A Raízen (RAIZ4) não quer mais saber do Oxxo? Por que a empresa pode vender a rede de lojas de conveniência após expansão agressiva em SP
Rumores sobre a potencial venda da participação no Grupo Nós, dono da marca Oxxo no Brasil, ganharam força na semana passada. Saiba o que esperar das ações RAIZ4 agora

Depois de abrir caminho pelo estado de São Paulo numa marcha implacável de conquista de território nos últimos anos, inaugurando lojas do Oxxo em praticamente todas as esquinas, a Raízen (RAIZ4) parece estar pronta para repensar a estratégia — e avalia deixar para trás a era de expansão agressiva e se desfazer da participação na rede de lojas de conveniência.
Os rumores sobre uma potencial operação nesse sentido ganharam força na semana passada. De acordo com a Bloomberg, a Raízen considera operações com duas participações relevantes: uma em suas usinas de etanol de segunda geração (E2G) e outra no Grupo Nós, a operadora brasileira das lojas de conveniência Oxxo.
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Para o negócio de E2G, a ideia seria encontrar um parceiro que estivesse disposto a aportar capital para desenvolver uma nova unidade de negócios que reúna todos os ativos relacionados à operação.
“A concretização de alguma medida nessa linha seria bastante positiva. O projeto E2G, apesar de acreditarmos no potencial de retorno de longo prazo, exige a execução de um capex relevante para a construção das plantas”, afirmou Henrique Cavalcante, analista da Empiricus Research.
“Com a injeção de capital do novo parceiro, a Raízen evitaria os investimentos recorrentes nas plantas operacionais, que se financiariam a partir dos seus próprios lucros.”
Já para o Oxxo, a transação seria de venda da fatia de 50% que a Raízen detém no Grupo Nós, que opera a marca no Brasil.
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O objetivo seria levantar recursos para novos investimentos e também avançar no processo de desalavancagem — não só da companhia, como também da holding controladora Cosan (CSAN3).
Até o momento, não há qualquer confirmação de que a Raízen vá fechar acordos em breve. No entanto, o CEO Nelson Gomes já deixou a porta aberta para “dar o tratamento necessário” a negócios secundários, como é o caso do próprio Oxxo.
Em conferência com analistas sobre o resultado do terceiro trimestre, o diretor presidente afirmou que a empresa iniciou uma “nova fase de como gerenciar o portfólio”, com foco reforçado nas origens da companhia.
A nova estratégia da Raízen (RAIZ4) e da Cosan (CSAN3)
Na avaliação do BTG Pactual, as mudanças recentes na gestão da Raízen (RAIZ4) aceleram a probabilidade de uma potencial venda do Oxxo.
No fim de outubro, o Grupo Cosan passou por uma reestruturação corporativa do alto escalão, que resultou na chegada de um novo CEO para a produtora de biocombustíveis.
Ex-diretor presidente da holding Cosan, Nelson Gomes chegou à Raízen com um mandato claro de ajudar a empresa a navegar no plano de desalavancagem em andamento — e as vendas das participações de E2G e do Oxxo seriam alternativas para acelerar o processo.
“Nós percebemos, ao longo dos últimos meses, uma clara necessidade de ajuste de rota no portfólio da Raízen e da maneira como a companhia vem conduzindo seus negócios”, disse o presidente da empresa, em teleconferência recente com analistas.
“Ao longo dos anos, nós nos afastamos do nosso core business. Criamos uma série de iniciativas periféricas que acabaram tomando atenção do management, crescendo e tornando a estrutura talvez complexa demais para que o mercado entenda todas as fontes de receita do portfólio. Agora, entramos em uma fase de garantir que os investimentos que fizemos tenham um retorno adequado para o acionista. Vamos focar no negócio de mobilidade e de açúcar e etanol — e, nos periféricos, dar o tratamento que acharmos necessário”, acrescentou.
Vem venda pela frente?
Apesar da valorização em termos financeiros e da expansão robusta do Oxxo, a rede de postos de conveniência hoje não é considerada um ativo estratégico para os negócios da Raízen, de acordo com a Bloomberg.
