Os Fiagros estão em crise ou é hora de aproveitar a queda das cotas e investir? Gestores e especialistas indicam onde encontrar as melhores oportunidades no setor
Especialistas apontam que o momento atual permite a compra de ativos sólidos a um preço descontado para quem souber separar o joio do trigo.

O ano de 2024 não tem sido fácil para os fundos de investimento em cadeias agroindustriais, com boa parte dos Fiagros listados na B3 acumulando retornos negativos neste ano.
As cotas já vinham sendo penalizadas pelos calotes, recuperações judiciais, inundações e queimadas que afetam os investidores e produtores. Mas, nas últimas semanas, também passaram a sentir o efeito da subida dos juros no Brasil, o que diminui o apetite ao risco do mercado.
Apesar desse cenário, especialistas e gestores dos fundos descartam a hipótese de que o agronegócio e os Fiagros estejam em crise. E apontam que o momento atual permite a compra de ativos sólidos a um preço descontado para quem souber separar o joio do trigo.
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“Brasil é o celeiro do mundo e isso não vai mudar”
Segundo Alexandre Marco, gerente de agro na Kinea, o setor viveu um momento de euforia nos últimos três anos, com preços de commodities elevados que levaram as companhias e produtores a registrarem resultados “excepcionais”.
“Mas quem está no agro há muito tempo sabe da ciclicidade desse setor. Ao longo do tempo os preços sempre vão convergir para a média”, disse ele nesta terça-feira (29) durante o Fiagro Experience, evento organizado pela Suno Asset.
O fim do período de intensa valorização das commodities não necessariamente implica em uma crise do setor. Ainda segundo Marco, a onda de recuperações judiciais vista ao longo deste ano é fruto de situações pontuais, e não de um problema estrutural.
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“O Brasil é o celeiro do mundo e isso não vai mudar. Players que não se posicionaram de forma correta e não tinham uma governança elevada estão tendo problemas, mas o número é muito pequeno em relação ao todo”.
O que provoca a queda dos Fiagros?
Além das incertezas com os preços das commodities e as RJs, o início de um novo ciclo de alta da taxa Selic também afetou o desempenho dos Fiagros na bolsa, assim como o de seus “primos urbanos”, os fundos imobiliários (FIIs).
Para Marcelo Fiorellini, head de Special Assets no BTG Pactual, essa queda reflete uma confusão dos investidores a respeito dos dois produtos e abre uma “grande oportunidade” para quem estiver atento.
“Os fundos imobiliários são naturalmente correlacionados aos juros reais, enquanto os Fiagros são fundos de crédito estruturado que, apesar de estarem atrelados ao CDI, estão sendo colocados no mesmo balaio dos FIIs”, afirmou Fiorellini.
Vale relembrar que o CDI acompanha de perto as variações da taxa Selic. Ou seja, com os juros subindo, o rendimento dos títulos atrelados ao indexador — e, consequentemente, dos fundos que detêm esses ativos — também tende a aumentar.
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Em quais setores estão as maiores oportunidades, na visão dos especialistas
Apesar de a queda das cotas pós-alta de juros gerar estranhamento entre os especialistas do mercado, os gestores admitem que a situação cria um momento oportuno para quem souber onde procurar bons ativos, seja ele produtor ou investidor.
“O produtor mais estruturado aproveita o ciclo de baixa para comprar terras e fazer investimentos. E vemos isso se repetindo dentro dos próprios Fiagros”, citou Marcos Bertomeu, diretor responsável pela gestão de fundos do agronegócio na Fator ORE Asset.
Bertomeu alerta que o mercado agro exige cautela, mas destaca que é “dentro dele que moram as oportunidades”. “No pânico gerado, vemos carteiras saudáveis, com devedores de qualidade e garantias robustas, muito descontadas.”
A Kinea, que já se aproxima dos R$ 3 bilhões sob gestão no segmento e gere o maior Fiagro da indústria brasileira, pretende aproveitar o momento para seguir em expansão.
Alexandre Marco dá uma dica sobre o que está no radar da gestora: “O café subiu muito de preço nos últimos 12 meses, e o açúcar e o etanol também estão em um momento positivo”. Fiorellini, do BTG, também diz que esses dois últimos segmentos vivem um “momento espetacular”.
Já Mauro Osaki, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP, indica que, em termos de margem, o que tem entregado números mais confortáveis nos últimos anos é o setor de grãos.
Osaki conta que o segmento é impulsionado pela própria extensão dos cultivos — o Brasil é um dos maiores produtores de grãos do mundo — e valores internacionais “bastante atrativos”. “Outros setores são mais concentrados, então a margem fica mais difícil para um médio ou pequeno produtor”, argumenta o pesquisador.
Vale a pena investir no agro diretamente via CRA?
Vale destacar que, além dos Fiagros, existe outra forma de o investidor se expor ao mercado agro: os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), títulos isentos de Imposto de Renda que estão no portfólio dos fundos do setor e também podem ser comprados pelas pessoas físicas.
Mas o investimento direto nesse ativo não é recomendado pelos especialistas, que alertam para os riscos. “Se não for um nome triple A, aquele que não causa nenhuma dúvida, não se meta em CRA”, diz Vitor Duarte, CIO da Suno Asset.
Bertomeu, da Fator Asset, acredita que é “extremamente perigoso” para uma pessoa física comprar os títulos diretamente, pois a maior parte do varejo não tem o tempo e os recursos necessários para acompanhar de perto a saúde financeira dos devedores em uma situação de risco concentrado em apenas alguns players.
“A beleza do Fiagro é que o investidor pode estar exposto a um setor importante na nossa economia com uma gestão profissional, feita por equipes com experiência e profissionais que estão no campo antecipando os problemas, e com uma carteira diversificada.”
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