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Produtores e sommeliers analisam o cenário atual da produção vinícola californiana e apontam os caminhos para um futuro incerto, mas que aposta na resiliência e na reinvenção
A Califórnia é muito mais do que Hollywood, Vale do Silício e praias ensolaradas. É que o estado mais populoso dos Estados Unidos abriga também uma das regiões vitivinícolas mais prestigiadas do mundo, com vinhos que competem – e frequentemente superam – os clássicos europeus. Desde o histórico Julgamento de Paris, em 1976, quando rótulos californianos venceram degustações às cegas frente a ícones franceses, o estado se consolidou como sinônimo de inovação e diversidade no universo do vinho.
Com mais de 4.200 vinícolas espalhadas por cerca de 250 mil hectares de vinhedos, o estado responde por cerca de 80% de toda a produção vinícola dos EUA e figura entre as quatro maiores potências do mundo, ao lado de França, Itália e Espanha. De Napa a Paso Robles, de Sonoma a Santa Bárbara, a Califórnia tem uma diversidade de terroirs capaz de produzir desde vinhos sofisticados, como o lendário Opus One, até rótulos acessíveis e descomplicados, que conquistam o público jovem.

Contudo, por trás da fachada ensolarada, a indústria vinícola do Golden State atravessa o que muitos consideram o seu momento mais crítico em décadas. Uma confluência de fatores ambientais, mudanças no perfil de consumo e um complexo cenário econômico colocam em xeque o futuro de um setor que é um pilar da cultura e da economia local.
Mas o que torna o terroir californiano tão especial? E quais os desafios e oportunidades que moldam o futuro da vitivinicultura local? Para responder a essas questões, conversamos com produtores e sommeliers, que ainda sugerem bons rótulos para se aventurar pelos vinhos da Califórnia.
O vinho californiano tem raízes históricas que remontam ao século 18, quando missionários espanhóis plantaram as primeiras videiras para produzir vinho sacramental. Durante o período da Corrida do Ouro, imigrantes europeus trouxeram mudas de castas francesas e italianas, marcando, assim, o início da viticultura comercial.
Mas o grande divisor de águas foi o Julgamento de Paris, em 1976. Em uma degustação às cegas organizada pelo crítico britânico Steven Spurrier, vinhos de Napa Valley derrotaram rótulos clássicos da Borgonha e de Bordeaux: o Chateau Montelena Chardonnay 1973 e o Stag’s Leap Wine Cellars Cabernet Sauvignon 1973 ficaram em primeiro lugar, surpreendendo o mundo.
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“Vencer famosos vinhos franceses era praticamente impensável, e ter um vinho branco e um tinto como vencedores colocou a Califórnia como uma grande produtora”, lembra Thamirys Schneider, sommelier do Grupo Wine.
De lá para cá, o estado virou sinônimo de inovação e criatividade. Robert Mondavi, talvez o enólogo mais importante da Califórnia, ajudou a popularizar práticas modernas, como a colheita seletiva, fermentação controlada e uso de barris de carvalho francês, por exemplo, elevando o nível técnico dos vinhos locais.
Para entender os vinhos californianos, é preciso primeiro compreender seu terroir. Paula Tabalipa, da vinícola californiana Tabalipa Wine Co., resume: “O que torna o vinho californiano único é a diversidade: de solos, microclimas, produtores e estilos.”
E na Califórnia esses fatores criam um mosaico de condições que permite, dessa forma, uma diversidade impressionante.
“O clima é predominantemente mediterrâneo, com verões quentes e invernos amenos e úmidos, assim como no sul da França e Itália", aponta Thamirys Schneider. “A influência do Oceano Pacífico como regulador de temperatura, assim como responsável pela neblina costeira, é um fator natural importante que contribui para a singularidade e qualidade dos vinhos.”
Essa neblina, que avança pelas baías e vales nas manhãs e finais de tarde, funciona como um ar-condicionado natural, permitindo que as uvas amadureçam lentamente, desenvolvendo complexidade de sabores enquanto preservam a acidez.
A geografia também é protagonista.
“Há vinhedos desde as encostas de montanhas até fundos de vales em áreas mais planas”, diz Schneider. Essa variedade de relevos e altitudes, somada a uma vasta gama de solos, “de aluvião a argila”, como completa Elaine de Oliveira, sommelier e professora da Le Cordon Bleu, permite o cultivo de um leque amplo de uvas.

