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Bruno Ferrari renuncia ao cargo de CEO; empresa afirma que mudança abre caminho para uma nova fase de reestruturação
O ciclo de Bruno Ferrari no comando da Oncoclínicas (ONCO3) chegou ao fim. Após meses de pressão de investidores, turbulência financeira e uma queda brutal das ações na bolsa, o fundador decidiu deixar o cargo de CEO da rede de tratamentos oncológicos.
A mudança ocorre após meses de discussões internas sobre a necessidade de renovar a liderança para conduzir o processo de reestruturação da empresa, depois de anos de expansão agressiva e de uma série de apostas estratégicas erradas que acabaram por pressionar as finanças.
Como o Seu Dinheiro já havia antecipado, a companhia vinha trabalhando nos bastidores em um processo de sucessão e buscava executivos externos para reforçar o alto escalão e conduzir uma fase de reestruturação.
A expectativa inicial era de uma transição suave: Ferrari deixaria o comando executivo, mas assumiria a presidência do conselho de administração (chairman), mantendo influência estratégica na companhia que fundou.
Mas o desfecho foi diferente. Além de renunciar ao cargo de diretor-presidente — posição que ocupava desde outubro de 2021 —, o executivo também decidiu abrir mão do cargo de chairman.
Pela estrutura aprovada em assembleia em janeiro de 2026, ele assumiria automaticamente o posto quando deixasse a função executiva.
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Porém, Ferrari optou por permanecer apenas como vice-presidente do conselho e membro do colegiado, se afastando da liderança direta da companhia.
Para ocupar a cadeira deixada pelo fundador, o conselho de administração aprovou a eleição de Carlos Gil Moreira Ferreira como CEO interino.

Médico oncologista, Ferreira tem trajetória longa dentro da própria Oncoclínicas. Ele ingressou na empresa em 2018 como presidente do Instituto Oncoclínicas e, desde 2021, exercia a função de diretor médico da companhia.
Agora, além de assumir temporariamente a posição de CEO até que o processo formal de sucessão seja concluído, Ferreira ficará responsável por liderar todas as áreas médicas e científicas da organização.
“Assumo a Presidência com prioridade absoluta na execução do plano estratégico e na consolidação de uma gestão disciplinada, sustentável e orientada a resultados. Vamos avançar na simplificação da estrutura, no ganho de eficiência operacional e na preservação do padrão assistencial que define a Oncoclínicas”, disse Carlos Gil, em nota à imprensa.
Na nova estrutura de gestão, Camille Loyo Faria, vice-presidente executiva e diretora financeira (CFO) e de relações com investidores (DRI), continuará à frente das áreas corporativas e de negócios.
Mais importante que isso, Faria seguirá conduzindo a reestruturação financeira e o turnaround operacional da Oncoclínicas.
“Estamos concentrados em fortalecer a disciplina financeira e acelerar a agenda de eficiência operacional. O foco é ampliar a geração de caixa, otimizar a alocação de capital e simplificar a estrutura organizacional, estabelecendo bases sólidas para o crescimento sustentável da companhia”, disse a executiva.
Segundo a Oncoclínicas, a integração entre a liderança clínica capitaneada por Carlos Gil e a liderança financeira e operacional capitaneada por Camille Faria “amplia a capacidade da companhia de avançar com rigor, previsibilidade e alinhamento absoluto ao seu core business”.
A troca no comando da empresa pode ser apenas o primeiro passo de uma reestruturação mais ampla na liderança da Oncoclínicas.
Segundo apuração do Seu Dinheiro, a Oncoclínicas contratou no fim de 2025 a consultoria internacional Spencer Stuart para ajudar no recrutamento de novos executivos para a alta diretoria.
A prioridade inicial seria trazer profissionais com experiência em reestruturações empresariais e gestão de crises — um perfil considerado essencial para a fase atual da companhia.
“Todas as posições na alta direção estão sendo discutidas. E a preferência, inicialmente, é por nomes de fora da empresa”, afirmou uma fonte de mercado próxima às conversas à época.
Questionada pela reportagem sobre potenciais movimentos futuros de reorganização, a Oncoclínicas não retornou o contato. O esaço segue aberto.
Fundada em 2010 por Bruno Ferrari em Belo Horizonte, a Oncoclínicas nasceu com uma proposta ambiciosa: consolidar clínicas especializadas em oncologia e criar uma rede nacional de atendimento. O crescimento foi baseado em uma estratégia agressiva de aquisições.
Durante anos, a estratégia funcionou. Com movimentos ousados, como a entrada no segmento hospitalar e parcerias agressivas com pagadores arriscados como a Unimed-Rio, a empresa rapidamente se tornou um dos maiores grupos de oncologia da América Latina.