Na visão de Henrique Cavalcante, analista da Empiricus Research, ainda que a Raízen não tenha confirmado o interesse em vender o Oxxo, potenciais avanços em negócios que viabilizem a redução no endividamento da Cosan (CSAN3) são cruciais para a tese de investimento.
“Com mais de 500 mercados no Brasil, a contribuição da operação do Oxxo para o resultado consolidado da Raízen hoje é irrelevante, e enxergamos pouco potencial futuro, além de não identificarmos relação com o negócio principal de açúcar e etanol”, afirmou o analista.
Há quem avalie inclusive que a Raízen não deve ser a única empresa do grupo de Rubens Ometto a passar por potenciais mudanças de portfólio no futuro.
Marcelo Inoue, head de Equities Research da Perfin Equities, que gerencia mais de R$ 1 bilhão em ativos, considera a venda de ativos uma estratégia viável para todo o Grupo Cosan levantar capital e diminuir as dívidas.
Segundo o gestor, a recente tentativa da holding de abrir o capital da subsidiária Moove nos Estados Unidos foi um primeiro indicativo desta abordagem.
“Dado o atual nível de alavancagem do grupo e da Raízen, se uma venda da fatia do Oxxo acontecer, e a um nível de valuation bom, esse movimento tende a ser visto com bons olhos”, avaliou Inoue.
Para um gestor com posição comprada nas ações da Cosan, a perspectiva será positiva se a Raízen der o pontapé inicial no movimento dentro da holding — e reforçaria o comprometimento da administração com a desalavancagem dos negócios, geração de caixa e direção estratégica no grupo como um todo.
Oxxo: da expansão agressiva à potencial venda
Os rumores sobre a possível venda da fatia da Raízen na rede de lojas de conveniência acontecem quase cinco anos depois do início do plano agressivo de fincar a bandeira do Oxxo em São Paulo.
Foi em 2019 que a Raízen criou o Grupo Nós, a joint venture responsável pelo negócio de lojas de conveniência e pelo controle da marca Shell Select, que possui junto com a mexicana Femsa, que opera as marcas da Coca-Cola na América Latina.
A nova empresa surgiu com o objetivo de acelerar a expansão de lojas de postos de combustíveis e criar uma rede do Oxxo fora dos postos no Brasil — com a meta ambiciosa de competir com grandes varejistas do país, como Pão de Açúcar e Carrefour.
Após cinco anos, o Grupo Nós transformou a paisagem urbana paulista com um exército de lojas. A companhia encerrou o terceiro trimestre com 564 lojas Oxxo autônomas, 33 lojas Shell Select e administrando 1.243 lojas franqueadas Shell Select no Brasil.
“Acreditamos que o valuation inicial de R$ 1,12 bilhão para 100% do Grupo Nós (R$ 561 milhões de cada sócio) provavelmente subiu desde 2019, dado o grau de sucesso do formato”, disse o BTG. “Hoje um preço realista para a participação de 50% no negócio giraria em torno de R$ 800 milhões.”
É por isso que o BTG vê um comprador “óbvio” caso a Raízen (RAIZ4) realmente decida se desfazer de parte do portfólio: a própria Femsa.
Em conversas com investidores e analistas, a companhia mexicana não hesita em destacar o entusiasmo com relação ao Oxxo no Brasil, apesar de a operação estar perdendo dinheiro até agora.
“A Femsa passou os últimos dois anos dizendo o quão animada está com o Oxxo no Brasil, tem um monte de capital e pode ver isso como uma oportunidade única de puxar o gatilho para possuir 100% do Oxxo no Brasil”, avaliou o BTG.
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Segundo o banco, essa transação dificilmente moveria a agulha do ponto de vista financeiro, já que corresponde a 1% do valor de mercado da Femsa, mas seria um sinal de que eles estão otimistas com rede de lojas de conveniência e dispostos a tocar esse negócio sozinhos.
Por outro lado, o Oxxo é um ativo que queima dinheiro em um país onde é difícil fazer negócios e onde historicamente tem sido muito difícil gerar valor no setor de varejo.