Se o terroir fornece a matéria-prima, é a mentalidade inovadora que molda o vinho californiano e sua resposta à crise atual. Como aponta a sommelier Thamirys Schneider, os produtores locais se beneficiam da “liberdade de criação e experimentação com muita inovação tecnológica e enológica”.
Essa cultura, que já colocou a Califórnia no mapa mundial, hoje é a principal ferramenta para construir resiliência climática e buscar relevância junto a um novo perfil de consumidor.
“O modelo californiano tem muita liberdade com como podemos fazer o nosso vinho em comparação com a Europa. Aqui, temos liberdade para expressar criatividade, mas sem o peso de regras rígidas. Temos também um forte engajamento com certificações de sustentabilidade, como o SIP Certified”, enfatiza Paula Tabalipa.
“Isso traz uma modernidade que complementa o respeito ao terroir diferente de muitas regiões europeias, que seguem tradições bem estabelecidas. Nós, por outro lado, temos mais flexibilidade para experimentar e adaptar”, completa a produtora.
No vinhedo, a inovação vai além da sustentabilidade e avança para a agricultura regenerativa, abordagem que busca melhorar o ecossistema, focando na saúde do solo para aumentar a biodiversidade. Em paralelo, porém, a tecnologia de precisão, com o uso de drones e sensores, permite um manejo mais eficiente da irrigação e dos nutrientes, otimizando a qualidade da colheita.
Essa busca por adaptação se estende à escolha das uvas e à vinícola. Há uma exploração deliberada de variedades mais resistentes ao calor, como Grenache, Tempranillo e Vermentino, por exemplo, que atendem tanto à necessidade climática quanto ao desejo do consumidor por novidade.
“O resultado é uma produção com uma tendência mais criativa e tecnológica, mas com liberdade criativa que atraiu enólogos renomados do mundo todo para este lugar, e possibilita a criação de vinhos fora do comum, ousados e expressivos”, resume Schneider.

“Nem tudo são uvas maduras e brisas frescas”, alerta Elaine de Oliveira, já que a indústria californiana enfrenta uma crise multifacetada. Um relatório preliminar divulgado pelo Departamento de Alimentos e Agricultura da Califórnia trouxe notícias pouco otimistas.
A safra de 2024 foi a mais leve em duas décadas, com uma colheita total de 2,84 milhões de toneladas, uma queda de 22% em relação a 2023, que ultrapassou três milhões e meio de toneladas. A safra de Cabernet Sauvignon, por exemplo, teve baixa de 31% em relação a 2023.
Entre as áreas afetadas está Central Coast, que abriga regiões produtoras como Santa Lucia e Santa Barbara, e North Coast, onde estão as famosas regiões de Sonoma e o Napa Valley.
Além disso, cerca de 100 mil toneladas de uvas não foram colhidas, evidenciando desafios para o setor. Um relatório do Silicon Valley Bank indicou que o consumo de vinho entre jovens adultos segue abaixo das gerações anteriores, o que exige novas estratégias de mercado.
Em meio ao cenário, enólogos usam técnicas para criar vinhos de alta qualidade com baixo ou nenhum teor alcoólico, além de usar o marketing digital para se conectar com um público mais jovem e tecnológico. É o que destaca o report: a resiliência dos produtores, que buscam superar o momento desafiador.
Os fatores por trás desses números são complexos e interligados. “As mudanças climáticas já impactam a viticultura com colheitas mais precoces, chuvas e ondas de calor com os fogos”, reflete Paula Tabalipa.
“Eventos climáticos extremos são questões que precisam de muita atenção”, frisa Thamirys Schneider, citando as ondas de calor, a crise hídrica causada pela seca extrema e prolongada, e os recorrentes incêndios florestais. Além do risco de destruição, os incêndios causam o smoke taint, uma contaminação pela fumaça que impregna as uvas e compromete o sabor do vinho.
O aumento nos custos de produção, a falta de mão de obra agrícola – agravada por “políticas migratórias mais restritivas”, segundo Schneider – e a forte concorrência de vinhos importados pressionam as margens dos produtores. Isso acelera a consolidação da indústria, forçando produtores menores a fechar as portas.
Outro grande desafio é a mudança no consumidor. As gerações mais jovens não estão adotando o vinho como as anteriores – exemplo é o aumento no consumo dos Ready-To-Drink, coquetéis prontos vendidos em latas, cujo volume quase dobrou na Califórnia entre 2019 e 2024.
Em contrapartida, o low-and-no chega forte em 2025, como aponta o The Economist, tendência sustentada por Schneider: “As pessoas têm consumido menos bebidas alcoólicas, e há uma crescente por bebidas com menos álcool ou sem álcool”, observa a sommelier.
Apesar do cenário, a resiliência californiana se manifesta.
“Como bons californianos, eles seguem resilientes, investindo em inovação, sustentabilidade e manejo consciente do vinhedo”, diz Elaine de Oliveira. A resposta passa pelas já citadas agricultura regenerativa, tecnologias de precisão para economizar água, desenvolvimento de vinhos com baixo teor alcoólico e diversificação de uvas.
“O futuro é promissor, com vitivinicultura mais consciente e alinhada ao clima, além de estilos mais precisos, frescos e autênticos que dialogam com uma nova geração de consumidores”, completa Tabalipa.
A diversidade de terroirs se reflete no portfólio de uvas do estado. Algumas se tornaram emblemáticas, definindo o estilo californiano para o mundo.
A Cabernet Sauvignon é a rainha das tintas, especialmente em Napa Valley. “Essa uva gosta de climas e solos mais quentes”, conta Thamirys Schneider, e na Califórnia, ela produz vinhos de perfil “mais encorpado, com bastante concentração frutada, taninos maduros e firmes”.
Considerada uma uva ícone californiana, segundo Schneider, a Zinfandel é outra casta emblemática. “É outra uva que se adapta ao calor e produz vinhos concentrados e frutados, de alto teor alcoólico e taninos macios. Além dos famosos tintos, também dá vida ao popular White Zinfandel, que, apesar do nome, é um rosé leve, frutado e com perfil mais adocicado”.
Já a delicada Pinot Noir encontra seu lar nas áreas mais frias, como Russian River Valley e Sonoma Coast. “Nas áreas mais frias da Califórnia, essa uva expressa toda sua delicadeza, complexidade e elegância", explica Schneider. Os vinhos se assemelham aos da Borgonha, mas com uma assinatura de “mais concentração frutada”.

