Nem bolsa, nem multimercados: o dinheiro escolheu outro destino em 2026. Qual o investimento que já captou R$ 148 bilhões?
Relatório do BTG Pactual mostra que, enquanto alguns fundos sangram, uma classe de ativos concentra mais de metade de toda a captação do ano

Enquanto boa parte da indústria de investimentos brasileira ainda luta para recuperar o fôlego, a renda fixa segue fazendo o que poucos conseguiram em 2026: atrair dinheiro novo — e muito.
Em um ambiente de juros elevados, incertezas fiscais e tensões geopolíticas, os investidores voltaram a reforçar a posição naquele velho conhecido do mercado.
Segundo relatório do BTG Pactual, os fundos de renda fixa captaram R$ 148,4 bilhões no acumulado do ano até julho, consolidando a classe como o principal destino dos recursos no país.
Não chega a ser uma surpresa. Com os juros elevados garantindo retornos difíceis de ignorar, a renda fixa voltou a ocupar o centro das carteiras desde 2024, enquanto ativos mais arriscados perderam espaço na disputa pelo dinheiro novo.
Onde o dinheiro está pousando — e de onde ele continua fugindo
Se existe um vencedor claro na disputa pela preferência do investidor no Brasil em 2026, ele atende pelo nome de renda fixa.
Dos R$ 231 bilhões em recursos líquidos captados pela indústria de fundos brasileira até julho, R$ 148,4 bilhões foram destinados aos fundos de renda fixa — praticamente dois terços de todo o dinheiro novo que entrou no mercado.
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Para dimensionar esse movimento, em todo o ano de 2025, a categoria havia captado R$ 78,8 bilhões. Ou seja, em apenas sete meses, a renda fixa já atraiu quase o dobro desse volume.
A diferença para as demais classes também chama atenção. Os fundos de ações acumulam resgates de R$ 6,3 bilhões no ano, enquanto os fundos de pensão perderam R$ 8,3 bilhões.
Já os multimercados (hedge funds) seguem enfrentando uma crise prolongada. Apenas em 2026, os resgates somam R$ 11,7 bilhões, depois de uma saída recorde de R$ 356,9 bilhões em 2024 e outros R$ 56,6 bilhões em 2025.
"Em 2024, os fundos de renda fixa recuperaram a liderança em entradas", destacam os analistas do BTG. Em 2026, essa liderança apenas se consolidou.
Hoje, a indústria brasileira de fundos de renda fixa administra cerca de R$ 4,75 trilhões em patrimônio (AUM).
Renda fixa nas alturas: por que todo mundo resolveu apostar no previsível?
Os juros elevados ajudam a explicar o retorno da renda fixa ao topo da preferência dos investidores, mas não contam toda a história. O relatório do BTG mostra que a memória recente da bolsa ainda pesa nas decisões de alocação.
As ofertas de ações (IPOs) realizadas durante a euforia de 2021 continuam servindo como um lembrete dos riscos de apostar em histórias de crescimento acelerado.
Entre as empresas que abriram capital naquele ano, poucas foram as que conseguiram preservar valor para os acionistas — e menos ainda as que superaram o desempenho do Ibovespa.
A Orizon (ORVR3) aparece como a principal exceção, acumulando valorização de 232% desde a estreia na bolsa, contra um retorno de apenas 45% do Ibovespa no mesmo período.
Veja quem mais compõe a lista:
- Caixa Seguridade (CXSE3): +130% (contra +43% do Ibovespa)
- 3tentos (TTEN3):+25% (+38% do Ibovespa)
- Bemobi Tech (BMOB3): +6% (+45% do Ibovespa)
- Gps (GGPS3): +1% (+44% do Ibovespa)
No outro extremo estão casos como Raízen (-96%), Oncoclínicas (-97%) e Grupo Toky (-98%), que viram suas ações praticamente serem reduzidas a pó desde as ofertas na bolsa.
Com uma Selic capaz de entregar retornos reais elevados e bem menos volatilidade, a comparação acaba sendo inevitável: para muitos investidores, o prêmio oferecido pela renda fixa voltou a parecer mais interessante do que assumir riscos adicionais na bolsa.
Nem quem está na bolsa parece totalmente otimista
Apesar da cautela dos investidores locais, a B3 continua sendo movimentada principalmente pelo capital estrangeiro, que responde por 61,1% do volume negociado em 2026, segundo o BTG.
Mas isso não significa, necessariamente, confiança no mercado brasileiro.
Segundo o BTG, o short-interest ratio — indicador que mede o volume de posições vendidas, ou seja, apostas na queda das ações — subiu para 3,74%, acima da média de 3,61% observada nos últimos doze meses.
Em outras palavras, parte relevante dos investidores que seguem ativos na bolsa continua apostando justamente na queda dos papéis.
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