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DECISÃO DO FED

Juros voltam a cair nos EUA à sombra da falta de dados; ganho nas bolsas dura pouco com declarações de Powell

Enquanto o banco central norte-americano é iluminado pelo arrefecimento das tensões comerciais entre EUA e China, a escuridão provocada pelo shutdown deixa a autoridade monetária com poucas ferramentas para enxergar o caminho que a maior economia do mundo vai percorrer daqui para frente

Montagem traz um gráfico de ações colorido de fundo, com o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em primeiro plano. Ele veste terno e segura uma lanterna.
Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) - Imagem: Montagem Seu Dinheiro/ Canva Pro

A inteligência artificial (IA) define o conceito de luz e sombra assim: a primeira ilumina, enquanto a segunda surge em consequência da interrupção por um objeto. E foi justamente o que aconteceu com o Federal Reserve (Fed) na decisão desta quarta-feira (29), quando cortou os juros pela segunda vez neste ano, em 0,25 ponto percentual (pp), colocando a taxa na faixa entre 3,75% e 4,00% ao ano, e que trouxe junto a data para o fim da redução da carteira de títulos.

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Enquanto o banco central norte-americano era iluminado pelo arrefecimento das tensões comerciais entre EUA e China — os presidentes Donald Trump e Xi Jinping devem se reunir nesta quinta-feira (30) — de outro, a escuridão provocada pelo shutdown deixa a autoridade monetária com poucas ferramentas para enxergar o caminho que a maior economia do mundo vai percorrer daqui para frente. 

“A flexibilização da política monetária do Fed sem o suporte de dados robustos aumenta o risco de erro e mina a credibilidade, sugerindo uma postura de cautela e manutenção por parte da autoridade monetária norte-americana, até que os dados voltem a ser publicados”, disse Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos. 

Não à toa, a decisão de hoje de cortar os juros não foi unânime: o diretor Stephen Miran e o presidente da unidade do Fed de Kansas City, Jeffrey Schmid, divergiram da decisão.

Miran, que acumula o cargo de presidente do Conselho de Assessores Econômicos Casa Branca e já criticou diversas vezes o nível elevado dos juros nos EUA, votou por uma redução maior, de 0,50 pp. Já Schmid defendeu manutenção da taxa no nível de 4,00% a 4,25%.

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Ainda sem muitas pistas do que está por vir e diante das divergências, o mercado inicialmente gostou do que viu. Em Wall Street, as bolsas aceleraram a trajetória de alta depois de, na sessão anterior, renovarem recordes de fechamento. Logo após a decisão, o Dow Jones subia 0,30%, enquanto o S&P 500 e o Nasdaq tinham alta de 0,22% e 0,58%, respectivamente. 

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O yield (rendimento) dos títulos do Tesouro norte-americano de 2 anos, mais sensíveis às mudanças de política monetária, subia a 3,523%, o da T-note de dez anos avançava a 4,020% e o de 30 anos subia para 4,592%, após renovarem as máximas do dia.

Por aqui, o Ibovespa manteve a trajetória de alta vista antes da decisão, avançando 0,98%, aos 148.884,19 pontos. No mercado de câmbio, o dólar à vista seguiu em queda: -0,26%, cotado a R$ 5,3457. 

Mas quando Jerome Powell, presidente do Fed, começou a coletiva, Wall Street devolveu os ganhos e começou a operar em queda. O Dow Jones passou a cair 0,26%, o S&P 500 e o Nasdaq recuavam 0,36% e 0,04%. O Ibovespa se manteve em alta, mas o dólar à vista zerou as perdas em linha com o fortalecimento da moeda norte-americano no exterior.

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Fed explica a decisão de cortar juros e encerrar carteira de títulos

Sob as sombras da paralisação do governo norte-americano, o Fed disse que a decisão de hoje acontece em meio à elevada incerteza sobre as perspectivas econômicas e que o comitê de política monetária (Fomc, na sigla em inglês) considera que os riscos de queda para o emprego aumentaram nos últimos meses.

