Tupy (TUPY3) azeda na bolsa após indicação de ministro de Lula gerar ira de conselheiro. Será mais um ano para esquecer?
A indicação do ministro da Defesa para o conselho do grupo não foi bem recebida por membros do colegiado; entenda

Investidores da Tupy (TUPY3) não veem a hora de 2025 acabar. A companhia foi assolada por disputas políticas, queda de resultados, renegociação de dívidas e, como cereja do bolo, os impactos das tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Não por acaso, a ação acumula queda de 44% no ano. Por volta das 15h da última segunda-feira (23), os papéis tocaram a mínima do dia, com recuo de 2,45%, a R$ 11,92 — levando a companhia ao mesmo patamar de preços de 2020.
Desta vez, o novo ruído veio do conselho de administração. Em ata publicada mais cedo, o presidente do colegiado, Jaime Luiz Kalsing, lamentou a renúncia de Marcio Bernardo Spata.
Para o lugar, a BNDESPar — braço de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que detém cerca de 30% da Tupy — indicou José Múcio Monteiro Filho, atual ministro da Defesa. O movimento acendeu o alerta para uma possível ingerência política na companhia.
Segundo Kalsing, o momento da companhia exige ‘esforço de todos para a execução dos projetos em andamento’.
O presidente do conselho afirmou ainda considerar inadequada a forma como foi promovida a substituição de membros do colegiado no curso dos respectivos mandatos.
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Já Tiago Cesar dos Santos foi indicado para assumir o conselho fiscal, após a renúncia de Marcos Alberto Pereira Motta.
Ira de conselheiro da Tupy
Mauro Cunha pediu a palavra para protestar contra a mudança — e foi atendido. Na ata, Cunha afirma ter recebido a renúncia com surpresa e decepção.
‘Não se trata de uma primeira ocorrência. É, na verdade, uma repetição do ocorrido em 2023, quando funcionários do BNDES eleitos para o Conselho de Administração da Tupy renunciaram aos seus cargos para acomodar indicações políticas. O resultado foi dramático no preço das ações’, afirmou.
A indicação do ministro da Defesa para o colegiado do grupo não é a primeira feita pelo governo Lula.
Anielle Franco (Igualdade Racial), Carlos Lupi (então ministro da Previdência) e Vinícius Marques de Carvalho (Controladoria Geral da União) ocuparam assentos no conselho da Tupy de 2023 até o início deste ano.
Segundo Cunha, as consequências agora se repetem em um momento crítico, marcado pela deterioração dos resultados da companhia e logo após uma renegociação difícil e dispendiosa dos covenants das dívidas.
‘Embora se compreenda que o Sr. Spata, funcionário do BNDES, busque obedecer às orientações de seu empregador, essa conduta não poderia, em nenhuma hipótese, se sobrepor aos seus deveres fiduciários enquanto conselheiro e administrador da Tupy’.
Cunha vai além ao afirmar que a renúncia, motivada exclusivamente por razões políticas, é incompatível com os deveres fiduciários previstos na Lei 6.404/76.
‘Pelo contrário, ela tende a causar prejuízos adicionais à Tupy em um momento de altíssima criticidade’, disse.
Nada contra, mas…
O conselheiro ressaltou que não tem objeções pessoais ao nome indicado. O problema, segundo ele, é a falta de experiência técnica.
‘Não existe nada no material enviado que sugira que o indicado agregue valor aos desafios enfrentados pelo conselho de administração da Tupy neste momento. Que se diga com todas as letras: trata-se unicamente de uma indicação política’.
Cunha acrescenta que a companhia sofrerá prejuízo imediato, já que Spata, por ser funcionário do BNDES, abria mão de sua remuneração como conselheiro — algo que, segundo ele, não deve se repetir com o novo indicado.
‘Assim, para além da detestável quebra das boas práticas de indicação de administradores e da potencial inclusão de um membro que não adiciona as capacitações necessárias ao conselho, teremos um aumento imediato de custos que nada acrescenta à Tupy’.
Alô, CVM
Cunha afirmou ainda que ingressará com denúncia junto à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contra Marcio Spata, por quebra de dever fiduciário ao renunciar ao mandato para viabilizar uma indicação política em prejuízo da companhia.
‘Reservo-me também o direito de adotar outras medidas que se revelem necessárias para a proteção da companhia, como me opor e denunciar quaisquer deliberações que, sob políticas inócuas e ineficazes, busquem respaldar o fato que está se configurando: uma indicação política feita pelo governo federal, por meio do BNDES, em prejuízo de uma companhia de capital aberto’.
O que diz o BNDES?
Em nota enviada a pedido do Money Times, o BNDES Par diz que a indicação de lideranças dos setores público e privado para conselhos de administração das investidas busca levar experiência às instâncias estratégicas dessas empresas, em seu melhor interesse, sem descuidar dos interesses do BNDES e do seu controlador.
Além disso, todas essas indicações seguem regras legais aplicadas ao mercado de capitais, bem como estão em consonância com as melhores práticas de governança corporativa, prestigiando, a diversidade na composição do Conselho de Administração.
“No caso da indicação do ministro Mucio para o conselho da Tupy, trata-se de um profissional com larga, exitosa e reconhecida experiência de gestão. Engenheiro civil de formação, Múcio já foi ministro e presidente do TCU, deputado federal por cinco mandatos, além de prefeito de Rio Formoso e secretário de Planejamento do Recife. Portanto, cumpre todos os requisitos e possui excelente qualificação para desempenhar a função em questão”.
Ano para esquecer
Em março, a Tupy já havia passado por turbulências com a troca no comando executivo. Fernando Rizzo deixou o cargo de CEO para dar lugar a Rafael Lucchesi.
Engenheiro de formação, Rizzo é considerado um dos arquitetos da recuperação e da reestruturação da companhia nos últimos anos.
A escolha de Lucchesi, que não fazia parte dos quadros da Tupy, foi questionada por acionistas minoritários, que apontaram falta de experiência operacional e uma indicação de viés político — já que o executivo é ligado ao BNDES.
À época, em entrevista à Folha de S.Paulo, Camilo Marcantonio afirmou que a trajetória profissional de Lucchesi não é típica de um executivo de empresa industrial.
Resultados pressionados na Tupy
No meio de toda essa turbulência, a companhia também não tem entregado bons resultados. Em relatório recente, a XP apontou mais um trimestre pressionado, com Ebitda ajustado de R$ 165 milhões — queda de 51%.
‘A empresa continua enfrentando um cenário de demanda mais difícil, com incertezas macroeconômicas, taxas de frete mais baixas e normalização dos estoques das OEMs (fabricantes de equipamentos originais), o que dificulta a demanda por veículos comerciais, especialmente nos Estados Unidos’.
Embora veja uma recuperação no curto prazo como improvável — com a própria Tupy sinalizando que os próximos trimestres seguirão desafiadores —, a XP afirma que ‘as iniciativas de reestruturação podem começar a gerar melhorias a partir de 2026’, à medida que a companhia se ajusta a uma perspectiva de volumes menores.
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