Com o tempo, porém, parte das apostas estratégicas começou a cobrar seu preço. Algumas dessas decisões acabaram pressionando a geração de caixa e contribuindo para a deterioração das finanças da empresa.
O impacto na bolsa foi severo. Desde a estreia na B3, em 2021, as ações ONCO3 acumulam queda próxima de 87%, refletindo a perda de confiança de investidores e a revisão das perspectivas para o negócio.
Diante do cenário adverso, a Oncoclínicas iniciou um amplo processo de reorganização em outubro de 2025. O plano inclui medidas para reduzir a queima de caixa, reorganizar operações e restaurar a confiança do mercado.
Esse esforço incluiu um novo aumento de capital bilionário — o terceiro em apenas três anos — e iniciativas de desinvestimentos e renegociações para reduzir o endividamento e a recuperar geração de caixa.
No auge da crise, gestores especializados em ativos estressados, como a Starboard Asset, chegaram a propor uma intervenção mais dura na companhia, mas a Oncoclínicas rejeitou o desenho proposto.
Na época, a companhia chegou a divulgar um comunicado reforçando que Bruno Ferrari permaneceria no comando.
Para parte do mercado, porém, a perspectiva de manutenção do fundador no comando da Oncoclínicas era vista como um entrave para a reconstrução da empresa e atrapalhava a tentativa da companhia de restaurar a confiança dos investidores.
“O Bruno Ferrari já não é mais consenso, nem no mercado de oncologia, nem no mercado financeiro. Ele perdeu a mão da operação. A companhia já perdeu o DNA do passado e vai precisar se reinventar”, disse um gestor à época.
Em entrevistas concedidas naquele período, Ferrari chegou a admitir erros estratégicos. Ao NeoFeed, o executivo afirmou que a empresa havia cometido “um desvio de rota que não funcionou”, embora tenha descartado deixar o cargo naquele momento.
“Isso nunca foi ventilado. O conselho confiou em mim para liderar esse processo de volta às origens da companhia”, afirmou na ocasião.
A troca no comando também reflete mudanças importantes na estrutura acionária da empresa.
O aumento de capital recente redesenhou o mapa de acionistas da Oncoclínicas, diluindo participações relevantes — como as do Banco Master, Goldman Sachs e da gestora Centaurus — e abrindo espaço para novos investidores.
Esses novos acionistas, segundo fontes próximas ao processo, estariam interessados em participar de forma mais ativa da reconstrução da companhia.
“Nada mais natural do que um conselho que reflita essa nova composição acionária”, disse um executivo envolvido nas discussões.
Em novembro, um grupo de acionistas liderado pela gestora Latache, que detém cerca de 14% do capital da companhia, chegou a solicitar formalmente a substituição do conselho e a eleição de uma nova chapa.
A proposta previa inicialmente que Ferrari assumisse a presidência do conselho, em um movimento de transição gradual. Agora, com a decisão do fundador de não ocupar esse cargo, abre espaço para um novo rearranjo de poder dentro da companhia.
Embora a troca de comando sinalize uma tentativa de reorganização interna, o pano de fundo da crise da Oncoclínicas ainda é financeiro. Investidores e credores acompanham com preocupação a capacidade de a rede de tratamentos oncológicos administrar sua dívida.
Nesta semana, a agência Fitch Ratings reforçou esse temor ao rebaixar a nota de crédito da empresa, citando deterioração do perfil financeiro e aumento das dúvidas sobre a liquidez da companhia.
“A manutenção de fluxos de caixa das operações negativos e de alta alavancagem restringem ainda mais a flexibilidade financeira da companhia, elevando a probabilidade de a empresa buscar alternativas de financiamento que impliquem em potencial piora de termos para os credores”, avalia a Fitch.
É verdade que a companhia conseguiu algum alívio temporário no fim de 2025. Em novembro, a Oncoclínicas realizou uma capitalização de R$ 1,4 bilhão, por meio de conversão de dívidas em ações.
A operação ajudou a reduzir momentaneamente a pressão sobre a estrutura de capital. Ainda assim, a agência não vê espaço para uma melhora significativa do perfil financeiro da Oncoclínicas no curto prazo.
A expectativa dos analistas é que qualquer recuperação ocorra de forma gradual, ao longo dos próximos anos. “A Oncoclínicas permanece com o importante desafio de recuperar sua rentabilidade e sua geração de caixa no médio prazo”, afirma a Fitch.
A companhia deve divulgar os resultados do quarto trimestre de 2025 (4T25) no dia 30 de março, após o fechamento do mercado.
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