Onde investir no 2º semestre: Com Trump no poder e dólar na berlinda, especialistas apontam onde investir no exterior, com opções nos EUA e na Europa
O painel sobre onde investir no exterior contou com as participações de Andressa Durão, economista do ASA, Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, e Bruno Yamashita, analista da Avenue
Donald Trump atuou nos primeiros seis meses de 2025 como uma das principais fontes de instabilidade internacional. Como nada indica que ele mudará de comportamento, é provável que as incertezas persistam não apenas durante o segundo semestre do ano, mas por todo o restante do mandato do presidente norte-americano.
Diante disso, quem investe no exterior está de olho em outros destinos que não os EUA para suas economias. Quem tende a se beneficiar muito com isso nos próximos meses é a Europa, segundo os participantes do painel sobre investimentos no exterior, da série do Seu Dinheiro sobre Onde Investir no Segundo Semestre de 2025.
Se não for por causa da guerra comercial, vai ser por outras questões da agenda de Donald Trump, como temas regulatórios ou imposto, afirma Andressa Durão, economista do ASA.
O que talvez seja diferente a partir de agora é que não haverá surpresa ou frustração com a postura de Trump, diz Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research e colunista do Seu Dinheiro.
Para Bruno Yamashita, analista de alocação e inteligência da Avenue, a tendência é que os participantes do mercado passem a olhar mais para o cenário micro no que se refere aos Estados Unidos, investindo em cases específicos de empresas ou setores.
Andressa Durão, Bruno Yamashita e Matheus Spiess foram os convidados do painel sobre onde investir no exterior.
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Esta matéria faz parte de uma série especial do Seu Dinheiro sobre onde investir no segundo semestre de 2025. Eis a lista completa:
- Cenário macroeconômico
- Renda fixa
- Ações e dividendos
- Fundos imobiliários
- Criptomoedas
- Investimentos internacionais (você está aqui)
- Alocação de carteira
Onde investir no exterior
A Europa desponta como um destino promissor para se investir fora do Brasil neste momento.
“A Europa pegou um timing bom com esse afastamento dos Estados Unidos e a decisão de estimular a economia”, afirma Andressa Durão.
Há ressalvas, no entanto. Uma delas é que os estímulos podem demorar a pegar, diz ela.
Diante disso, o ASA mantém no radar o risco de uma recessão global nos próximos meses, com investidores correndo para o dólar como porto seguro em um cenário de aversão ao risco.
Matheus Spiess, por sua vez, chama a atenção para o fato de o brasileiro investir pouco no exterior.
O estrategista recomenda que o investidor mantenha de 15% a 30% de sua carteira lá fora, sem grandes loucuras, concentrando-se em ativos saudáveis e levando em conta a tolerância de exposição ao risco de cada um.
Para ele, embora com menos espaço, os Estados Unidos se manterão no centro da economia global ainda por muito tempo e é importante ter uma parcela relevante dos investimentos internacionais por lá.
Em relação à Europa, ele é favorável a direcionar investimentos especificamente ao setor de defesa.
Embora admita o fato de se tratar de uma tese polêmica, Spiess considera que o acordo para o aumento do orçamento de defesa entre os países europeus beneficiará o setor nos próximos meses.
Bruno Yamashita, por sua vez, chama a atenção no mercado de renda fixa de dívida corporativa norte-americana, especialmente para quem pensa num prazo mais longo.
“Principalmente daquelas empresas que a gente chama de grau de investimento, com balanços saudáveis, sem problemas de endividamento e posição dominante no mercado”, diz ele.
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Quem se arrisca a prever o dólar?
“Os Estados Unidos não vão deixar de ser os Estados Unidos. O que parece ocorrer é uma inversão de dinâmica na qual o curto prazo parece mais incerto do que o longo prazo”, afirma Spiess, citando análise da casa de research Gavekal.
Nesse sentido, grande parte da apreciação relativa de moedas como o real e o euro entram na conta das incertezas de curto prazo provocadas por Donald Trump. Elas favorecem uma rotação de recursos que tem como uma de suas consequências o enfraquecimento do dólar em escala global.
