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A estatal está programada para apresentar nesta quinta-feira (27) o novo plano de negócios para os próximos cinco anos; o Seu Dinheiro foi atrás de pistas para contar para você o que deve ser divulgado ao mercado
Há pouco mais de um mês, o Brasil se perguntava — de novo — quem matou Odete Roitman. Agora, o que todo mundo quer saber — pelo menos no mercado financeiro — é como será o plano estratégico 2026-2030 da Petrobras (PETR4), previsto para ser divulgado nesta quinta-feira (27).
Assim como a autora Manuela Dias tomou todo o cuidado para o final de Vale Tudo não vazar, a Petrobras também não antecipa os números do plano, mas o Seu Dinheiro foi atrás de pistas para entender o que está por vir, especialmente porque o planejamento contemplará um ano eleitoral.
A primeira coisa a se saber é que o documento não é aguardado pelo mercado à toa: ali estará o direcionamento da Petrobras para os próximos cinco anos, com destaque para o nível de investimento e setores que serão priorizados — dados usados por analistas para mensurar, por exemplo, as perspectivas de pagamento de dividendos da estatal.
Cálculos feitos pelo Seu Dinheiro com base na expectativa do mercado mostram que os investimentos da Petrobras — o chamado capex — devem ser de US$ 5 bilhões a US$ 8 bilhões menores do que os previstos no plano de 2025 a 2029.
O Bradesco BBI espera cortes no capex um pouco menores, da ordem de US$ 3 bilhões, no novo plano para cinco anos, com cerca de US$ 1 bilhão previsto para acontecer no próximo.
A explicação para a perspectiva de redução está no preço do petróleo. O barril do Brent, usado como referência internacional, estava na casa dos US$ 80 no último plano da estatal e agora ronda os US$ 65 o barril.
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Ainda de acordo com o BBI, as premissas para o preço do barril devem cair drasticamente, de US$ 83 o barril no curto prazo em 2025 para cerca de US$ 60 em 2026, e para a faixa de US$ 60 a US$ 65 o barril no longo prazo, ante US$ 68 anteriormente.
Além do capex, o endividamento da Petrobras também é um ponto de atenção para o mercado — e, para essa linha do novo plano estratégico, a estatal deu um spoiler.
O diretor financeiro da companhia, Fernando Melgarejo, disse na ocasião da teleconferência de resultados do terceiro trimestre que o plano de negócios para os anos de 2026 a 2030 não deve trazer mudanças para a distribuição de dividendos, nem para o teto da dívida da companhia.
O limite da dívida hoje é de US$ 75 bilhões e a Petrobras chegou a quase US$ 71 bilhões com as últimas emissões.
Embora não tenha antecipado números, Melgarejo afirmou que o que tem sido discutido no planejamento é a produção da companhia.
Segundo o executivo, do ponto de vista de opex (despesas operacionais) e capex a Petrobras tem tido muita cautela, em função do preço do Brent.
“Para 2026 temos pouca flexibilidade de capex”, afirmou Melgarejo, complementando que a companhia deve cumprir os investimentos já contratados. “Para o longo prazo, podemos postergar o que não foi contratado.”
Na ocasião, a diretora de engenharia, tecnologia e inovação da Petrobras, Renata Baruzzi, complementou afirmando que “não está na mesa parar projetos”. “Temos mais flexibilidade [de ajuste] nos projetos que ainda estão em avaliação”, disse.
Na visão da Ativa Investimentos, o mercado recebeu bem as sinalizações de que o teto de endividamento será mantido em US$ 75 bilhões, assim como a política de dividendos e viu com bons olhos a cautela da companhia sobre a execução do opex e do capex.
A expectativa do mercado em torno do pagamento de dividendos da Petrobras era tão grande quanto a dos telespectadores para saber qual seria o final de Odete Roitman no remake — só que, diferente do desfecho de Vale Tudo, que desagradou muita gente, a estatal entregou proventos acima do projetado pelo mercado.
Junto com os resultados do terceiro trimestre, a Petrobras anunciou R$ 12,6 bilhões em proventos — valor pelo menos R$ 1 bilhão acima das projeções obtidas pelo Seu Dinheiro para o período e que deu margem para que o mercado passasse a se perguntar se a companhia pode ser mais generosa nos pagamentos daqui para frente, especialmente diante da perspectiva de uma produção maior.
Ruy Hungria, analista da Empiricus Research, diz que se a Petrobras mantiver constância em algumas premissas como capex, despesas e produção, a tendência é a distribuição de dividendos da estatal diminuir.
Neste sentido, ele chama atenção para o aumento do capex no terceiro trimestre de 2025 na comparação com os trimestres anteriores, e para o endividamento próximo do teto de US$ 75 bilhões (quase US$ 71 bilhões).
