulam ganhos expressivos no ano.
O índice MSCI World Information Technology, que tem entre suas principais posições Nvidia, Apple, Microsoft, Broadcom e Micron, avançou mais de 20% no período.
O desempenho chama atenção justamente porque aconteceu em um cenário macroeconômico desafiador, marcado pelas pressões inflacionárias decorrentes da guerra no Oriente Médio e pelo aumento das expectativas de manutenção dos juros em níveis elevados pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.
A grande dúvida dos investidores é se os lucros das empresas de tecnologia serão suficientes para compensar esse pano de fundo mais difícil.
De um lado, há quem veja a inteligência artificial como um motor capaz de sustentar ganhos robustos por mais tempo. De outro, cresce o questionamento sobre a sustentabilidade das premissas usadas nas projeções para o setor.
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Ainda assim, existe um ponto de consenso: a inteligência artificial está se espalhando rapidamente pelas empresas. O problema é que as mudanças organizacionais necessárias para capturar os maiores ganhos de produtividade e eficiência ainda não avançaram na mesma velocidade.
O analista da ISG e autor da TGT ISG, Pedro Bicudo Maschio, acompanhou 150 estudos de caso de IA generativa nos negócios e afirma que o uso da tecnologia ainda é escasso.
Segundo ele, a implementação da inteligência artificial trouxe novas demandas para as companhias. Agora, as empresas precisam escolher modelos adequados, treinar agentes específicos e monitorar constantemente a qualidade das respostas dos chamados chatbots.
"A primeira miopia do investidor foi acreditar que a OpenAI seria dona de tudo. É a primeira vez que uma tecnologia (LLM) não detém um único dono", afirma ele.
Por enquanto, os investimentos em inteligência artificial ainda acontecem em um mercado bastante concentrado. As big techs americanas, líderes desse ecossistema, têm ampliado a captação de recursos por meio de dívida e emissão de ações.
Na Meta, por exemplo, o CEO Mark Zuckerberg afirmou recentemente a funcionários que os gastos com IA têm pressionado as finanças da companhia. Segundo ele, as ações da empresa estariam em um patamar mais elevado caso esses investimentos não tivessem sido realizados.
"O desafio atual é equilibrar os ganhos de eficiência com a nova linha de despesa que a tecnologia impõe ao orçamento", explica Bicudo.
O avanço da inteligência artificial, no entanto, não beneficia apenas as empresas de tecnologia. Com grandes IPOs esperados em Wall Street nos próximos trimestres, incluindo as potenciais listagens de OpenAI e Anthropic, a corrida global pela IA também tem impulsionado os negócios das instituições financeiras.
Esse movimento já apareceu nos resultados mais recentes de Goldman Sachs e JPMorgan Chase. Segundo o diretor financeiro do JPMorgan, Jeremy Barnum, a IA está "em toda parte nos mercados financeiros".
Além de assessorar fusões e aquisições ligadas ao setor, os bancos também atuam no financiamento de data centers e projetos de infraestrutura.
À medida que os investimentos aumentam, também cresce a cobrança por resultados.
O Wells Fargo Investment Institute projeta que a inteligência artificial impulsionará um crescimento substancial do mercado neste ano, representando quase 25% de crescimento nos lucros do S&P 500.
Mas o otimismo não vem sem riscos. Segundo relatório do Société Générale, as preocupações dos investidores com uma possível sobrevalorização das empresas ligadas à inteligência artificial já contribuíram para a ampliação dos spreads de crédito em relação aos de companhias de outros segmentos.
O documento alerta que esses spreads podem apresentar volatilidade ainda maior caso as tensões no Oriente Médio se intensifiquem.
As tensões geopolíticas também podem influenciar os próximos passos do Federal Reserve no segundo semestre.
Atualmente, os mercados precificam uma probabilidade de 53,5% de que o banco central americano eleve os juros em ao menos 0,25 ponto porcentual na reunião de setembro, segundo o monitoramento do CME Group.
Para a Capital Economics, uma alta moderada não representaria uma ameaça significativa. Mas um aumento mais acentuado dos juros "teria impacto expressivo sobre a captação de recursos e reduziria os investimentos no setor".
Esse é um ponto importante porque boa parte da expansão da inteligência artificial depende de investimentos bilionários em infraestrutura, como data centers, chips e computação em nuvem.
A pergunta que ronda Wall Street é inevitável: o mercado está diante de uma nova bolha de tecnologia?
Para Rodrigo Torres, CFO da Quality Digital, a resposta é não. Segundo ele, existe uma demanda global consistente por infraestrutura de inteligência artificial, o que sustenta investimentos bilionários no setor.
Na avaliação do executivo, o movimento atual representa uma reprecificação dos ativos "fundamentada em lucros reais".
"As grandes empresas de computação em nuvem, como Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud, estão realizando investimentos bilionários e mantêm o setor em expansão, apesar dos custos elevados no curto prazo", afirmou. "São empresas consolidadas e não dependem exclusivamente dessa tecnologia para sustentar seus negócios."
Por enquanto, a inteligência artificial segue desafiando o cenário macroeconômico. A dúvida é até quando os lucros, a demanda por infraestrutura e o entusiasmo dos investidores serão suficientes para sustentar a alta.
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