“É claro que o real se beneficia dessa dinâmica”, afirmou Matheus Spiess, depois de brincar que prever o dólar é o cemitério dos economistas.
No momento, porém, parece haver certa margem de segurança para antecipar pelo menos o rumo do real ante o dólar. “Até porque tem muito ativo descontado no Brasil, há muito tempo”, diz Spiess.
Além disso, o fato de os juros estarem muito altos no Brasil fortalece o chamado carry-trade, por meio do qual os investidores arbitram as taxas e buscam tirar proveito da volatilidade de moedas emergentes para acelerar os ganhos.
“Existe um espaço para um fortalecimento salutar do real frente ao dólar”, afirma o estrategista da Empiricus.
A ampliação desse espaço, segundo ele, vai depender da manutenção do enfraquecimento do dólar frente a outras moedas e da possibilidade de um “rali eleitoral” baseado na chance de uma eventual mudança do pêndulo político no Brasil nas eleições do ano que vem.
Onde não investir no exterior
Se a Europa desponta como um dos destinos apontados pelos participantes do painel sobre onde investir no exterior no segundo semestre, há uma classe de ativos na qual é melhor não investir agora. Estamos falando de commodities.
Em junho, por exemplo, o envolvimento dos Estados Unidos na breve guerra entre Irã e Israel até provocou uma alta na cotação do petróleo, mas tímida em relação aos piores cenários.
Para Andressa Durão, parte do atual desinteresse por commodities em geral deriva da perspectiva de uma desaceleração da economia global em 2025, em grande medida por causa do que vem ocorrendo nos Estados Unidos sob Trump.
Há uma exceção, no entanto: o ouro.
O metal precioso vem renovando sucessivamente suas máximas históricas ao longo dos últimos anos. Ainda assim, a Empiricus mantém sua tese construtiva para o ouro, afirma Spiess.
“Além de ser a principal reserva de valor da história da humanidade, existe uma forte demanda por ouro por parte de autoridades monetárias ao redor do mundo”, diz ele.
O principal motor dessa demanda é a crescente tensão geopolítica desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, mas não é a única.
“Os próximos anos continuam incertos”, diz Spiess.
“Se a inflação aumenta por causa da guerra comercial, o ouro se beneficia. Se os juros norte-americanos caem, o ouro se beneficia. Se os bancos centrais continuam fortalecendo suas reservas em ouro, ele também se beneficia.”
Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research.
Para Andressa Durão, trata-se de uma questão estrutural. Isso significa o vislumbre de uma tendência de apreciação do ouro no longo prazo.
EUA, China e a disputa pela primazia na IA
Embora o mercado de ações norte-americano esteja em segundo plano no momento, o interesse por papéis de empresas de tecnologia continua vivo, principalmente daquelas envolvidas no desenvolvimento das inteligências artificiais.
No início do ano, o advento da DeepSeek mostrou aos investidores que é possível desenvolver IAs eficientes e por um custo muito inferior ao que vinha sendo observado até ali.
Além disso, o “DeepSeek day” mostrou que os chineses estão muito mais avançados do que supunha a maioria dos analistas do setor.
Só a concorrência entre Estados Unidos e China já seria suficiente para sustentar uma perspectiva positiva para o setor de tecnologia, afirma Bruno Yamashita.
Mas o analista de alocação e inteligência da Avenue vai além e cita a Apple como exemplo: “Quantos negócios não surgiram anos depois por causa da chegada do iPhone em 2007, 2008?”
“A inteligência artificial é uma tese secular, que vai estar em diferentes frentes, seja em carros autônomos, na parte de chat, no desenvolvimento de softwares e por aí vai”, afirma Yamashita.
Isso permite imaginar como será daqui a alguns anos, diz ele. “Não vai ser uma empresa só que vai dominar todo o espaço. Tem muita coisa que a gente ainda não conhece surgindo. Dá para fazer muita coisa legal com muito menos capital.”
Nesse sentido, ele considera que as atuais big techs serão aquelas que vão suprir a infraestrutura para que empresas menores consigam se estabelecer e desenvolver novos produtos.
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