“Sinalizações de redução de investimentos desnecessários ou corte de gastos no Plano Estratégico 2026-2030 serão muito bem-vindos”, afirma Hungria, fazendo outra ponderação importante:
“Projetos com baixo retorno estão sendo avaliados e os recursos para eles podem deixar de ser investidos e transformados em dividendos. Além disso, podemos ver uma revisão para cima na produção, o que amenizaria parcialmente a queda do preço do petróleo”.
Daniel Cobucci, analista do BB Investimentos, diz que a Petrobras será obrigada a fazer escolhas delicadas no próximo plano de negócios, considerando que o preço pressionado do petróleo pode entrar em conflito com "as elevadas expectativas que o mercado tem em relação aos dividendos e à baixa alavancagem".
O Bradesco BBI, por sua vez, prevê uma redução no dividend yield nos próximos trimestres, diante de maior atividade em fusões e aquisições — como leilões de exploração e produção (E&P) e investimentos em etanol de milho —, com o retorno projetado para cair de 10% em 2025 para 8% em 2026.
De toda forma, uma coisa é certa: a Petrobras não vai propor alterações na política de dividendos no novo planejamento estratégico. E quem diz isso é o CFO da companhia.
Segundo Melgarejo, o momento é de prudência tanto em relação à distribuição de proventos quanto a possíveis operações de fusões e aquisições (M&A).
“A palavra para dividendos, fusões e aquisições é cautela. Não temos nenhuma discussão em curso sobre mudança de política. Entendemos que ela é sustentável”, afirmou o executivo na ocasião da apresentação dos resultados do terceiro trimestre de 2025.
“Em M&A, tudo o que fazemos precisa criar valor e garantir geração de caixa sustentável no longo prazo, com alocação de capital que faça sentido. Nada será feito se essas condições não forem observadas. E, se houver uma pressão muito grande do Brent, temos a possibilidade de postergar qualquer investimento que ainda não esteja contratado”, acrescentou.
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Assim como em uma novela, o novo plano estratégico da Petrobras pode enfrentar reviravoltas apesar das previsões — 2026 é um ano marcado por eleições no Brasil.
Nos bastidores, circula a notícia de que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e a diretora da Petrobras entraram em um impasse em torno do planejamento da estatal, que incluirá o ano eleitoral.
De um lado, os executivos da companhia defendiam uma revisão do programa diante da queda do petróleo e, de outro, a administração petista resistia a cortes dos números.
Vale lembrar que manter investimentos em meio à possibilidade de receitas menores pode elevar a dívida da companhia e reduzir o pagamento de dividendos aos acionistas, entre eles, a própria União.
“Existe sempre o risco de o governo querer aumentar o capex em ano de eleição”, diz Hungria, da Empiricus.
No mês passado, Lula disse estar “convencido de que a Petrobras ainda não deu tudo o que tem que dar ao povo brasileiro”. Sem citar nomes, o petista ainda afirmou que a petroleira foi desmontada no passado com o argumento de que “não precisava de investimento”.
A CEO da Petrobras, Magda Chambriard, havia afirmado dois meses antes que o programa de investimentos da companhia seria revisto diante da queda do petróleo. Na ocasião da apresentação dos resultados do segundo trimestre, a executiva afirmou a investidores que projetos quase prontos e maduros para execução haviam entrado em reavaliação.
“Quando olhamos para eles [projetos] em um novo patamar de preço, eles voltam para o portão dois [fase anterior] para serem otimizados, exatamente por conta do preço do petróleo", afirmou Chambriard em 8 de agosto. Ela não participou da teleconferência de resultados do terceiro trimestre, realizada em 7 de novembro.
Em meio às discussões com o governo, Chambriard publicou no mês passado em rede social um gráfico que mostra a queda do petróleo desde meados de setembro. “Uma figura vale mais do que muitas palavras”, escreveu ela, sem detalhar.
O Itaú BBA classifica a possibilidade de uma redução nos investimentos em 2026 como um ponto central para a Petrobras.
"O sentimento dos investidores tem sido misto: enquanto alguns acreditam na concretização desse cenário [redução dos gastos], outros permanecem céticos", afirma a equipe da analista Monique Martins Greco Natal em relatório.
O novo plano estratégico da Petrobras deve tirar a transição energética de vez dos coadjuvantes.
Na segunda-feira (24), Chambriard disse que a empresa tem o desafio de compatibilizar a geração de energia e a transição energética, mas que o plano estratégico de negócios 2026-2030 vai trazer essa mensagem.
"Com a demanda de energia crescendo, nós Petrobras precisamos crescer juntos. Até 2050, a Petrobras pretende crescer junto com o Brasil mantendo a geração de 31% de energia renovável", disse.
"Nos temos uma série de investimentos destinados a atingir o pico da produção do pré-sal será 2030/32. Até lá, está fácil de crescer no Brasil. Mas não esquecemos que, a partir do pico, nós temos que repor reservas. E faremos isso buscando novas áreas, como a Margem Equatorial, que é essencial para nós, mas continuaremos investindo em combustível renovável", acrescentou.
*Com informações do Estadão Conteúdo
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