Vale lembrar que mesmo antes do shutdown, já havia indícios de que, embora as demissões tivessem sido controladas, o ritmo de contratações nos EUA havia estagnado. Ao mesmo tempo, a inflação se mantém acima da meta anual de 2% do Fed.

Na semana passada, o relatório do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) trouxe uma taxa anual de 3%, impulsionada pelo aumento dos custos de energia, bem como por diversos itens com ligações diretas ou indiretas às tarifas de Trump.

"Os indicadores disponíveis sugerem que a atividade econômica tem se expandido a um ritmo moderado. A criação de empregos desacelerou este ano, e a taxa de desemprego subiu ligeiramente, mas permaneceu baixa até agosto; indicadores mais recentes são consistentes com esses desenvolvimentos. A inflação acelerou desde o início do ano e permanece um pouco elevada", diz o comunicado.

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Cada uma dessas caracterizações representa ajustes em relação ao comunicado de setembro. A mudança mais significativa é a visão sobre a atividade econômica norte-americana. No mês passado, o Fomc afirmou que a atividade havia se moderado.

Junto com a decisão de cortar os juros pela segunda vez neste ano, o Fomc informa que vai concluir a redução de compra de títulos, conhecida como quantitative tightening (aperto quantitativo) em 1º de dezembro, sem fornecer mais detalhes sobre o assunto.

Na semana passada, os mercados de financiamento overnight enfrentaram alguma tensão, o que sinalizou ao Fed que, à medida que o aperto quantitativo gradualmente drenou as reservas bancárias, o setor financeiro não está mais inundado de dinheiro.

A lanterna de Powell a trajetória dos juros derruba as bolsas

Como era de se esperar, o presidente do Fed não indicou o que deve acontecer na última reunião de política monetária do ano, marcada para os dias 9 e 10 de dezembro, afirmando que as decisões não seguem um curso predeterminado.

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Powell, no entanto, jogou alguma luz sobre com o Fomc vê a economia dos EUA. Ele começou a coletiva afirmando que as perspectivas não mudaram muito desde setembro mesmo com a ausência de dados por conta da paralisação do governo norte-americano.

"O crescimento da economia norte-americana pode estar mais forte do que o esperado, o gasto dos consumidores segue forte, mas o setor imobiliário apresenta alguma fraqueza. A demanda por mão de obra diminuiu e as evidências sugerem que as demissões continuam", disse.

Mas o que derrubou os mercados foi quando o chefe do Fed afirmou que o corte de juros na reunião de dezembro não está garantida.

"Uma nova redução nos juros na reunião de dezembro não é uma conclusão inevitável", disse. “Cortamos 0,25 pp nas últimas duas reuniões e há forte sentimento que é hora de pausar”, acrescentou.

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De acordo com Powell, diante da tensão existente nos dois lados do mandato do Fed — pleno emprego e estabilidade de preços com a inflação em 2% —, opiniões diferentes no Fomc tiveram um "nível intenso".

"Houve opiniões fortemente divergentes hoje, e a conclusão disso é que não tomamos uma decisão sobre dezembro", reforçou.

Questionado sobre o shutdown, Powell afirmou que não é possível saber o efeito da paralisação sobre a decisão de dezembro. O shutdown causou um apagão de dados e já dura quase um mês, se transformando no segundo maior da história dos EUA.

No entanto, o presidente do Fed fez questão de afirmar que a paralisação é temporária, e que enquanto durar, o Fed coletará todos os dados que puder, avaliando e pensando cuidadosamente sobre eles.

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"Não estou dizendo que vai [afetar a decisão de dezembro]. Se você está dirigindo no nevoeiro, diminui a velocidade, então isso [shutdown] poderia impactar ou não. Eu não sei como isso vai influenciar as coisas", disse.

Segundo Powell, a decisão de dezembro ainda está muito longe e muita coisa pode acontecer até lá. "Dados sugerem certa resiliência da economia dos EUA a riscos", disse ele, acrescentando que o mercado de trabalho norte-americano não está em declínio rápido, mas sim em uma desaceleração lenta.

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