“Este é um momento em que os valuations para varejistas estão baixos em relação à média histórica — e a Raízen também indicou que precisa do dinheiro para outro projeto, então talvez o grau de urgência leve a um ponto de preço mais baixo”, avaliaram os analistas.
O cenário atual de altas taxas de juros no Brasil e acirrada concorrência no e-commerce poderia atrapalhar uma eventual venda da fatia da Raízen no Oxxo — pelo menos, nos termos financeiros que a companhia do grupo Cosan almeja.
Raízen (RAIZ4) em busca da desalavancagem
As discussões sobre potenciais mudanças no portfólio da Raízen (RAIZ4) acontecem em um momento de forte pressão para a companhia — tanto para as ações na bolsa quanto do lado das finanças.
Para Marcelo Inoue, gestor da Perfin Equities, o Grupo Cosan tem uma “história de crescimento impressionante que resultou na formação de um conglomerado diversificado de bons ativos”, mas a situação atual da Raízen preocupa.
Nos últimos anos, a companhia esteve muito focada em crescimento com altos níveis de investimentos, o que explica parte dos problemas que enfrenta atualmente do lado dos indicadores financeiros.
A Raízen não só teve um prejuízo milionário, como ainda registrou forte desaceleração na geração de caixa no segundo trimestre da safra 2024/2025.
Veja os destaques do balanço:
- Prejuízo líquido: R$ 158,3 milhões, revertendo o lucro de R$ 28,4 milhões no 3T23;
- Receita líquida: R$ 72,909 bilhões (+22,36% a/a);
- Ebitda: R$ 4,619 bilhões (+6,4% a/a);
- Fluxo de Caixa Operacional (FCO) do 3T24: R$ 193,6 milhões (-92,9% a/a);
- Fluxo de Caixa Operacional (FCO) do 9M24: - R$ 7,65 bilhões (piora de 211% a/a);
- Dívida líquida total: R$ 35,9 bilhões (+19,5% a/a);
- Alavancagem (dívida líquida/Ebitda ajustado dos últimos 12 meses): 2,6 vezes (+0,7 vez a/a).
Não à toa, uma das principais cobranças do mercado hoje é que a empresa se mantenha no curso da desalavancagem e contenção de gastos, a fim de melhorar a geração de caixa e a rentabilidade.
O que esperar das ações daqui para frente
Apesar da situação financeira apertada, a visão majoritária do mercado ainda é positiva para a Raízen. Das 11 recomendações para as ações RAIZ4 compiladas pela plataforma TradeMap, todas são de compra.
Parte do otimismo com a companhia vem justamente do preço. Os papéis RAIZ4 perderam mais da metade do valor desde a abertura de capital na B3, com recuo de 59% desde 2021. Só neste ano, a desvalorização chega a 33%.
Para o BB Investimentos (BB-BI), os papéis encontram-se em um ponto de entrada interessante, negociados próximos das mínimas históricas e dos últimos 12 meses.
Segundo a XP Investimentos, os fundamentos sugerem um desempenho inferior no curto prazo — mas os analistas também não recomendam apostar na queda das ações com posições vendidas (short).
“A estratégia contínua de reciclagem de portfólio da companhia pode atuar como uma surpresa positiva, gerando um sentimento positivo para a ação.”
De acordo com o gestor de ações da Perfin, Marcelo Inoue, a tendência é positiva para a Raízen no longo prazo. “Num horizonte bem longo, de três anos ou mais, a ação pode se provar uma oportunidade, pois é quando os resultados dos projetos de E2G se materializam. Mas, até lá, existe o risco dos juros seguirem altos e continuarem pressionando”, avaliou.
A pressão dos juros elevados no endividamento não é a única questão no horizonte da Raízen.
Uma eventual queda dos preços do petróleo também afeta a precificação do etanol e, consequentemente, do açúcar — o que pode prejudicar diretamente o resultado operacional da divisão de açúcar e etanol da Raízen.
Há ainda o “risco Petrobras”: caso a estatal decida vender combustíveis abaixo da paridade internacional, os preços do etanol receberão um fator adicional de pressão.
Procurada pelo Seu Dinheiro, a Raízen preferiu não comentar o assunto.
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