O clima californiano ainda tende a produzir vinhos de Merlot macios e redondos, “suavizando, assim, os taninos e acentuando ainda mais o caráter frutado”.
Apesar do domínio dessas variedades, porém, a Califórnia está em plena diversificação. Diante das mudanças climáticas, “muitos produtores têm testado uvas com maior resistência ao calor, como Grenache, Mourvèdre e Tempranillo”, revela Schneider. Paula Tabalipa ainda cita Vermentino e Chenin Blanc, especialmente no sul do estado.
Para navegar pela vasta e deliciosa produção californiana, as entrevistadas indicam alguns de seus rótulos preferidos.
“Um Chardonnay vibrante e bem equilibrado, que combina fruta tropical, toque amanteigado com aquela leve pincelada da madeira. Ótimo para quem quer começar a explorar os brancos californianos com estilo”. Quem descreve é Elaine de Oliveira em sua primeira indicação, o Selection Chardonnay, da Robert Mondavi Winery.

Outra indicação de Oliveira é o La Masía Pinot Noir da Marimar Estate Winery. “Marimar é uma das mulheres mais emblemáticas do universo do vinho. E o Pinot Noit que ela faz na sua propriedade na região de Russian River é pura elegância. Frutas vermelhas frescas, especiarias sutis e uma delicadeza que encanta.”

A sommelier também cita o Opus One, “o vinho mais icônico dos Estados Unidos. Um corte bordalês que nasceu da parceria entre Robert Mondavi e a família Rothschild. É intenso, profundo, complexo… e sim, caro, mas cada gole entrega uma aula de sofisticação”.

Por fim, Oliveira destaca o Reserve Zinfandel da Haywood Winery. “A Zinfandel é praticamente um símbolo americano. E esse rótulo da Haywood é daqueles que mostra o que essa uva pode ser de melhor: encorpado, cheio de fruta preta madura, pimenta-do-reino e um toque de baunilha. Um vinho com pegada e alma”.

Paula Tabalipa se orgulha de seu Estate Syrah 2023, que marca a estreia do portfólio de vinhos tintos da casa. “Macio e envolvente, encanta com aromas de frutas azuis e negras maduras, pimenta-preta e notas salgadas de bacon. Expressivo e prazeroso, promete evoluir com ainda mais graça com o tempo em garrafa”.

Na Tabalipa Wine Co. ainda é produzido o N⁰ 1 Rosé, “elegante e sedutor, reúne toda a vivacidade e frescor que se espera de um rosé seco, mas com estrutura e complexidade suficientes para conquistar até os paladares mais exigentes”.

Das vinícolas do Orin Swift Cellars, no Vale do Napa, o Papillon 2021, composto por todas as cinco variedades de Bordeaux, é indicação de Thamirys Schneider. “A força bruta e o prestígio do Cabernet Sauvignon, sustentados pela opulência do Merlot, o picante do Cabernet Franc, a profundidade do Malbec e a pura untuosidade do Petit Verdot, combinam-se perfeitamente em um blend que surpreende com sua potência e grande representativo de sua região. Um exemplar espetacular, mas para paladares exigentes”.

Outro rótulo da Orin Swift Cellars destacado por Schneider é o Machete 2019, composto por um blend de Petite Sirah, Syrah e Grenache. “Uma assinatura autêntica da Califórnia em um vinho rico em aromas, sabores e texturas. Com uvas provenientes das melhores vinhas da Califórnia, este exemplar é intenso e ousado, com sedutoras camadas aromáticas, e grande complexidade no paladar. Um vinho californiano fora do convencional”.

Schneider cita ainda o Apothic Red 2021, um blend de uvas tintas cultivadas nas áreas de Lodi e Central Valley. “Uma rica mistura de Zinfandel, que lidera o blend e aporta notas de cereja preta, amora e pimenta-preta, com Syrah e Merlot que adicionam notas de frutas pretas maduras, dimensão e profundidade com notas de especiarias. Um exemplar descomplicado e que, portanto, agrada com facilidade”.

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